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Edição Nº 52 Director: Mário Lopes Sábado, 29 de Janeiro de 2005
Opinião
O Terramoto de Lisboa e a invenção do mundo

  O autor de "O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo"

O génio de Eugénio dos Santos, o arquitecto da reconstrução de Lisboa após o terramoto, nascido em Aljubarrota, constitui o fio condutor do romance "O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo", da minha autoria. Não é apenas o reposicionamento no lugar que este precursor do moderno urbanismo deve ter na história nacional e universal. O romance faz uma vasta digressão por grande parte da segunda metade do século XVIII na sociedade portuguesa.

A intensidade narrativa e a expressão a um tempo impetuosa e lírica da escrita conjugam-se com a arquitectura sólida do romance, que se constrói de engenho, conhecimento e sonho.

A par de personagens ficcionadas onde sobressai a Migrela, a mulher da vida do arquitecto, ou o Coxo das Águas Livres, o truculento tecedor de enredos e espectador de atentados e tragédias, surgem personagens reais, na força de sua humanidade, Manuel da Maia, Frei João de Mansilha, José Policarpo de Azevedo e o jesuíta Pe. Melro, narrador de memórias que se espalham pelo passado da história portuguesa e, claro, o arquitecto, e o todo, tendo como fundo suposto e presente, quanto baste, o marquês de Pombal.

A lírica dramática ou de encanto surgem na sua beleza barroca e densa nos amores do rei José e da Marquesa nova de Távora, do poeta Correia Garção e da inglesinha Jesebel, do arquitecto e da figura cheia de plenitude da Migrela.

No caminho da ficção surgem as histórias breves ou desenvolvidas de figuras e vivências reais, os Távoras e sua tragédia; o terramoto e a sua destruição aterradora na "era que tem dois cincos" na visão profética do Bandarra, a alçada do Porto e o seu excesso e crueldade; o poeta Correia Garção levado por um amor sublime e extinguindo-se na enxovia da Junqueira "que um velho ter amor não é tontice"; Policarpo, o atirador do atentado fugindo aos horrores do "chão salgado" para além da longa raiz do ódio; ou a tragédia de Malagrida, santo, louco, ou mentecapto, ardendo no Rossio na fogueira da Inquisição. Sobre tudo isto está Eugénio dos Santos, reflexivo e construtor de futuros, numa época de cisão entre um mundo dominado por mitos e preconceitos e um outro à procura da racionalidade, da explicação por causas naturais e do reposicionamento do homem no centro da sua própria evolução.

Não deixa o leitor de ser conduzido pelo relato dos planos do arquitecto para a Baixa, com suas ruas nobres (a dos Ourives do Ouro, a Augusta, a Bela da Rainha) as suas travessas, qualquer delas com largura exagerada para a época (sessenta palmos), a "técnica da gaiola", a normalização, os quebra-fogos, o saneamento, o sonho construtivo de vencer o sismo futuro.

De facto nas margens revoltas de uma época convulsiva vive um homem que inventa, entre a liberdade sonhadora e a matemática da concretização, uma nova cidade e um mundo novo, nascido dos escombros da catástrofe insana, pela criatividade lúcida, apaixonada e oportuna de sua mente genial.

Não se creia, porém, que o romance se confina a uma narrativa documentada sobre o período do despotismo pombalino e a Viradeira. Para além do desenho forte das personagens há no romance matéria extensa para uma reflexão sobre os homens, os seus comportamentos e sentimentos, as ambições e a embriaguês do poder, a grandeza e a impotência, os erros e acertos. "Erros são as certezas e acertos as interrogações. Fica a mudança, essa velha doida que se apodera do tempo". E as grandes interrogações que o terramoto deixou, sobre a vida, o homem e a Divindade, interrogações que se repercutiram em todos os pensadores da Europa e desembocariam na revolução francesa. O terramoto, é o momento primeiro da invenção do mundo moderno.

Obra onde a poética de situações se cruza com a rudeza do injusto modo de fazer justiça, e os hábitos de uma tradição regrista chocam com uma nova visão nascente no iluminismo racionalizante da visão do mundo. Eugénio dos Santos é o ponto confluente da reflexão e dos actos, criando num devaneio quase demiúrgico a ordem a partir do caos, alterando para sempre a fisionomia da cidade em traços que anunciavam o advento de um novo urbanismo.

Mas os homens raramente perdoam a um espírito que ousa rasgar horizontes infinitos, e o arquitecto não foi excepção. Abateu-se sobre ele a voz alucinada e soberba de pregadores que na tragédia viam castigos da cólera divina e no sofrimento a condenação de pecados velhos. A convulsão dos ódios cerceou-lhe a vida breve e excessiva toldando-lhe a mente de incertezas.

Romance de um homem e uma época com o descritivo de personagens que marcarão a literatura portuguesa e o desenho de situações vincadas pela rudeza trágica do ódio e da luta pelo poder.

Há pessoas que não têm escolha. Têm que viver empurradas pelo destino na esquina da viragem da vida. O arquitecto apercebia-se por intuição da "contradição das circunstâncias e dos muitos lados que o homem tem". Mas isso "todo o homem é um nómada de acertos e desacertos".

O tempo teve a sua variação no dia da Viradeira.

Extinto o arquitecto, caído o déspota Pombal, louca a Migrela, no apagamento da morte ou dos conventos aqueles e aquelas que foram a causa das coisas, restavam as memórias.

Resta a obra na sua perenidade. E o tempo que se repete e renova. "O tempo que é essa coisa que se inventa para julgar que ainda somos".


          Luís Rosa

29-01-2005
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