Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
O Governo deve tomar medidas mais enérgicas para conter a pandemia?
Sim
Não
Não sei / talvez
Edição Nº 66 Director: Mário Lopes Terça, 18 de Abril de 2006
Opinião
Água: o novo Ouro Branco

 Henrique Tigo

Numa época em que a seca e consequente escassez de recursos hídricos em várias regiões do mundo é notícia, é bom saber que racionamentos de água muito mais sérios estão por vir já que a demanda de água em muitos países simplesmente supera a oferta.

Os mananciais de água estão diminuindo em todos os continentes. Literalmente vários países estão impondo racionamento e a perspectiva segundo as Nações Unidas é de uma seríssima crise de abastecimento antes do ano 2020.

A cada ano o Planeta Terra ganha 80 milhões de novos habitantes. Infelizmente, quase todas os 3 bilhões de pessoas que poderão vir ao mundo nos próximos 50 anos nascerão em países que já estão experimentando escassez de água. Mesmo agora, a água para beber, já está se tornando um produto escasso e caro.

A Terra tem 6 bilhões de habitantes e o déficit de água potável é enorme. Em torno de 70% da água consumida no mundo, incluindo as que vêm dos rios e as que são bombeadas do subsolo, são usados para irrigação, 20% são usados pela indústria, e apenas os restantes 10% pelas residências.

Na intensa competição por água entre os sectores que a utilizam, a agricultura quase sempre perde. Cada mil toneladas de água usadas na Índia para produzir uma tonelada de trigo, custam 200 dólares. Essa mesma água, que também pode ser usada para a indústria vale 10 mil dólares ou cinquenta vezes mais. Isso explica por que, no Oeste dos Estados Unidos, a venda de "direitos de irrigação" pelos fazendeiros às cidades é quase um acontecimento diário e extremamente lucrativo.

A urbanização e a industrialização de forma desenfreada também são factores de esgotam os recursos hídricos. Quando camponeses de países em desenvolvimento, tradicionalmente usuários dos poços artesianos, se mudam para apartamentos urbanos com encanamento, o uso residencial de água pode triplicar. A industrialização gasta ainda mais água que a urbanização.

Na medida em que as pessoas melhoram de vida, consumem mais alimentos e por conseguisse, forçam a cadeia produtiva de grãos (a pecuária alimenta-se de rações compostas 75% por grãos). Uma família canadense típica consome quatro vezes mais água que uma família indiana.

Antes um fenómeno localizado, a escassez de água está agora cruzando as fronteiras nacionais através do comércio internacional de grãos. O mercado crescente de grãos mais importante é o norte da África e o Meio-Leste, uma área que inclui o Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Oriente Médio e Irão. Esta região está tendo ao mesmo tempo escassez de água e rápido crescimento populacional.

Os governos não podem desconhecer a crise de suprimento de água. E assim como o mundo se voltou a produtividade da terra um século atrás, ele tem que se voltar agora para aumentar a produção de água.

O primeiro passo nesta direcção deste objectivo é eliminar os subsídios que a água recebe para ser usada em actividades ineficientes. O segundo passo seria subir o preço da água para reflectir seu custo e reforçar a consciência conversativa.

Tecnologias mais eficientes, plantações mais eficientes, e outras formas de aproveitamento de mananciais não explorados como chuva, calotas polares e oceanos, são alternativas já em intenso estudo por pesquisadores nos Estados Unidos, Alemanha, Austrália e África do Sul.

Água: Uma Questão de Vida ou de Morte

Mais de mil milhões de pessoas carecem de acesso ao fornecimento regular de água salubre. Dois mil e quatrocentos milhões - mais de um terço da população do mundo - não têm acesso a saneamento apropriado. As consequências são devastadoras:

· Mais de 2200 milhões de pessoas, sobretudo nos países em desenvolvimento, morrem todos os anos de doenças associadas à falta de qualidade da água e a um saneamento deficiente.
· 6000 Crianças morrem, todos os dias, de doenças que podem ser evitadas melhorando a qualidade da água e o saneamento.
· Mais de 250 milhões de pessoas sofrem dessas doenças todos os anos.

O acesso à água e ao saneamento, tão crucial para o bem-estar e o desenvolvimento humano, tornou-se agora uma prioridade para a comunidade internacional. A fim de salientar a necessidade de acção imediata, as Nações Unidas designaram 2003 Ano Internacional da Água Doce. Não obstante ser essencial, a água doce não está distribuída de uma maneira uniforme: embora 70% da superfície do planeta estejam cobertos de água, 97,5% são água salgada. E dos restantes 2,5% que são constituídos por água doce, quase três quartos estão congelados nas calotes glaciais.

