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Edição Nº 121 Director: Mário Lopes Sexta, 19 de Novembro de 2010
Opinião
Desesperada Esperança
   


Valdemar Rodrigues

É uma constante nos dias que correm as referências aos “mercados” e à “confiança” dos mesmos e dos “investidores” na indígena economia. De tais entidades e “autoridades” diz-se amiúde que estão nervosas ou optimistas, consoante a perspectiva que têm de perderem ou ganharem oceanos de dinheiro nos seus globais negócios. As palavras são hoje muito ambíguas, tão entregues que estão a falsários e manipuladores. Os “mercados” actuais, para respeitarmos a história da Europa, não devíamos chamá-los assim. A palavra “mercados” serve actualmente para esconder toda a espécie de sujidades, tráficos e corrupções que alastram pelo mundo. O dinheiro, para os antigos mercadores, não era um fim mas sobretudo um meio para a realização de trocas de bens, e apenas nesse sentido constituía uma reserva de valor para aquisições futuras. Em si mesmo, o dinheiro era e foi considerado algo de sujo, e daí o termo “vil metal”. Por razões de higiene, o dinheiro ainda é hoje por muitos considerado coisa suja, por não se saber ao certo por que mãos andou até chegar às nossas. Nos “mercados” actuais não há valor que supere o desse “bem” sujo cuja circulação a tecnologia fortemente facilitou, e cuja disponibilidade foi largamente ampliada por um sistema artificial, e imoral, de reservas fraccionadas, o qual permitiu ao sistema financeiro embolsar em pouco tempo colossais fortunas, emprestando e cobrando juros pelo dinheiro que jamais existiu em depósitos. Emprestou-se muito e a muita gente. Emprestou-se muito ao Estado, aproveitando as fragilidades humanas e da democracia. As garantias reais desses empréstimos foram os bens do próprio Estado, e quem as assinou, em nome de todos, foram os governantes que agora procuram fugir às responsabilidades. A actual “crise” não tem nenhuma causa extraterrena ou sobrenatural: ela deve-se exclusivamente à (in)acção política. Pouco adianta saber se se tratou de cobardia, traição, ignorância, negligência, corrupção, ou se de tudo isso um pouco. Interessa apenas que não é justo que vença a ideia de que a culpa é de todos, e em particular nossa, que legitimámos democraticamente a (in)acção de tais políticos, deixando-nos encantar pelas serpentes do crédito e da lei do menor esforço.


   É um facto político – e não uma qualquer predestinação diabólica ou da Má Sorte – a falta de liquidez e de oportunidades de emprego para tanta gente, jovem e menos jovem, nos países ditos desenvolvidos. Por um lado, o controlo apertado da inflação assegurou que os donos do dinheiro não se desfariam dele investindo em coisas arriscadas, ou seja, produtivas, e a maioria daqueles que o fizeram (ab)usaram do crédito, o que a prazo agravou a sua situação económica, e com isso a do país; e, por outro, uma política económica assente na ilusão do crédito fácil e sem limites, garantiu a inaudita acumulação de capital monetário por parte daqueles que emprestavam, incluindo os especuladores. Mas de que serviria tanto dinheiro que não desvalorizava significativamente caso os seus detentores não pudessem adquirir nada de “relevante” com ele, por exemplo um país ou uma região inteira do planeta? Era esta reflexão mínima que se pedia a um político competente, evitando deixar que o país e o povo caíssem nas mãos dessa rede mundial de agiotagem e de especulação monetária que agora, legitimamente, exige o seu reembolso. É isso de que agora se trata quando falamos da “crise” em que vivemos, e do seu “inevitável” agravamento.

   Punge ouvir homens como o Prof. Cavaco Silva dizerem ser necessário um “novo modelo económico”. Especialmente homens que, como ele, tanto se empenharam em desenvolver o modelo económico que hoje temos e que nos esmaga, assente nos “mercados” financeiros sem rosto nem interesse pelo bem público, que afinal de contas nunca foi interesse a que estivessem por natureza obrigados. É certo que o Prof. Cavaco Silva, e tantos outros políticos da sua espécie, nunca seriam quem são ou ocupariam os lugares políticos que vieram a ocupar, se não tivessem tomado as decisões que tomaram, e que foram largamente favoráveis ao estabelecimento desse modelo económico do qual agora – estranhamente – procuram demarcar-se. O facto de até ao momento ninguém ter sido politicamente responsabilizado pela onda de desastres financeiros iniciada em 2008 nos EUA, a qual ditou em Portugal a “nacionalização” de alguns bancos (um dia talvez percebamos com exactidão o quanto nos custaram tais “nacionalizações” amigas do sistema financeiro) deixa de ser misterioso se notarmos o quão importante é o sucesso da fase em que estamos a entrar, e que consiste na cobrança coerciva da dívida soberana – pois o objectivo sempre fora só e apenas esse: o de tomar posse do (muito) que ainda resta dos bens públicos nacionais, há tempo suficiente sob administração de políticos incapazes. A democracia, único sistema de governo capaz de comprometer o povo com os desastres da governação, foi usada como instrumento, sobre o lastro de uma classe média ascendente que lhe daria, segundo Max Weber, crescente consistência. Foi essa classe média alavancada pelo crédito que deu à banca argumentos para pensar que estava a agir “socialmente bem” em todo o processo. Teria toda a razão, não fossem os banqueiros também homens, e não propriamente deuses como alguns se devem achar. Mas é claro que a principal culpa foi e é política, como já se disse. Mantendo a premissa webberiana, o desaparecimento (súbito) dessa classe média representa uma incomum ameaça para a democracia. E não é por acaso que surgem agora coisas “inevitáveis”, como sejam a recente aprovação do Orçamento de Estado para 2011, ou a reeleição, em Janeiro próximo, do Prof. Cavaco Silva: tudo é inevitável quando já não temos forças. 

   A desesperada esperança reside agora nos “investidores”, não importa quem eles sejam, e se respeitam ou não os direitos humanos nos seus países (isso parecem coisas do passado, o que faz suspeitar sim, de um ataque à democracia, porém a uma escala nunca vista). Espera-se deles que comprem a preço decente os títulos nossa dívida. E note-se como, em tão pouco tempo, passámos da fase de termos de ser nós a suportá-la, ainda que com juros elevados (como convém à saúde do sistema financeiro) para a de termos de entregar o país a retalho aos “investidores”, mantendo todavia as aparências de dignidade, e comportando-nos como uns “homenzinhos”. Pois – asseveram-nos – qualquer movimento em falso é nocivo, atirando ainda mais o rating da dívida para a zona do convés onde muitas ratazanas “financeiras” esperam, ansiosamente, pela sua hora. E o que fazem os políticos nacionais perante a situação? Perecem aqueles países de antanho que entregavam a menina violada ao violador, para que ela ao menos pudesse com ele casar, evitando a desonra e fazendo de conta que nada de errado tinha acontecido antes. Mas tinha.
19-11-2010
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