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Edição Nº 60 Director: Mário Lopes Terça, 4 de Outubro de 2005
Opinião
José Malhoa e Rafael Bordalo Pinheiro: figuras cimeiras das Caldas da Rainha

Matilde Tomaz do Couto 

Desde há séculos que as Caldas da Rainha testemunham e motivam a presença das artes na sua vivência e na vocação das suas gentes, seja através da arquitectura, da cerâmica ou do bordado, seja na pintura ou na escultura. A igreja neomanuelina de Nossa Senhora do Pópulo, os barristas caldenses, o pintor maneirista Belchior de Matos ou, nos nossos dias, os mestres escultores António Duarte e João Fragoso são apenas alguns importantes exemplos, respigados ao longo dos tempos, deste destino artístico que caracteriza e distingue a cidade.

José Malhoa (1855-1933) e Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) manifestam-se como figuras cimeiras desta plêiade de artistas naturais das Caldas ou que aqui radicaram a sua criação, assim contribuindo para erguer a própria identidade da terra.

A 23 de Janeiro de 2005, passou o Centenário da Morte de Rafael Bordalo Pinheiro. Artista multifacetado instala-se na vila, em 1884, como Director Artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, assim se fazendo "oleiro" num momento decisivo para a renovação e o desenvolvimento plástico e técnico da cerâmica local. Foi também a oportunidade de intervenção do seu génio no tecido social da terra, que assim logra um comentário regular e humorado nas revistas e desenhos de Bordalo.

A 28 de Abril, celebraram-se 150 Anos do Nascimento de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Artista notável no quadro cultural português, a criação do Museu de José Malhoa foi um desiderato que teve lugar ainda em vida do pintor, sendo inaugurado a 28 de Abril de 1934, no primeiro aniversário natalício após a sua morte.

Estas efemérides de particular relevo vêm mais uma vez colocar em destaque as obras dos artistas e o seu percurso de homens inseridos no seu tempo e numa geração notável. José Vital Branco Malhoa nasce a 28 de Abril de 1855, no centro histórico das Caldas da Rainha. A 15 de Maio, é baptizado na igreja matriz de Nossa Senhora do Pópulo, invocada a Virgem como sua madrinha. De 1867 a 1875, frequenta a Academia Real de Belas Artes de Lisboa.

A obra de José Malhoa resume um conceito de pintura fundamentado na paisagem, na figura, no estudo da luz, no ar livre e no sol como protagonista da vibração da cor. É todo um programa coerente que desenvolve desde o óleo "Mata das Caldas" (1873) e cresce em dádiva e criação artística até a "As Promessas" (1933), testemunhado pela crítica e pela sua própria epistolografia.

As fases da pintura de Malhoa abrindo-se sucessivamente aos valores lumínicos, com os trabalhos que definitivamente a marcaram, mostram a prevalência do paisagista, interessando-se progressivamente pela figura e a sua acção anímica na paisagem, para a qual é condição o encanto pela luz e o sol. Foi fiel a este percurso, abrindo-se ao estudo, às viagens, ao trabalho por vezes intenso, e almejando criar uma obra vasta e notável, em evolução permanente da leitura da realidade de que quis apoderar-se. José Malhoa morre a 26 de Outubro de 1933, em Figueiró dos Vinhos, é sepultado em Lisboa e homenageado na passagem pelas Caldas da Rainha.


Rafael Bordalo Pinheiro nasce em Lisboa, na Rua da Fé, a 21 de Março de 1846, terceiro filho duma extensa prole de doze irmãos, a quem se seguiria o célebre retratista Columbano. foram seus pais Maria Augusta Prostes e o pintor romântico Manuel Maria Bordalo Pinheiro.

Bordalo revela-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplica a uma contínua intervenção atenta e crítica à vida portuguesa. Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia, à sociedade da época, nas revistas de caricatura e humor que edita, atitude que não raro reflecte na cerâmica que revitaliza nas Caldas da Rainha.

Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a surpreender, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, a 23 de Janeiro de 1905. Espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas, caricaturista "pai" do Zé Povinho, deixa uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do artista, mas também pela intervenção do homem.

Há 150 anos nascia José Malhoa, na então vila das Caldas da Rainha. Meio século volvido, desaparecia Rafael Bordalo Pinheiro da cena portuguesa. Assim se define uma época de poderoso contributo dos dois artistas no seio duma geração que deixou marca definitiva na sociedade, na cultura e na memória colectiva.

O "Grupo do Leão" (1881-1889) - formação que Malhoa e Bordalo integraram, a par de literatos e dos pintores Silva Porto, Columbano, Moura Girão, Rodrigues Vieira, Cipriano Martins, Henrique Pinto, António Ramalho, João Vaz, Ribeiro Cristino - foi o lugar onde se cruzaram e de onde irradiaram muitas destas personalidades do panorama cultural do final de novecentos, numa matriz geracional que convoca escritores e artistas em propósitos comuns.

O realismo na literatura e o naturalismo na pintura motivam o debate e a criação em torno de obras como as de Silva Porto e Columbano ou Marques de Oliveira e Soares dos Reis, da intervenção de Ramalho Ortigão ou Fialho de Almeida ou dos romances de Eça de Queirós e da poesia de Cesário Verde.

Figuras cimeiras na construção do próprio carácter e da face das Caldas da Rainha, José Malhoa e Rafael Bordalo Pinheiro protagonizam relevantes intervenções na cultura portuguesa e traçam o retrato do país, ora na sua ruralidade, ora na actualidade social e política, enquanto Columbano completa essa imagem com a galeria de rostos e figuras dos intelectuais da geração comum.

A época em que Malhoa e de Bordalo viveram revelou-se de intensa criação e discussão cultural, inserida num fecundo cenário artístico que com outros protagonizaram, e que fez perdurar a dimensão da sua arte de e da sua condição de homens inseridos na geração a que pertenceram e nas seguintes, com o contributo criativo que inscreveram no seu tempo e no nosso.


        Matilde Tomaz do Couto

04-10-2005
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