Se bem que, na maioria das regiões, ainda haja água suficiente para satisfazer as necessidades de todos, é preciso que seja devidamente gerida e utilizada. No mundo actual, uma grande parte da água é desperdiçada ou usada de uma maneira ineficiente e, por outro lado, a procura aumenta, com frequência, mais depressa do que a capacidade de reposição da oferta pela natureza. Embora a competição pelos recursos hídricos possa ser uma fonte de conflito, a história demonstrou que a sua partilha pode também ser um catalisador da cooperação.

Principais Estatísticas:

· Cerca de 70% da água doce disponível são utilizados na agricultura. Contudo, devido a sistemas de irrigação deficientes, em especial nos países em desenvolvimento, 60% dessa água perdem-se devido à evaporação ou são devolvidos aos rios e aquíferos.
· As captações de água para a irrigação aumentaram mais de 60% desde 1960.
· Cerca de 40% da população mundial vive actualmente em zonas que sofrem de stress hídrico moderado a elevado. Prevê-se que, em 2025, cerca de dois terços dos habitantes do planeta - aproximadamente 5500 milhões de pessoas - vivam em zonas que enfrentam um problema de stress hídrico.
· Cada vez mais o mundo se vê confrontado com problemas de escassez de água, sobretudo no Norte de África, na Ásia Ocidental e no Sul da Ásia.
· O consumo de água aumentou para o sêxtuplo, durante o século passado, ou seja, a um ritmo mais de duas vezes superior ao do crescimento demográfico.
· As perdas de água devido a fugas, ligações ilegais e desperdício somam cerca de 50% da quantidade de água utilizada para beber nos países em desenvolvimento.
· Cerca de 90% dos esgotos e 70% dos efluentes industriais, nos países em desenvolvimento são lançados na água sem serem previamente tratados, muitas vezes poluindo as reservas de água utilizáveis.
· Os ecossistemas da água doce foram gravemente degradados: cerca de metade das zonas húmidas perdeu-se e mais de 20% das 10 000 espécies conhecidas que viviam na água doce extinguiram-se.
· Em zonas como os Estados Unidos, a China e a Índia, as águas subterrâneas estão a ser consumidas a um ritmo superior ao da sua reposição e a superfície da camada freática está a diminuir. Alguns rios, como o Colorado, no Oeste dos Estados Unidos, e o Amarelo, na China, têm troços secos, antes de alcançarem o mar.
· Em muitas zonas rurais, a tarefa de transportar a água recai sobre as mulheres e crianças, que, muitas vezes, têm de percorrer a pé, por dia, vários quilómetros, a fim de obter água para a sua família. Em geral, são as mulheres e crianças que sofrem mais em consequência da falta de instalações sanitárias.
· Metade das camas dos hospitais está sempre ocupada por pacientes que sofrem doenças de vector hídrico.
· Durante a década de 1990, cerca de 835 milhões de habitantes dos países do desenvolvimento passaram a ter acesso a água potável e aproximadamente 784 milhões passaram a ter acesso a instalações sanitárias.

Alcançar as Metas a Nível Mundial:

Os 147 líderes mundiais que assistiram à Cimeira do Milénio da ONU, em 2000, adoptaram a meta de reduzir para metade, até 2015, a percentagem de pessoas que não têm acesso a água potável ou não dispõem de meios financeiros para a pagar. Na Cimeira Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que teve lugar em Joanesburgo, em 2002, os países acordaram no objectivo paralelo de reduzir para a metade até 2015 a percentagem de pessoas sem acesso a saneamento adequado.

Estima-se que o custo de melhorar os sistemas de abastecimento de água e de saneamento, a fim de satisfazer as necessidades humanas básicas nos países em desenvolvimento, ronde os 20 mil milhões de dólares anuais; actualmente, as despesas desses países totalizam cerca de 10 mil milhões de dólares por ano.

As estimativas do nível de investimento necessário, a nível mundial, em todas as formas de infra-estruturas relacionadas com a água variam muito, embora haja um amplo acordo em torno da ideia de que é preciso aumentar substancialmente o actual nível de investimento, que se situa entre os 70 e os 80 mil milhões de dólares por ano. Segundo alguns cálculos, seriam necessários cerca de 180 mil milhões de dólares por ano.

Todos concordam em que há uma necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos hídricos, mas existem divergências ao nível das políticas sobre qual é a melhor maneira de o conseguir. Alguns defendem que o acesso à água potável e ao saneamento é um direito humano, pelo que os governos são obrigados a prestar os serviços correspondentes. Outros sustentam que a água é um bem económico que deveria ser fornecido da maneira mais rendível e indicam como opções possíveis os planos impulsionados pelo mercado e a privatização de certas componentes do abastecimento da água. Muitos governos adoptaram uma abordagem híbrida.

Os países que concentraram os seus esforços em melhorar o acesso à água e ao saneamento conseguiram progressos. Na África do Sul, 14 milhões de pessoas, de uma população total de 42 milhões, careciam de acesso a água potável em 1994. Mas, em sete anos, a África do Sul reduziu para metade o número de pessoas sem acesso a água salubre, conseguindo essa melhoria mais cedo do que previsto. Se as metas actuais forem cumpridas, a África do Sul prevê poder fornecer a água potável e saneamento a todos os seus habitantes, até 2008.

