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Edição Nº 52 Director: Mário Lopes Sexta, 4 de Fevereiro de 2005
Opinião
Vende-se, trespassa-se, cede-se

 Vasco Gomes

"Estabelecimento bem localizado, com vista para o mosteiro, repleto de mercadoria. Ausência de : acessos, estacionamento e clientes. Ideal para ocupar uma boa reforma sem qualquer tipo de stress e longe de qualquer azafama prejudicial ao ritmo cardíaco. Favor contactar administrador de falências.

Esta poderá ser a realidade, a curto prazo, de um anúncio publicado em qualquer jornal da cidade ou arredores, referente a qualquer um dos estabelecimentos comerciais ou de serviços existente (ainda) no Centro Histórico de Alcobaça. Aliás, qualquer pessoa atenta repara que de Outubro para cá, já encerraram ou deslocalizaram meia dúzia de estabelecimentos.

Neste exemplo de anúncio refiro a necessidade de uma boa reforma, do ponto de vista financeiro, pois será com ela que se conseguirá a rentabilidade e manutenção desses estabelecimentos, Aliás, é dessa forma que se explica porque neste momento grande parte dos estabelecimentos no centro histórico ainda estejam abertos, os comerciantes já estão aposentados!

Ao desaparecer a diversidade do comércio no Centro Histórico, não será apenas esta zona da cidade a sentir este nefasto impacto, pois os comerciantes do resto da cidade, com excepção das grandes superfícies, sentirão a falta de poder de atracção da cidade, nomeadamente relativo á população do resto do concelho, porque nestes casos a soma do conjunto de todos os estabelecimentos é superior á soma do potencial de atracção de cada um isolado.

O que ainda não consegui perceber, e também não ouvi ou li ninguém a explicar de que forma é que estas obras vão potenciar o desenvolvimento e crescimento da cidade e do concelho e qual a sua contribuição para a criação de riqueza,
Apenas posso especular o motivo, será por :

  • Atracção turística? Direccionada para quem? Para o turista ou para o excursionista? Se estamos a "valorizar" o exterior do mosteiro e nos esquecemos do interior, qual será a âncora de atracção? Que outros pólos de atracção temos para fixar o turista?
    Será que nos estamos a esquecer que o "turismo" de Alcobaça, vive cada vez mais da benevolência do turismo de Fátima? Se verificarmos, constatamos que 80% das visitas pagas ao mosteiro ocorrem entre o dia 13 de Maio e o dia 13 de Outubro, e o resto do ano? De realçar, que cada vez mais Alcobaça está fora dos dois eixos principais de turismo partindo de Lisboa, falo da A1 (Fatima, Batalha, Tomar) e falo da A8 (Nazaré e Óbidos).

  • Atracção empresarial?Será que é esta obra que vai fazer com os empresários venham a correr para Alcobaça, e cá invistam? O futuro desta cidade está em risco, por causa da cada vez maior concorrência entre cidades para atrair pólos criadores de riqueza (indústria, serviços, comércio, investigação). Se não for delineada uma estratégia a longo prazo, caminhamos para a inevitável desertificação de meios humanos e de capital.

    O que se assiste neste momento é a inexistência da renovação de gerações no tecido empresarial, porque os riscos de assumir uma actividade por conta própria cada vez são maiores, as exigências legais, fiscais, laborais e burocráticas estão num nível que por mais anos que tenha uma licenciatura, não se aprendem num curto espaço de tempo de um curso universitário e obrigam a criar de início uma estrutura ou a suportar custos incomportáveis, na altura de arranque de uma actividade. Quantos de nós já assistimos á morte de boas ideias empresariais á sua nascença, por falta de apoio. É muito melhor jogar pelo seguro e ser trabalhador por conta de outrém numa qualquer empresa situada numa grande cidade, ou concorrer a um emprego do Estado, pois em alturas de crise as pessoas procuram segurança.

    Atendendo á nossa realidade cada vez mais, assente, na pequena e média empresa e na criação do próprio emprego, não seria útil canalizar recursos municipais para que sejam criados ninhos de incubação de novas empresas industriais e de serviços, (fomentar capital de risco, partilha de serviços comuns, etc.) que pretendam identificar jovens (e menos jovens), e assim tentar fixar os licenciados naturais de Alcobaça, que após o curso já não voltam, com potencial para criar o próprio emprego.

    De que adianta criar grandes zonas industriais, mesmo com bons acessos, e infra-estruturas, se não temos jovens para assegurar o futuro? Será que temos a veleidade de atrair grandes empresas multinacionais, se já não temos custos de mão-de-obra competitivos? Será que temos a veleidade de atrair grandes empresas nacionais, onde estão elas? Como estará a situação económica das poucas empresas exportadoras do nosso concelho? Atendendo á concorrência dos países BRIC (Brasil. Rússia, Índia e China) e á desvalorização do dólar face ao Euro, para nossa infelicidade, quanto tempo lhes resta, para fechar a porta e lançar no desemprego umas centenas de trabalhadores?

