
Pedro Soares, Heitor de Sousa e António José Baptista
Os deputados Pedro Soares, presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura e Heitor de Sousa, deputado eleito pelo distrito de Leiria, visitaram, no dia 26 de Dezembro, três explorações agrícolas nos concelhos da Lourinhã e Torres Vedras para se inteirarem dos prejuízos decorrentes do vendaval que afectou a Região Oeste no dia 23 de Dezembro. Os dois parlamentares do Bloco de Esquerda irão propor na Assembleia da República a abertura de uma linha de crédito sem juros e com um período de carência de dois anos, para ajudar os sobreendividados agricultores a recuperarem as suas explorações agrícolas. No terreno o cenário é dantesco, com estufas completamente arrasadas e toneladas de aço retorcido perante a violência dos ventos que, nalguns pontos, poderão ter atingido os 200 km/h.
A visita começou numa exploração leiteira na Moita dos Ferreiros, no concelho da Lourinhã, cujo temporal danificou telheiros e muros. António José Baptista, proprietário da empresa Valadares, saiu para a rua na noite do temporal, tentando salvaguardar a vida das suas 900 vacas leiteiras, mas estava longe de adivinhar a experiência que iria viver. Logo que saiu da sua carrinha foi levantado no ar por uma fortíssima rajada de vento que o projectou contra uma parede, felizmente, sem consequências físicas. Depois de procurar abrigo, o empresário viu o que nunca pensara pudesse acontecer: o telheiro onde estavam presas as suas vacas oscilava continuamente mais de um metro, para cima e para baixo, como se as telhas de lusalite fossem folhas de papel.
O medo e o barulho ensurdecedor levou as vacas em pânico

Barras de aço retorcido pela força da intempérie
a abandonaram espontaneamente o local uma a uma, concentrando-se noutra zona da exploração, evitando assim ferimentos nos animais, que escaparam todos ilesos, apesar dos danos na estrutura da exploração, que levou mesmo à queda de parte dos telheiros.
O empresário, que possui ainda outra exploração com oito mil porcos, garante que a crise no sector é profunda, provocando um défice de exploração na sua empresa, no sector do leite e da suinicultura, de 45 mil euros por mês. Como consequência, a empresa descapitalizou-se e o prazo de pagamento a fornecedores alargou-se de 45 para 90 dias. Em risco estão agora 18 postos de trabalho directos e 12 indirectos. António José Baptista culpa as grandes superfícies de esmagarem a margem de lucro dos agricultores e pede a intervenção do Estado para impedir o abuso de posição dominante das cinco grandes cadeias de supermercados que dominam o mercado.

José Carlos Correia Carvalho vai prosseguir a actividade
Em risco está também o investimento de 100 mil euros José Carlos Correia Carvalho numa moderna estufa de hortícolas, com capacidade para produzir 8 milhões de plantas por ano, com inauguração prevista para o mês de Janeiro. Apesar dos prejuízos, o proprietário da empresa Agro-Litoral garante que não irá seguir o conselho do filho para cessar a actividade, dado o investimento já feito na terraplanagem do local e na abertura de um furo de rega, encarando assim a adversidade como um desafio a vencer.
A próxima paragem foi já no concelho de Torres Vedras, onde a Campotec - Comercialização, Consultadoria de Hortofrutícolas, SA estima que 12 produtores de hortícolas que fornecem a empresa foram duramente afectados, totalizando cerca de um milhão de euros de prejuí

Estufas foram arrasadas pelo temporal
João Faria, responsável pelo departamento de produção hortícola da Campotec, garantiu que existem seguros para a produção de hortícolas, ao contrário do que sucede com as estufas, que não estão abrangidas por qualquer seguro. No entanto, sem estufas não há produção e a próxima plantação em risco é a de tomate, que deveria ser iniciada em breve e que deverá perder-se irremediavelmente, deixando os agricultores sem qualquer fonte de rendimento no próximo ano. Dos 2,5 hectares da propriedade visitada pelos deputados do Bloco de Esquerda, explorada por vários agricultores, apenas duas estufas se salvaram, tendo as restantes sido literalmente arrasadas pela força do vento.
Pedro Soares viu os agricultores contactados receberem com agrado a proposta do Bloco de Esquerda de propor ao Governo a abertura de uma linha de crédito sem juros e com um período de carência de dois anos, para ajudar os agricultores a recuperarem as suas explorações agrícolas e reiniciarem a sua actividade. Com efeito, o recurso às vias normais de financiamento bancário por parte dos agricultores está praticamente fora de questão, uma vez que a generalidade dos agricultores já contraiu empréstimos cujas prestações está a pagar, por outro lado, também já não poderá beneficiar de novos créditos, dada a impossibilidade de os poder pagar. Por outro lado, como muitos pequenos agricultores não fazem seguros de colheita, estes nada irão receber das seguradoras, estando assim em risco a continuação da sua ac

João Faria numa das duas únicas estufas
sobreviventes
O presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura esclareceu que o apoio de 50% a fundo perdido já prometido pelo ministro da Agricultura só se aplica em caso de bens não seguráveis, o que só se deverá aplicar no caso das estufas. Pedro Soares esclareceu ainda que a eventual atribuição de apoios no âmbito do PRODER - Programa de Desenvolvimento Rural está dependente da classificação pelo Governo da Região Oeste como zona de calamidade pública, uma vez que assim o determina o regulamento comunitário, o que ainda não aconteceu.
Mário Lopes