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 Vicente Batalha
É este o título da exposição que vai estar patente ao público durante todo o mês de Novembro, “Novembro, Mês de Santareno”, no Teatro Sá da Bandeira, por iniciativa do Instituto Bernardo Santareno/Câmara Municipal de Santarém. No dia 3, pelas 21h30, Luís Francisco Rebello inaugura a iniciativa e profere no local uma conferência subordinada ao tema “Santareno, entre o Céu e o Inferno”, oportunidade única para uma aproximação, ao mesmo tempo lúcida e sentimental, à complexa personalidade e ao riquíssimo universo do autor. Rebello, dramaturgo e teatrólogo, foi seu amigo pessoal, companheiro de jornada, e é um profundo conhecedor e estudioso da sua obra. Para a exposição e a conferência deixamos o convite, porque ambas merecem a vossa presença para se cumprirem.
Bernardo Santareno é destacado filho da cidade de Santarém, cujo nome escolheu para lhe ficar indissoluvelmente ligado, e onde nasceu a 19 de Novembro de 1920. É o mais ilustre dramaturgo do século XX português, e tem direito a figurar na galeria dos maiores de sempre, ao lado de Gil Vicente, António José da Silva “O Judeu” (título da sua peça de 1966, representada com êxito, em 1981, pela Companhia do Teatro Nacional, espectáculo a que já não assistiu) e de Almeida Garrett.
Em 1957, ano nuclear para a sua afirmação, e depois dos três volumes de poesia “Morte na Raiz”/1954, “Romances do Mar”/1955 e “Os Olhos da Víbora” desse mesmo ano) e do livro de crónicas “Pelos Mares do Fim do Mundo”, publica o seu 1º volume, sob o título “Teatro”, que inclui as peças “A Promessa”, “O Bailarino” e “A Excomungada”.
Mestre António Pedro, um dos mais proeminentes vultos do panorama teatral da época, afirma que se estava perante o maior dos dramaturgos portugueses e um caso sério em qualquer país do mundo. De imediato, encena “A Promessa”, no Teatro Experimental do Porto/TEP, que causou intensa polémica, acabando por ser retirada de cena por decisão do Governo de Salazar, devido a pressões da Igreja Católica, através do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, como refere Júlio Magalhães no texto que assina no programa do espectáculo “O Crime da Aldeia Velha”, que, com encenação de Carlos Avilez, a Companhia do Teatro Nacional levou à cena com êxito na temporada de 1998.
Aliás, a censura foi sempre particularmente persecutória em relação ao teatro de Santareno, que subiu à cena atrasado no tempo, e com o consequente desgaste e a auto limitação da sua genial veia de autor dramático. Como a generalidade do teatro, as peças só no palco voam e assumem a sua verdadeira dimensão, pois é lá o seu espaço e o seu tempo.
Em carta ao pai, Santareno desabafa: “...aos 40 anos, vou aguentando desconforto, solidão, incompreensão de quase todos, falta de dinheiro, e tudo o mais que vier. Não importa, hei-de fazer a minha obra. Sei que tenho força para isso. Não sou nem serei nunca um burguês (comer, dormir e ganhar dinheiro) nem um animal de capoeira. Não tenho inveja nenhuma daqueles que conseguiram essas coisas na vida. Sou e serei cada vez mais fiel a mim próprio. Proibiram-me “O Duelo”, proibiram-me “O Pecado de João Agonia”, estão quase a proibir-me “Os Anjos e O Sangue”. Não importa.”
Mesmo assim, Santareno viu grande parte das suas obras representadas pelos maiores actores e companhias portuguesas, e por muitos grupos de amadores, de Norte a Sul do país. “O Crime da Aldeia Velha” foi ainda adaptado ao cinema, em 1964, por Manuel Guimarães, e coreografado, em 1967, pelo Grupo Gulbenkian de Bailado. “A Traição do Padre Martinho” (1969) e “Português, Escritor, 45 anos de Idade” (1974), tornaram-se verdadeiros êxitos populares, depois do 25 de Abril, período em que publicou “Os Marginais e a Revolução”. Morreu a 29 de Agosto de 1980.
“O Punho” foi a peça que deixou inédita, e ainda não subiu à cena até hoje. Uma leitura das suas principais cenas foi feita pelos actores Eunice Muñoz, Fernanda Alves, Fernanda Lapa, Lia Gama e António Rama, no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores.
É tempo da genialidade do teatro de Santareno, “quase sempre um fresco de gente do povo com quem gostava de conviver” regressar do silêncio das bibliotecas para esse convívio de pessoas, na cidade, no país e no mundo, de preferência, sobre as tábuas do palco, para onde nasceu.
É esse o objectivo ambicioso que Santarém acaba de assumir, que conta com todos que amam a liberdade, a solidariedade e a fraternidade, sempre baseadas na compreensão da natureza humana, de que a obra de Santareno é exemplo.
Vicente Batalha Director do Instituto Bernardo Santareno
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