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Edição Nº 234 Director: Mário Lopes Sexta, 3 de Julho de 2020
Opinião
Estatuária, Memória e Democracia
   
                      
Leonor Carvalho
“É na comunidade que a nossa História começa e é aí que pode sempre recomeçar”
    Tolentino de Mendonça. Discurso do Dia de Portugal (2020)

   Grande parte das pessoas que se escandalizaram com a vandalização da estátua do Padre António Vieira não sabia que existia uma estátua do Padre António Vieira. Dos que sabiam que existia uma estátua do Padre António Vieira grande parte não fazia ideia de quem tinha sido e porque lhe tinham erigido uma estátua.
 
   A estatuária e a toponímia são aquelas marcas da nossa memória histórica a que todos nós não escapamos, mas sobre as quais cada vez menos nos interrogamos.

    Vem esta conclusão da minha experiência de professora de História. Para introduzir o tema da importância do estudo da disciplina de História para a construção e compreensão de uma identidade, tenho por hábito pedir a cada aluno que identifique o lugar do concelho onde reside e se sabe qual a razão de ser do nome da sua rua. Deparo-me, cada vez com mais frequência, com alunos que não sabem o nome da sua rua e, dos que sabem, poucos são os que conhecem a razão de ser dessa marca toponímica. Muitos alunos também não sabem quem foi o patrono da sua escola ou a razão de ser do nome do seu agrupamento.
 
   Alguns dos que estão a ler estas linhas encontrarão aqui motivos para clamar que a escola está a falhar e eu considero que é a sociedade como um todo (escola incluída) que está a falhar e que isso põe em perigo a democracia. E é este o tema que eu quero tratar, pois considero que a vandalização das estátuas é um dos sintomas de um conjunto de grandes mudanças que estamos a viver e que pode servir de alerta para a necessidade de agirmos em defesa da democracia.
 
   A Democracia é o sistema político em que o poder pertence aos cidadãos. É a estes, enquanto habitantes da cidade ou pólis, que são conferidos direitos e deveres políticos (isto é, do governo da pólis) que pressupõem a participação de todos. Neste sistema político a mesma prerrogativa assume, por vezes em simultâneo, o carácter de direito e de dever. Exemplo disso é a participação nas eleições. Muitos ainda se lembram do sério e incisivo slogan apelando à participação de todos nas eleições: Votar é um direito e um dever cívico! A Democracia reclama assim, para todos, o direito e o dever de participação cívica. Não só nas eleições, mas numa multiplicidade de instituições e instâncias do Estado Português, da União Europeia e de uma sociedade global da qual hoje fazemos parte informada.
 
   A grande diferença em relação a outros tempos, para cada um de nós, está expressa naquelas duas últimas palavras: parte informada. Porque a globalização não é uma criação recente. A consciência dela é que é recente, assim como a possibilidade de nos informarmos, de adquirirmos saber e de formarmos a nossa própria opinião. O acesso à informação é agora a grande novidade da globalização.
 
  As tumultuosas tomadas de posição que vamos conhecendo através dos meios de comunicação social são resultado desse acesso à informação e, paradoxalmente, de um aumento de cultura e de uma falta de cultura.
 
   A História – área do conhecimento que considero fundamental para o exercício da cidadania – é uma narrativa construída pelos historiadores a partir das evidências dos factos ocorridos: as fontes históricas. A História não é o passado. A História é a interpretação do passado feito à luz dos conhecimentos, interesses e preocupações do presente. A História é, como disse o historiador Lucien Febvre , «filha do seu tempo». O passado é em si mesmo irrecuperável e a análise que se faz das fontes históricas é em grande parte marcada pelos interesses da investigação, que espelham o tempo em que ela é feita: o presente.
 
   A narrativa histórica não é imutável. Muitos em Portugal ainda se lembram de lições de História sobre os heróis mitificados da construção de Portugal. É a essa narrativa que ainda correspondem muitas das estátuas que pontuam as nossas vilas e cidades (não a do Padre António Vieira). Outros, como eu, recordam as lições de História sobre um povo que em bloco tomou na mão os seus destinos: os agentes sem nome da Revolução de 1383-85 ou da revolução do 25 de Abril. Foi assim que eu estudei a História. Numa época em que os velhos manuais do tempo do Estado Novo deram lugar a coletâneas de fontes históricas que eram analisadas nas aulas e sobre as quais, com a orientação do professor, retirávamos as nossas conclusões. E que escola fantástica para a formação da consciência, para compreender as fontes da narrativa histórica e para uma cidadania participativa!
 
