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Edição Nº 84 Director: Mário Lopes Quinta, 27 de Setembro de 2007
Editorial
A escola da Calçada de Carriche

     


Mário Lopes

Começou no mês de Setembro o novo ano lectivo. Com ele novas promessas de mais creches, de novos centros educativos, de mais ensino profissional e de escola para todo o dia. Medidas que para alguns podem parecer a modernidade e, porventura, uma visão do céu, mas que a mim me causam sérias reservas e inquietações. A noção de escola como a concebemos hoje em dia é recente, terá um século de implantação no mundo inteiro, no máximo. Em Portugal, apenas há meio século a escola se generalizou à maioria da população. Durante milhares de anos, a Cultura, predominantemente rural, foi passada de pais para filhos, de geração em geração. Convém nunca perdermos esta visão antropológica do mundo, sobretudo quando se fazem reformas sociais.

 

      A Cultura é hoje adquirida mais nos bancos da escola e nos meios de comunicação social que por via dos progenitores, o que tem prós e contras. O mundo mudou, mas continuamos a ser os mesmos seres humanos, com o mesmo ADN dos nossos pais e avós. Por mais telemóveis, computadores portáteis e iPods que usem os nossos jovens, as motivações primárias continuam a ser as mesmas.

    Contudo, embora globalmente as escolas sejam idênticas em termos de salas e número de alunos por turma, os jovens que as frequentam hoje, ao nível do 2º e 3º Ciclos e Ensino Secundário, diferem substancialmente dos de há 10, 30 ou 50 anos. A chamada “escola para todos” foi-se impondo e o carácter selectivo da avaliação foi desaparecendo pouco a pouco. Como resultado, os alunos com menor capacidade de aprendizagem passaram a povoar também as salas de aula dos ciclos de ensino mais avançados. Os problemas inerentes subiram também exponencialmente nestas escolas.. 

      Às dificuldades intelectuais de alguns alunos, somam-se outras inerentes à sociedade contemporânea. Em primeiro lugar, a instabilidade familiar, motivada, em parte, por uma maior exigência de felicidade e pela maior consciência dos direitos dos cônjuges. Daí que divórcios e separações não devam ser interpretadas como um mal dos tempos modernos, como alguns querem fazer crer, antes pelo contrário. Para o bem e para o mal, o mundo é rico e complexo e a realização pessoal de cada está muito para além da estabilidade dos casamentos.

      Contudo, não é menos verdade que as famílias com pais separados, monoparentais ou reconstruídas introduzem um grau de complexidade nas relações, que muitas vezes pais e filhos têm dificuldade em gerir. Teoricamente, um pai ou uma mãe podem ter vários relacionamentos/casamentos ao longo da vida e manter uma razoável estabilidade e harmonia familiares. Contudo, a prática demonstra que, muitas vezes, o fim dos relacionamentos deixa marcas e ressentimentos que inevitavelmente interferem negativamente na vida de crianças de jovens, incluindo a escolar.

      Além da desagregação da família nuclear, não podemos esquecer também a desagregação da família de origem dos pais. Com o advento da Globalização, é cada vez mais frequente a deslocalização das famílias por razões profissionais, desaparecendo assim a segunda linha de apoio parental representada por avós e tios. Este é mais um factor que contribui para a instabilidade familiar, que se reflecte no comportamento dos alunos.

      A desagregação familiar, a mobilidade mais ou menos forçada, o individualismo, a vergonha do insucesso social e profissional num mundo cada vez mais competitivo, a pobreza, a violência doméstica, física e psicológica, e os problemas mentais, muito mais frequentes do que imagina, contribuem para o aumento do número de famílias desestruturadas. São estas as crianças e adolescentes que frequentam hoje as nossas escolas e que precisaam de maisapoio especializado e de uma maior aten ção por parte dos professores, só possível com a diminuição do número de alunos por turma.

      Contudo, as escola continuam privadas deste mecanismo essencial de gestão por razões meramente economicistas. E, por mais competente e trabalhador que seja, não há forma de um professor dar a atenção devida a 15 alunos problemáticos integrados numa turma de 25 ou 30 alunos. Basta dividir o número de minutos de uma aula pelo número de alunos para ver que daria pouco mais de um minuto de atenção por aluno! E no final da aula, o professor também não tem tempo para conversas,geralmente, porque tem outra turma já à espera e os horários escolares são para cumprir ao minuto. Definitivamente, sem ovos não se fazem omeletes.

