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Edição Nº 101 Director: Mário Lopes Sexta, 6 de Março de 2009
Opinião
Mary Wollstonecraft: A luta pelos ideais femininos
   

 
Sirlene Cristófano

Mary Wollstonescraft é absolutamente uma grande figura de destaque na luta pelos direitos das mulheres. Mesmo que outras antes dela tivessem já abordado o assunto, sem dúvida, no que diz respeito á educação, Wollstonescraft foi quem mais falou sobre a questão feminina em finais do século XVIII, através de sua escrita, ao denunciar as opressões sofridas, ao reivindicar novas regras sociais e assim, exigir a plena cidadania para as mulheres. 

   Entre muitas obras de Wollstonescraft, Vindication of the Rights of Woman (1992), é a obra mais conhecida pelos ideais femininos, que unem, denunciam e contestam as questões familiares, educacional e sexual.
Estimulada pelos problemas financeiros da família, Mary decidiu que encontraria um meio de seguir o próprio caminho. 

   O Poder da escrita: A arma contra a submissão

   Mary Wollstonecraft consagrara-se com um memorável ensaio a favor da emancipação feminina, "Em defesa dos direitos da mulher": Vindication of the Rights of Woman, reclama um destino próprio ao seu sexo e para a sua dificuldade da vida feminina. Segundo Wollstonecraft o ideal da emancipação feminina e a igualdade entre homens e mulheres não era visto como um valor em si mesma.

   Para Wollstonecraft as mulheres devem sair da sua prisão, do arquétipo formal de “feminilidade” que é a submissão. A mulher deve adquirir, segundo ela, o ideal da razão, ou seja: não mais “amantes sedutoras”, mas sim “mulheres afectuosas e mães racionais”.

   Os vícios das mulheres do seu tempo são censurados por Wollstonecraft. O intelecto e a virtude são inseparáveis, e não poderá haver verdadeira moralidade se, porventura o intelecto é fraco e está mal aproveitado. À mulher exige-se um intelecto firme, e é sobre ele que poderá fundar a sua própria moralidade e felicidade. A superstição é coisa totalmente contrária à razoabilidade da religião cristã. A frivolidade e o sentimentalismo são induzidos às raparigas pela literatura novelesca. O apego afectivo mórbido ao marido resulta da sua subordinação intelectual. A incapacidade de educar bem os filhos é possível tanto nas mulheres como nos homens. A ignorância, no seu sentido mais enfático, tem a raiz na inferioridade e na instabilidade psíquica das mulheres.

   Esta é a lista dos males que as mulheres padecem, especialmente as burguesas, que tinham alguma possibilidade de se ilustrarem, na visão de Mary Wollstonecraft, que rebela-se e reclama os princípios de igualdade em Vindication of the Rights of Woman. 

   O interesse pedagógico de Wollstonecraft reside na sua visão geral da evolução do mundo feminino com base na ideia do progresso intelectual e moral. A educação feminina deve ser, pois, renovada e igual à do homem, de acordo com os princípios da razão. A escritora foi gritante ao reprimir as teorias discriminatórias sobre a educação das mulheres defendidas por Rousseu, o que a levou a reclamar os mesmos princípios de justiça e igualdade a favor da população feminina. Em Vindication of the Rights of Woman, escrita à pressa, em seis semanas, a escritora demonstra os ideais revolucionários e escreve sobre a desigualdade entre o homem e a mulher com base na inferioridade intelectual e física será então, tema principal em Vindication of the Rights of Woman e a justificação de que Deus criou a mulher inferior ao homem é para Mary uma violação dos princípios básicos da humanidade.

   Wollstonecraft em Vindication of the Rights of Woman, contesta também a arbitrariedade da sucessão hereditária.

   E assim, ao contestar, a escritora une o feminismo à luta pelas reformas políticas e sociais afirmando que qualquer tirania masculina deveria acabar em nome da razão. Com isso, reclama que, a autoridade hierárquica corrompe a si e impossibilita o desenvolvimento racional das vítimas. 

   Wollstonecraft denuncia em Vindication of the Rights of Woman os efeitos da desigualdade e ressalta que a mulher é vítima da tradição e das leis que anulam a sua personalidade jurídica em favor dos homens ao afirmar que a mulher dependente do homem empobrece a sua capacidade mental, de raciocínio e estimula a sua inutilidade.

   De acordo com a sua actual situação Wollstonecraft defende também a situação económica da mulher, como uma maneira de conquistar a autonomia e libertar-se do jugo do homem, pois ela própria a conquistara prematuramente quando saiu de casa e foi trabalhar como dama de companhia de idosos. Ela faz uma apologia ao trabalho e evidencia a qualidade da mulher profissional, acreditando no progresso individual e nas reformas, crente que as mulheres são seres humanos antes de seres femininos, Wollstonecraft faz uma revolução do mundo feminino. 