   Numa das mais recentes sínteses sobre a História de Portugal diz-se, logo no prólogo: “(…) gostaríamos que esta História de Portugal despertasse a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e ao debate público sobre o país, por vezes demasiado circunscrito por uma tecnocracia «presentista», para quem Portugal parece ter começado hoje. Porque a História não é só um acervo de conhecimentos, mas uma maneira de pensar.”
 
    O ensino e estudo das Humanidades (onde se incluem a História, a Filosofia ou a Literatura) é fundamental para a criação de espaços e hábitos de reflexão que nos permitam compreender quem somos, de onde vimos e como chegámos até aqui. Mas a realidade das escolas apresenta um quadro de redução do tempo dedicado ao estudo das Humanidades e, nesta sociedade de informação de acesso fácil, a reflexão surge a muitos como uma perda de tempo, uma inutilidade sem aplicação numa sociedade que reduz tudo a um valor monetário. Nunca como agora ouvi tanto na escola recusar agressivamente os conteúdos da História por “não ter interesse nenhum”, “por tratarem de gente morta”, “por não me servirem para nada naquilo que eu quero fazer”. E assim caminhamos para uma sociedade inundada de informação, mas sem a capacidade de a utilizar, de a compreender, de se posicionar. Uma sociedade sem memória social é uma sociedade amnésica e, portanto, perdida, doente.
 
    Não me assusta uma revisão da História (da narrativa histórica) se ela resultar de uma reflexão. Num tempo ainda muito presente mudámos muito a nossa forma de encarar a História e a toponímia reflete isso. Recorrendo à minha própria experiência de vida posso contar que num dia de 1974 ou 1975 adormeci no meu quarto, na Amadora, na Av. Dr. António de Oliveira Salazar e acordei de manhã no mesmo quarto na Av. do M.F.A. (sigla do Movimento das Forças Armadas). Numa atitude prudente, que só mais tarde compreendi, os cidadãos da Amadora referiam-se à rua simplesmente como «a rua da polícia», pois aí se situa a esquadra da PSP. O escritor Álvaro Guerra, num conjunto de três romances (de que recomendo a leitura) analisa todo o século XX português a partir dos encontros e conversas num café de uma vila ribatejana: o primeiro livro chama-se Café República, o segundo livro Café Central e o terceiro livro Café 25 de Abril. E muitos se recordarão de mudanças deste género, “ao estilo da época”. Cada época tem, pois, os seus símbolos, os seus exemplos, os seus «indicadores da memória», que podem ser discutidos e, até, mudados. O que não podem é ser retirados do seu contexto e atirados para o presente onde estão em vigência outros valores e outras formas de ser.
 
   A História, enquanto testemunho e memória, pode sempre ser contada de “lados diferentes” e pode ser analisada de forma a incluir muitos que, dela fazendo parte, ficaram ocultos ou foram esquecidos e subalternizados por não fazerem parte daquilo que os narradores da altura valorizavam. E a História é sempre escrita por alguém e esse alguém está sempre integrado no seu tempo. Mas isso não pode servir para acusar os cidadãos atuais por valorizarem símbolos do seu passado como se eles tivessem estado presentes no passado, comportando-se indignamente à luz da forma como pensamos hoje. A estatuária e a toponímia são indicadores de memória, fazem parte de uma identidade e falam-nos do percurso que nos conduziu ao presente; este presente é diferente, mas tributário, do passado.
 
    Quando visitei Minas Gerais, no Brasil e conversava com os meus companheiros de viagem, todos portugueses, fui interpelada por uma brasileira que também visitava o mesmo monumento: “Vocês são portugueses? Foram vocês que levaram o nosso ouro!” Espontaneamente e com a frescura que nos dá o tempo de férias, levantei os braços como se tivesse uma arma apontada e retorqui: “Lá em casa não ficou nada. Juro!” O episódio foi encarado com graça e qualquer equívoco desfeito ali em risos.
 
   Agora, tenho pensado muito neste episódio. Obviamente que eu não concordo com a escravatura; seria mesmo muito estranho (e perigoso) se eu, hoje, cidadã de Portugal do séc. XXI, a defendesse, mas não posso ser acusada e considerada culpada por aquilo que os meus antepassados fizeram, nem reduzir a sua ação a isso.
 
