Nuno Miguel Cruz
A política dos últimos 20 anos tem sido marcada por resignação e racionalidade de curto prazo. Não haver ideologia é uma ideologia também. Afinal, o que se pode esperar de políticos que perderam a sua alma, que há 30 anos seguravam o seu livrinho do Mao e liam O Capital, e que desiludidos do seu sonho ficaram envergonhados do seu passado, acabando por vender a sua alma, acabando por a perder. Tornaram-se zombies políticos, cínicos, interessados na sua carreira política, governando, ou deverei dizer, gerindo o país a curto prazo. Errados eles estavam, envergonhados ficaram e perderam a capacidade de sonhar outra vez ou de sequer admitir que outros pudessem ter os seus sonhos. Mas a política sem sonhos é a negação dela própria, e não pode durar ad eternum sem começar a cheirar mal de podre, como se a História tivesse um fim.
Se um papagaio sair de uma universidade formado em economia o que acontecerá? Bom a resposta está à vista. Porque o papagaio continua a ser um papagaio, mesmo que seja bem falante. Onde estão os pensadores da economia?
Em democracia, o povo é soberano na sua escolha, e portanto soberano na sua responsabilidade, daí dizer-se que cada povo tem a democracia que merece. Em democracia não há papões. O sistema está preparado para que tal não haja. Existe separação de poderes, uma Constituição, e pasme-se, eleições de 4 em 4 anos. Em democracia não pode haver medo, se houver, então tem de se questionar se haverá de facto democracia. Assim como se deve questionar a legitimidade democrática do Regime a partir do momento em que as desigualdades económicas imorais e sem justificação ultrapassam os limites do tolerável.
Este fenómeno é uma constante em toda a Europa, daí o projecto europeu ter falhado. Com políticos desta estirpe é impossível haver uma União Europeia, esta só pode ter projecto, bom… se houver projecto, se houver uma racionalidade de longo prazo. A prova de como não existe está no salve-se quem puder que os estados da (des)União adoptaram face à crise económica (estrutural e não conjuntural); na impossibilidade de terem uma política externa, o que, como consequência influenciou o discurso da actual ministra dos negócios estrangeiros dos EUA, quando, ao se referir à reabilitação das relações transatlânticas, ter ignorado pura e simplesmente a Europa e ter mencionado apenas o Reino Unido, a França e a Alemanha. Aliás na (des)União Europeia onde todos os estados são iguais, parece que há alguns mais iguais que outros. Os zombies europeus, não têm a capacidade de entender, nem a coragem de explicar aos povos, que a Europa desunida não tem absolutamente futuro nenhum.
Esta crise económica é estrutural, porque o modelo económico vigente é insustentável. O "Greed is good", pode funcionar a curto prazo, mas carece de qualquer racionalidade a longo prazo. Os recursos do planeta e os seus ecossistemas não aguentam, e o dólar aguentará por quanto tempo? Alguém imagina o que poderá acontecer se o dólar cair? Mas os zombies apoiados pelos papagaios bem falantes em Davos não sabem o que fazer, não conseguem pensar "outside the box". Frankenstein está fazer os seus estragos, e o que se faz? dá-se-lhe mais alimento.
Voltando à lusitana praia, num momento em que a confiança é essencial, que credibilidade tem um 1.º ministro que se vangloria com um estudo sobre as reformas na educação, ao dizer que o estudo é da autoria da OCDE, mas que afinal não é da OCDE…
O que Portugal precisa é de ideias novas e suas, e por ventura influenciar os outros, é assim que se ganha prestígio internacional. O habitual é olhar para as soluções que outros pensaram e depois adaptá-las à nossa realidade, nunca resultando muito bem. O Maio de 68 falhou por ser sobretudo um movimento anti-autoritário, mas a palavra de Ordem "Imaginação ao Poder", essa, continua a ecoar na consciência colectiva de todos nós.
Nuno Miguel Cruz