      O Ministério da Educação procura colmatar as dificuldades das famílias em conciliar os horários de trabalho com a falta de tempo para os filhos alargando os horários do 1º Ciclo até às 17h30 horas. Ora, não me parece humano nem positivo para o desenvolvimento das crianças obrigá-las a estar na escola tanto tempo como se estivessem numa fábrica. Mais ainda quando, em muitos casos, têm de percorrer longas distâncias em autocarro de casa até à escola, perfazendo 10 ou 12 horas fora de casa.

      Qualquer professor sabe que o rendimento de uma criança ou adolescente baixa drasticamente após 4 ou 5 horas na escola. O cansaço e a tensão acumulam-se e basta ver a agitação e a gritaria que produzem nos corredores e, porventura, até mesmo dentro das salas de aula. É inevitável. Não são eles que são mal educados, a culpa é de quem faz horários incompatíveis com o seu ritmo biológico natural. É certo que, na maior parte dos casos, as tardes são ocupadas com actividades extra-curriculares, mas mesmo assim, trata-se de uma sobrecarga horária excessiva para crianças tão pequenas, que melhor fariam em ir para casa descansar e/ou brincar.

      Alguns pais e empresários, por certo, adorarão estes horários alargados, porventura, alguns só lamentarão que as crianças não possam ficar na escola até às oito ou nove da noite. É a escola-armazém, o conceito de depósito de crianças no seu melhor, que uma sociedade civilizada deveria rejeitar. Não são os horários escolares que devem ser alargados até ao limite, são os horários de trabalho e as condições de mobilidade que devem ser ajustadas a uma vida familiar saudável. Pessoalmente, acho que, a prazo, o País no seu conjunto só perderá com este sistema.

      Na minha opinião, o modelo que devemos seguir e aprofundar é o nórdico, porque é o que actualmente já produz melhores resultados. As creches e as escolas todo o dia são um mal, por vezes necessário, mas que nenhum Governo responsável deveria tentar generalizar a todas as famílias. Se a opção é entre deixar os filhos sozinhos em casa ou na rua ou deixá-los na escola, então este sistema será a opção menos má para essas famílias. Felizmente, ainda há famílias que têm tempo para os seus filhos e que, naturalmente, cuidam deles como mais ninguém porque lhes têm amor.

      As crianças não devem ser vistas como um estorvo para pais e empresas e os horários de trabalho não devem ser impeditivos do convívio diário entre pais e filhos. Considero deplorável promover sistemas educativos facilitadores da ausência de convívio entre pais e filhos, dando assim trunfos para que os patrões pressionem ainda mais os seus empregados a aceitarem horários de trabalho excessivos e desumanos.  

      Em vez de gastar milhões em creches com horários cada vez mais alargados, melhor faria o Governo em proporcionar apoios financeiros às mães que quisessem ficar em casa a cuidar dos seus filhos, mantendo o posto e trabalho, até aos três anos. Ou em promover e incentivar horários de trabalho a tempo parcial, como sucede no norte da Europa. Essas são as melhores práticas e que garantem melhor qualidade de vida às pessoas.

      A título de exemplo, pergunto que sentido faz uma mãe, com duas ou três crianças, deixar os seus filhos na creche para ir trabalhar e ganhar o salário mínimo... Não seria melhor para a mãe, para os filhos e para o País que essa desafortunada mãe ficasse em casa a cuidar dos seus filhos – afinal, mãe só há uma - em vez de ir trabalhar só para manter o posto de trabalho e ganhar uns míseros euros que mal compensam financeiramente, dado que terá ainda de pagar também a creche dos seus filhos?

      Que qualidade de vida proporcionará essa mulher à família – qual Luísa, da Calçada de Carriche, do poema de  António Gedeão – que chega a casa exausta e ainda tem de tratar da casa, fazer o jantar e tratar de si, do marido e de duas ou três crianças? Que cidadãos darão essas crianças, filhas do cansaço e da privação? Esta noção de criançário-tipo-linha-de-montagem, massificada, concentracionária e interminável não augura nada de bom.

      Sem famílias fortes, sem laços afectivos reforçados entre pais e filhos, sem amor presente, que sociedade queremos nós construir? Que me desculpem os arautos de um certo progresso apressado, mas não troco o brilho no olhar de uma criança por um “centro educativo-modelo” com centenas de crianças a tropeçarem umas nas outras e dezenas de funcionários e professores sem espaço nem tempo para um colo ou um abraço. Podem anestesiar os pais com equipamentos e actividades, podem pintar o “centro educativo-modelo” de cores berrantes, que não nos convencem. Há coisas que não se trocam.

      Mário Lopes


 

27-09-2007
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