Mas o pior é que cólera ainda é endémica em várias partes de África, principalmente em Moçambique, vitimando milhares de crianças todos os anos. A taxa de mortalidade infantil em Moçambique é uma das mais altas no mundo, situando-se em 246 por mil nados vivos, 13% destes causadas directamente por água imprópria para consumo.

"Traduz-se na morte de 55 crianças com menos do que cinco anos de idade por dia, de diarreia. Outros milhares de crianças estão em risco por causa de cólera, infecções causadas por água suja e condições sanitárias não adequadas", referindo que há muito a fazer e se não forem tomadas as medidas necessárias, em breve muitos milhares de crianças vão encontrar uma morte evitável.

Diz-se que 25% dos agregados familiares gastam mais do que uma hora por dia para chegar a uma fonte de água potável". Quem vai buscar a água são geralmente as crianças e tradicionalmente, as raparigas, o que significa que faltam às aulas para irem buscar a água.

Na maioria das escolas, não há casas de banho e em zonas rurais, 29% da população não tem casa de banho próprio.

Novos conflitos internacionais, motivados pela disputa pela água, deverão aparecer nas próximas décadas. Crescem as previsões de que, em regiões como o Oriente Médio e a bacia do rio Nilo, na África, a água vá substituir o petróleo como o grande causador de discórdia. A razão é a escassez do precioso líquido transparente nesses lugares.

Dos 2,5% de água doce da Terra, 0,3% são acessíveis ao consumo humano. Essa cifra demonstra claramente a diferença entre água e recursos hídricos, ou seja, água passível de utilização como bem económico. A quantidade total de água da Terra, portanto, é suficiente para abastecer toda a população com folga.

Isso porque o ciclo hidrológico mantém um fluxo constante do volume de água, a uma taxa de 41.000 km³/ano. Desse fluxo, mais da metade chega aos oceanos antes que possa ser captado e um oitavo atinge áreas muito distantes para poderem ser usadas. Estima-se que a disponibilidade efectiva de água esteja entre 9.000 e 14.000 km³/ano.

Enquanto isso, a demanda total de água prevista para o ano 2000 deverá atingir apenas cerca de 4.500 km³/ano. Assim, em termos globais, não existe perigo de escassez de água.

A desigualdade na distribuição do manancial, entretanto, faz com que alguns países sejam extremamente pobres em água, e outros muito ricos. Países desérticos, como o Kuwait, Arábia Saudita e Líbia, e pequenos países insulares, como Malta, Catar e as ilhas Bahamas, possuem menos do que 200 m³/ano por habitante, enquanto o recomendado pela ONU é de 1.000 km³/hab/ano. Regiões como o Canadá, a Rússia asiática, as Guianas e o Gabão têm mais de 100.000 km³/hab/ano. O Brasil está na categoria servida com 10.000 a 100.000 m³/hab/ano.

Além disso, o uso da água varia enormemente de país para país. Os dados sobre como o uso da água se distribui segundo os gastos domésticos, agrícolas e industriais são esparsos e incompletos. Pode-se, porém, ter uma ideia da variabilidade observando-se que na Guiana, por exemplo, 1% do uso de água é para fins domésticos e 99% para fins agrícolas e industriais; ao passo que, na Guiné Equatorial, a proporção praticamente se inverte: 81% do gasto hídrico vai para fins domésticos e apenas 19% para fins agrícolas e industriais. Ambos os países estão em regiões com mais de 100.000 m³/hab/ano de água doce.

Para se ter uma ideia do resultado da conjunção entre a desigualdade natural e do uso da água, o mapa acima mostra o gasto de água por país em relação à quantidade de água doce disponível.
Os países com maior gasto relativo de água concentram-se no Oriente Médio.

Agravado por factores como o desperdício e a falta de iniciativa pública para resolver os problemas hídricos, isso deixa milhões de pessoas sem acesso a água potável ao redor do mundo.

Tais factores podem causar escassez de água até mesmo em países com grande abundância de água doce, como o Brasil. Estima-se que 74% da população mundial tenha acesso à água potável, sendo que, na África, essa proporção baixa para apenas 46%, chegando a extremos como Chade e Mali, com menos de 24% e na Europa só 15%.


         Henrique Tigo

18-04-2006
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
EDITORIAL
Diário de bordo da estrada
OPINIÃO
Água: o novo Ouro Branco
Destinos de prazer!
A quem interessa o mau funcionamento das forças policiais em Portugal?
Mulheres a menos
Quotas? Não, obrigada. Mas...
Encerramento de escolas do 1º ciclo: uma questão não-pedagógica
O Oeste é plano
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o