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Edição Nº 70 Director: Mário Lopes Sexta, 11 de Agosto de 2006
O raio
       


Elsa Proença


    Estou ansiosa pelo dia em que poderei enviar um mail ao agricultor chileno responsável pelas uvas desenxabidas da minha fruteira ou ao médico com quem me trato há anos e nada, continuo doente. Assim reforçaremos os laços que mantemos uns com os outros e ao mesmo tempo poremos um ponto final nas baldas. Vem este devaneio a propósito do pioneirismo português em matéria de avaliação da performance da classe docente.

     O sistema de controlo de qualidade implementado pelo Ministério da Educação em Portugal, de acordo com o qual os pais avaliam os professores dos filhos, pela sua oportunidade e benefício geral deve ser adoptado noutros ramos de actividade. Sou da opinião de que se deve implementar a filosofia da avaliação rapidamente e não podemos ficar por aí. À semelhança do que faz a massa associativa de qualquer clube passemos a estar sempre munidos do lenço branco para despachar um professor, um médico ou um padeiro incapaz de mostrar resultados.

    Poucas reformas educativas terão tido a envergadura da actual. Ficará certamente, na memória do Prof. José Hermano Saraiva, lado a lado com a reforma Pombalina. Será, como muito bem explicará este douto homem na RTP2, daqui a dez anos, uma reforma não da expansão do conhecimento mas da contracção/definhamento do conhecimento.

    Vivemos demasiado tempo numa espécie de estado estacionário educativo, coisa profundamente aversiva para qualquer político danadinho por dar nas vistas. É urgente fazer alguma coisa, nesta coisa morna que tem sido a educação, nem que seja acabar com ela. A política da morte anunciada tem alimentado partidos, jornais, famílias, enfim, estamos em velório non-stop há décadas. A agricultura está moribunda, a indústria decrépita e em fuga, a saúde tem viroses de origem desconhecida e a justiça está a recuperar da deficiência visual.

    Ora, dá-se a coincidência de vivermos em período de contenção de despesas. Toda e qualquer despesa. Se o Capuchinho Vermelho fosse uma criação literária dos nossos dias, não teria mãe nem avó, não levaria um cestinho com o lanche e não haveria nenhum caçador a vaguear pela floresta, aliás a floresta teria ardido no ano anterior. Teríamos tão só o lobo e um raio vindo do alto a trespassá-lo. A moral da história seria: mais rapidez e mais eficiência por menos dinheiro.

    Um professor também é uma despesa, vai daí, há que vir um raio. E não é que veio mesmo? A Ministra da Educação é o raio vindo sabe-se lá de onde - talvez duma época em que fomos uns perdulários - um raio pronto para trespassar o que lhe aparecer à frente.

    Desengane-se quem espera uma grande revolução na educação. A revolução será, na verdade, uma redução lá para as bandas da contabilidade. No entanto, e aqui reside o génio do raio, o sucesso está garantido. Se os professores serão avaliados não só pelos Encarregados de Educação mas também pelas classificações dadas aos alunos, é óbvia a futura inflação das notas. As classificações serão inversamente proporcionais aos gastos do Ministério e o sucesso será virtual. O virtual será real com uma breve interrupção no período de exames, altura em que o real parecerá ficção.

    O raio vem direitinho à classe docente mas, acaba por ter efeitos nos discentes. Os discentes sabem bem que a vida vai melhorar, as coisas vão ser mais fáceis e haverá muito mais tempo para actividades sociais. Já não era sem tempo! As crianças já sacaram que o regime geral de aprovação do básico se vai esticar para o secundário e os mais optimistas esperam até vir a estreá-lo na universidade. Claro que haverá sempre quem veja na escola um trampolim para uma profissão mais arrevesada. Esse pessoal mais ambicioso e exótico tem que procurar suplementos. O negócio dos explicadores talvez venha a florescer. Em mercado paralelo. Paralelo ao raio.

    O efeito imediato do raio no seio da classe docente é a desmotivação, a desorientação e o trauma, DDT puro. Em vez de começarem a procurar outro emprego, os professores perdem tempo a analisar o projecto do novo Estatuto da Carreira Docente. Há muito que perderam a carreira, mas estão em fase de negação. Gastam um precioso tempo a personificar o raio. O raio isto, o raio aquilo...

    Em boa verdade o raio é vidente. O raio sabe que o futuro da escola portuguesa é um ATL disfarçado. E não é que tem razão? Desde que se façam campeonatos de futebol, desde que se cante o fado e no intervalo se passe por Fátima, o pessoal não quer saber nem de física nem de metafísica...


         Elsa Proença
        Professora

 

11-08-2006
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