   A redução do peso das disciplinas de Humanidades na escola está a causar um défice de reflexão que, aliado à tomada de consciência de grupos habitualmente afastados da narrativa histórica (inventámos até uma nova expressão para este movimento: empoderamento de grupos minoritários) está a causar uma grande confusão, um clima de acusação e sentimentos de culpa verdadeiramente anacrónicos.
 
   A procura de substituição de um conjunto de símbolos considerados agora insultuosos para certos grupos está a ignorar o facto de que destruir os símbolos de uma narrativa incompleta vai conduzir à construção de outra narrativa incompleta. Substituir uma História onde falta gente suprimindo gente que lá está «a mais», não conduzirá a uma narrativa mais completa: só produzirá uma narrativa diferente. E é isto que eu acho que não está a ser percebido.
 
   Não temos que pedir desculpa pela nossa História! Não tem sentido esconderem-se na noite para vandalizar estátuas! Vamos abrir um debate, vamos refletir sobre a nossa História - para isso precisamos de a conhecer. Vamos acrescentar todas as páginas que consideramos que faltam, mas sem arrancar as que já estão escritas. Podemos adicionar-lhes notas, explicações, novas perspetivas e todos ficaríamos a ganhar por conhecer o percurso que nos trouxe até ao presente e as razões que justificaram a escrita das cidades como livros de pedra.
 
    Se começarmos por desligar a (sobre)informação enlatada dos écrans e olharmos para o nome da nossa rua e das ruas vizinhas, para as esculturas e estátuas que haverá não muito longe da nossa porta, estaremos a informar-nos para poder participar no debate que estes tempos conturbados exigem. Se não o fizermos só nos resta pedir medidas de força para combater os insurretos, os vândalos, os que estão a estragar o que é nosso (será verdadeiramente nosso se não o conhecemos?) e estamos a passar uma procuração em branco a quem quiser tomar decisões por nós. Podemos estar a hipotecar a Democracia. E ela pode bem não ser eterna! A História também nos ensina isso.

    Como escrevo desde Alcobaça quero dizer que uma das coisas que me fascinou nesta terra assim que aqui cheguei foi a calçada portuguesa da Praça 25 de Abril (conhecida por Rossio ou Largo do Mosteiro) onde pontuavam os símbolos de cantaria que estão gravados nas pedras do Mosteiro e uma laje com a frase: “Homenagem aos Homens que das pedras fizeram o Mosteiro”. Em pedra, nas fachadas do Mosteiro, D. Afonso Henriques e S. Bernardo (responsáveis pela existência do Mosteiro, mas que não carregaram certamente uma única pedra) deixam-nos conhecer as suas fisionomias imortalizadas para e pela História. E assim concluí que podia ficar nesta terra, pois aqui não se esquecia ninguém: Alcobaça demonstrava saber que a História e a Memória são uma construção coletiva e que todos estão na História, embora só alguns fiquem nela bem identificados. Mas eu já cheguei a esta terra há muitos anos. Depois, um dia, retiraram os símbolos de cantaria. E não houve reflexão nem oposição. Tenho receio que um dia também tirem a laje que referi. Mas constato que muitos alcobacences nem conhecem a frase que está na laje que pisam quotidianamente. E esses não lhe sentirão a falta se ela desaparecer.
 
   Nos tumultuosos tempos que correm, muitos estamos fechados em casa, confinados ou circulando afastados por causa da peste – perdão, do vírus – consumimos as notícias e indignamo-nos, mas estaremos prontos para agir? Para justificar ou não as estátuas? Para refletir sobre o que podemos ou devemos aduzir à nossa narrativa histórica? Para defender as páginas dos livros de pedra das cidades que habitamos? Para compreender as razões dos que reclamam a sua inclusão na História e dos que defendem a razão da narrativa que está em vigor?
 
    Para que a Democracia seja verdade nenhuma estátua deve ser vandalizada, mas todas as estátuas podem ser discutidas.

    Alcobaça, 25 de junho de 2020

    Leonor Carvalho
i Historiador francês (1878-1956) fundador da Escola dos Annales, responsável por grandes mudanças na historiografia, em particular, pela introdução da História das Mentalidades.
ii Ramos, Rui (coord. de), História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009

 
03-07-2020
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