   Vindication of the Rights of Woman exemplica o grande desejo e sonho da educação para as mulheres como maneira de melhorar o mundo e a sociedade, forma de atingir a plena felicidade através da justiça e da igualdade.
A escritora propõe mudanças na educação para os dois sexos, preparando os educandos para um mundo mais perfeito e ao apresentar as propostas para uma educação igual a ambos os sexos, Wollstonecraft apela para que os homens reconheçam a importância da mudança e demonstra que chegaríamos a uma sociedade mais livre, justa e que todos os cidadãos seriam beneficiados. E assim, estimulada pela revolução que abre as portas da emancipação para todos os oprimidos, Wollstonecraft reivindica em Vindication of the Rights of Woman iguais oportunidades na educação, no trabalho e na política às mulheres, que até então não tinham direito.

   O Intelecto, a Virtude e a Liberdade são as três caras da razão iluminada que Mary Wollstonecraft tomou como os princípios do seu pensamento. O seu objectivo é a criação de uma “nova civilização” em que humanidade seja virtuosa e feliz. A via de acesso é aberta pela Razão, uma razão que é reforçada pela fé: “firmemente persuadida de que não existe o mal no mundo fora do desígnio divino, construo a minha fé sobre a perfeição de Deus”. É a religião da Razão.

   A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft é um texto popular e provocativo que desencadeou diferentes reacções do público, mas, posteriormente, foi celebrado como o trabalho precursor da teoria política feminista e sua autora como a primeira pensadora, de real importância, da condição social e política da mulher na sociedade.

   Mary Wollstonecraft fez muitas escolhas perigosas, tanto nas suas acções pessoais quanto políticas. Isto levou-nos a estudar a sua vida pública e privada a fim de entendê-las melhor e, consequentemente, obter uma compreensão mais profunda de seu livro. 

   A leitura desta obra é moldada no contexto de vidas tangíveis. Neste caso, a vida da mulher de classe média baixa inglesa com pouca educação formal, que sonhara com o dia em que os homens e as mulheres se tratariam um ao outro como iguais. “O homem que se contenta em viver com uma companheira bela e útil, mas sem cérebro, perdeu o gosto por satisfações mais refinadas em favor das gratificações voluptuosas. Ele nunca sentiu a tranquila satisfação, que refresca o coração como um orvalho divino, de ser amado por alguém que o pode entender”.

   Wollstonecraft agita a bandeira da educação, como um argumento único de toda a sua teoria e luta feminina, exaltando as vantagens do amor, com determinação e revolta, lutando por mudanças e conquistas femininas alcançadas – democratização da educação, direito ao voto e liberdade sexual – outras ainda por serem alcançadas através do sonho humano inesgotável, através de outras “muitas” Wollstonescrafts através do poder da escrita e da palavra.

   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMS, M.H. The Norton Anthology of English Literature. New York: Norton, 1979.
ALVES, Hélio Osvaldo. The Adam of a New Worl : Documents illustrating radical political activity in England 1789-1805. Braga: Universidade do Minho, 1985.
BADINTER, Elisabeth. O amor incerto. Tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio de Água, 1980.
FRANKLIN, Benjamin. Autobiography and Other Writings. Oxford and New York: Oxford University Press, 1993.
SHOWALTER, Elaine. The New Feminist Criticism. London: Virago Press, 1986.
WOLLSTONEGRAFT, Mary. A Vindication of the Rights of Woman. London: Penguin [1792], 1992.


Sirlene Cristófano
Faculdade de Letras Universidade do Porto - FLUP
sirlene.cristofano@gmail.com
(http://lattes.cnpq.br/9805044636572920)

Sirlene Cristófano é actualmente mestranda em Literatura, Cultura e Interartes pela Faculdade de Letras Universidade do Porto - FLUP (2009). Possui pós-graduação em Literatura pelo Centro Universitário - FIEO (2002). Formada em Letras pelo Centro Universitário - FIEO (2001). Tem experiência na área da Educação Infantil e Secundária desde 1988. Actua principalmente nos seguintes temas: Educação, Psicanálise, Literatura, Antropologia do Imaginário e Simbologia.
06-03-2009
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Comentário de Fernando Barroso
09-03-2009 às 12:19
Complemento ao comentário de ontem. Parabéns pela capacidade de nos trazer temas interessantes e profundamente actuais. Contamos com mais.
Comentário de Fernando Barroso
08-03-2009 às 18:37
Ao relembrar Mary e a sua estoria com todas as suas tensões,Sirléne possibilita-nos entender porque é que o feminismo contemporâneo, também ele, vive uma tensão contínua,,relativamente á ideia de ter de construir a identidade de "mulher" e de sentir a necessidade de destruir a categoria "mulher"e a sua tão sólida história.
Comentário de Eni Faccin
07-03-2009 às 14:41
O Texto aborda os pricipais pontos da opressão feminina de forma bastante esclarecedora.Além disso, oferece soluções inteligentes para uma vida mais digna e feliz.
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