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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Quarta, 2 de Junho de 2004
Opinião
Nem mais um soldado da GNR para o Iraque!

 Daniel Adrião*

Numa época em que muitos afirmam que já não há fronteiras ideológicas e que os partidos de vocação de poder, tanto de direita como de esquerda, tendem a moldar-se ao pragmatismo imposto pelas razões (ditas) de Estado, a recente decisão do Governo espanhol, liderado por José Luís Zapatero, de retirar as tropas do Iraque, constitui uma enorme esperança para aqueles que ainda acreditam que a vontade do povo pode (e deve) prevalecer sobre a lógica dos interesses impostos pelos chamados poderes fácticos.

Zapatero, durante muito tempo apresentado por uma certa imprensa espanhola e internacional como um líder fraco e sem carisma, incapaz de ganhar eleições, transformou-se, de um dia para o outro, num líder político que não só conseguiu conquistar a confiança dos eleitores espanhóis (contrariando todas as sondagens), como foi capaz de honrar a palavra dada, respeitando a vontade esmagadora do seu povo, que, desde há muito, se manifestava contra a invasão do Iraque, perante o mais completo autismo do governo de Aznar.
O novo primeiro-ministro espanhol mostrou, assim, ter a coragem necessária para decidir contra a lógica dos interesses anglo-americanos, tanto económicos (ao serviço das indústrias militar e petrolífera, das empresas de segurança privada e dos gigantes da construção), como políticos (determinados pelas peregrinas teses neoconservadoras), que totalmente ao arrepio do direito internacional, forçaram a uma guerra injusta, inventando mentiras e tentando manipular de forma grosseira a opinião pública mundial. O resultado desta política está, hoje, à vista de todos e cifra-se num balanço negro de destruição e morte. O tão prometido "El Dourado" americano, transformou-se, afinal, num inferno de chamas e terror.

E mesmo sem as tão propaladas armas de destruição maciça, que a poderosa máquina de propaganda americana garantia estarem na posse do antigo regime ditatorial iraquiano, não obstante os inspectores da ONU sempre o terem negado, o que é facto, é que o povo iraquiano não pára de resistir à ocupação estrangeira e apesar do derrube do regime, a profecia feita por Saddam, antes da guerra, cumpre-se, infelizmente, todos os dias: "O Iraque será transformado num cemitério para os americanos".

O que é facto, é que a lógica da mentira americana, que encontrou em alguns dos seus aliados europeus uma importante "caixa de ressonância", teve no antigo governo de Aznar a sua mais vergonhosa e ultrajante réplica, com a tentativa desesperada de convencer os espanhóis, nas vésperas das eleições, que os atentados de 11 de Março, em Madrid, eram da responsabilidade da ETA. Uma manobra que constituiu um tremendo acto falhado, a que o povo espanhol soube, de forma inteligente, dar a devida resposta nas urnas. José Maria Aznar, transformou-se, assim, na primeira vítima política da guerra do Iraque no campo americano, a juntar às centenas de baixas militares no terreno.

Mas se a ocupação militar do Iraque já era intolerável face à forma desastrosa como a Administração Bush conduziu todo o processo, passou a sê-lo ainda mais depois de terem sido tornadas públicas as práticas de autêntica barbárie vividas dentro das prisões americanas no Iraque. O mundo sabe hoje, que contrariamente ao que foi prometido, as violações dos direitos humanos não acabaram no Iraque com a queda do regime de Saddam. Os assassinatos e as torturas dentro das prisões, perpetradas por militares americanos e britânicos, têm sido (sabemo-lo agora) uma prática reiterada desde o início da invasão. A divulgação feita pelos media de todo o mundo de imagens chocantes, mostrando prisioneiros iraquianos a sofrerem torturas físicas e sevícias sexuais infligidas pelos soldados da coligação, é a última prova que faltava para incriminar os invasores pela prática de graves crimes de guerra, susceptíveis de serem julgados no Tribunal Penal Internacional. O mesmo tribunal, criado no âmbito das Nações Unidas, que os EUA se recusam reconhecer, certamente, por saberem que as suas próprias práticas cairiam facilmente sob a alçada deste órgão internacional de justiça.

E só agora, depois de ter rebentado o escândalo das torturas americanas a prisioneiros iraquianos, e perante a incredulidade da comunidade internacional, os EUA resolvem aceitar julgar alguns dos seus soldados de baixa patente, aplicando-lhes a branda justiça dos seus próprios tribunais militares. E depois disso, para cúmulo da desfaçatez, surge o impagável Presidente George W. Bush anunciar ao mundo a decisão de demolir a prisão iraquiana onde ocorreram os massacres, numa tentativa patética de apagar a História, seguindo o desesperado exemplo do criminoso que destrói as provas que o incriminam por forma a não deixar vestígios do seu crime, mesmo depois de ser apanhado em flagrante.

E perante tudo isto, o que tem feito o primeiro-ministro português Durão Barroso? A resposta é óbvia. Tem comprometido Portugal numa guerra injusta e ilegal, alinhado de forma irresponsável nesta aventura anglo-americana. Tem feito o papel de mestre-cerimónias da guerra, dando albergue aos seus chefes, como se viu na lamentável cimeira dos Açores. Tem faltado à verdade aos portugueses, como aconteceu no Parlamento, quando disse ao País que tinha visto com os seus próprios olhos as provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque. Tem obrigado Portugal a participar directamente nas acções de guerra, enviando para o Iraque soldados da GNR. E com tudo isto, tem colocado Portugal na mira dos terroristas, tornando o País mais vulnerável a eventuais ataques.

Perante tais factos, exige-se que o primeiro-ministro Durão Barroso arrepie caminho e ponha fim à participação portuguesa nesta escalada de violência internacional. Deve, por isso, promover a retirada definitiva dos soldados portugueses no final da missão que termina a 30 de Junho, e não enviar nem mais um soldado da GNR para o Iraque! É urgente pôr fim imediato a esta aventura, à semelhança do que fez o corajoso primeiro-ministro espanhol Zapatero, que com o seu gesto destemido mostrou porque é que a Espanha é uma potência europeia.

A realidade, que muitos se recusam a reconhecer, vem demonstrando que a solução para o Iraque tem de ser encontrada no quadro das Nações Unidas, no respeito pelas normas do direito internacional, através de uma resolução do Conselho de Segurança, que ao invés de batalhões de guerra, faça avançar para o território uma missão de paz e de estabilização. Só uma força de "capacetes azuis", sob a égide da ONU, que reuna o apoio de todos os movimentos políticos, cívicos, sociais e religiosos do Iraque, terá condições para garantir a pacificação necessária à evolução democrática deste país. O derrube do ditador Saddam de nada terá valido, se não houver capacidade para gerar um clima de paz e estabilidade, instituir uma verdadeira democracia e promover o desenvolvimento e a prosperidade num dos países mais ricos do mundo. Só assim será possível instituir uma nova ordem mundial mais justa, solidária e equilibrada, de segurança e de paz.

Por nós, acreditamos que se os povos fizeram ouvir a sua voz, como aconteceu recentemente em Espanha, a pomba da paz acabará por vencer os falcões da guerra. No Iraque e no Mundo.

* Presidente da Concelhia do PS de Alcobaça

02-06-2004
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