  • Distribuição local dos fundos comunitários destinados a esta obra?Através da subcontratação de alguns trabalhos a empresas locais e a compra de materiais (nomeadamente, cantarias), uma pequena parte do valor gasto nesta obra é distribuído localmente, mas esse valor é insuficiente para criar uma dinâmica empresarial em torno desta obra, se a construção da A8 não o conseguiu fazer.

  • Especulação imobiliária?Um efeito que estas obras já estão a provocar é uma acentuada quebra nos valores de arrendamento, venda e/ou trespasse, mesmo assim não constatamos a presença dos famosos especuladores imobiliários, que na procura do seu lucro (legitimo) e gerindo as expectativas, eles começam logo a comprar, mas ainda não o fizeram, e porquê? Se os nossos autarcas nos dizem : "isto no futuro vai ser muito melhor" , das duas uma: ou os nossos autarcas não sabem o que dizem ou os próprios profissionais do ramo andam muito distraídos e não acredito!

    Num exercício de pura especulação intelectual, podemos considerar que se todos os estabelecimentos encerrarem e desvalorizarem, poderá ser a salvação do centro histórico, pois perante essa situação, poderá aparecer uma grande empresa imobiliária internacional a querer fazer um grande centro comercial em redor do Mosteiro.
    Outro efeito que estas obras provocarão, será a compra de habitação para fim-de-semana, pois esta zona envolvente ao Mosteiro será tão sossegada, que poderá proporcionar verdadeiros momentos de descanso e de desertificação ao longo da semana.

  • Ensino superiorSerá que temos a veleidade de atrair ensino superior, adequado e direccionado para a realidade local e do pais :Estudos medievais? Dão de comer a quantas pessoas?
    Investigação agrária (INIA)? Sim! Uma necessidade premente no esforço de apoio aos poucos fruticultores que ainda subsistem no concelho.
    Que tal recriar cursos técnicos (médios), para actividades tradicionais que possam permitir criação do próprio emprego : alfaiate, canalizador, sapateiro, oleiro, construção civil, actividades hoteleiras e restauração, etc.

  • Serviços Públicos.Quantos serviços públicos (camarários ou da administração central) serão criados no Cento Histórico? A atracção provocada por este tipo de serviços é grande e será fundamental no futuro para obrigar a população a frequentar estes novos espaços públicos, e criar algum efeito de movimento nos sete meses em que não há excursionistas.

    Em jeito de conclusão gostaria de colocar as seguintes questões :

    A) Relativas ao projecto da zona envolvente ao Mosteiro de Alcobaça :

  • Para quando a conclusão das obras?
  • Será que o projecto irá ser cumprido, e todas as obras previstas serão efectuadas?
  • Quanto será o custo total final da obra?
  • Quanto será a comparticipação dos fundos estatais e comunitários, em valor e percentagem?
  • O que é feito dos estacionamentos privados anunciados pela CMA, em comunicado oficial, para Julho de 2004?
  • O que será feito a todo o vasto espólio arqueológico, que os vestígios já descobertos na Praça D.Afonso Henriques indicam existir, será tudo enterrado? Ou será estudado?
  • O que foi feito para minimizar os riscos de inundação ?
  • Alguém pensou que durante o período de obras seria necessário aos excursionistas, na sua maioria idosos, um acesso capaz ao Mosteiro? E aos deficientes? E onde satisfazem todos eles as suas necessidades fisiológicas? No Rio? Ou será essa, mais uma estratégia iluminada, (conceito de porosidade) para atrair clientela para as instalações do comércio e hotelaria local, que também não estão preparadas para esse afluxo em massa (e liquido!) e que pelas grandes filas que provocam, os turistas não tem tempo de ver o Mosteiro ou de consumir algo nesses estabelecimentos, não se esqueçam que eles vêm com os minutos contados.
  • B) O que poderemos fazer pelo centro histórico ?:

  • Campanha de solidariedade, de nível nacional, com abertura de uma conta bancária, e spots na TV, os portugueses são caridosos e costumam ajudar em momentos de aflição.
  • Trazer clientes ao centro, criando um serviço de transportes públicos urbanos, pequenos autocarros, amigos do ambiente e do Mosteiro, e tecnologicamente evoluídos, movidos a hidrogénio ou electricidade.
  • Transportar as compras aos clientes, criação de um serviço conjunto de entregas ao domicilio ou até ao meio de transporte do cliente.
  • Campanha publicitária e de animação, que se começar a ser feita ainda com as obras em curso terá um efeito contrário e será um completo despesismo, e se o custo dessa campanha tiver que ser imputado aos comerciantes, não sei como vai ser, pois eles estão descapitalizados.
  • Instalação de outros pólos de atracção no CH, serviços públicos ou camarários, e fundamentalmente envidar todos os esforços para os que ainda lá existem não saiam, por exemplo : farmácias, bancos, Centro de Emprego e Correios.
  • Por ultimo : vender, trespassar ou encerrar e assim permitir que outros (quais?) possam ocupar o lugar, permitindo assim uma renovação do comércio, se for possível! E com isso os actuais comerciantes não serem acusados de impedir o "progresso" de toda uma cidade.
  •  

    Vasco Couceiro Gomes
                       Comerciante
    04-02-2005
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