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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Terça, 1 de Junho de 2004
Editorial
Voando sobre um ninho de cucos

Mário Lopes 

Uma guerra tonta. Foi assim que um pivô da independente TVI apresentou há poucos dias a invasão do Iraque pela coligação anglo-americana, durante o telejornal. Tenho de admitir que a minha primeira reacção foi de surpresa e, por momentos, até me questionei se o jornalista não estaria a exorbitar as suas funções e a quebrar o seu dever de imparcialidade. Mas, em minha opinião, não está. É que, antes de se ser jornalista, é-se cidadão e há neutralidades que não são admissíveis porque colidem com os mais elementares deveres de cidadania e até com o direito à vida, como se pôde constatar com as torturas praticadas na prisão de Abu Ghraib, em Bagdad.

Ora, nenhum jornalista responsável e sério se manteve neutral quando Hitler invadiu a Polónia. Ou quando Milosevic chacinou bósnios e kosovares, numa deriva nacionalista demencial. Ou quando o despótico Saddam Hussein invadiu o Koweit. Ou quando Suharto e Wiranto - agora candidato à presidência da Indonésia - patrocinaram milícias criminosas e este último foi cúmplice, pelo menos, na devastação de um País inteiro como vingança pela recusa dos timorenses em fazer parte da Indonésia.

O Fürer bem podia argumentar que só estava a recuperar territórios que lhe foram ilegitimamente anexados. O presidente sérvio e os generais indonésios bem podiam alegar que estavam apenas a proteger a unidade do seu País. Saddam bem podia invocar que estava a responder às provocações do seu vizinho e a proteger os seus poços de petróleo. George W. Bush bem pode alegar que está a combater o terrorismo mas, como já toda a gente percebeu, nada disto justifica minimamente o despoletar de uma guerra, que, como todas as outras, terá sempre de ser classificada de demencial, se não for como resposta a outro acto de guerra. E é o caso.

A verdade é que um jornalista não pode nem deve ignorar a história contemporânea, muito menos, ignorar de que lado estão os sentimentos. O jornalista da TVI, ao classificar aberta e descomplexadamente a invasão do Iraque como uma "guerra tonta", mais não fez do que antecipar o que a História não deixará de registar. Perante a galeria de horrores a que todos temos testemunhado, não há neutralidade possível, por mais latitude que um profissional de comunicação social possa conceder.

É verdade que temos contado por cá uma série de comentadores que, contra todas as evidências, continuam estoicamente a dar o benefício da dúvida à invasão do Iraque, embora, diga-se em abono da verdade, cada vez mais envergonhadamente. Luís Delgado, Nuno Rogeiro e o trio de Josés - José António Saraiva, José Manuel Fernandes, e José Pacheco Pereira - têm tentado tudo para justificar o injustificável. Este último até, pasme-se!, chega a fazer um balanço positivo da invasão!

Mas também não espanta, se nos lembrarmos que Pacheco Pereira dizia no Flash Back da TSF, alguns anos antes da independência de Timor, que não entendia porque os portugueses se indignavam tanto com a violência dos indonésios sobre os timorenses, porque estes também eram violentos! Só Pacheco Pereira, fazendo uso da sua vasta Cultura política e refinada inteligência, conseguiu não perceber o que era óbvio para todos os portugueses: que havia um povo humilhado e oprimido que clamava por liberdade. O ainda eurodeputado volta a conseguir ver, uma vez mais, o que mais ninguém vê... Estamos conversados.

Aliás, não foi por acaso que o cineasta Michael Moore ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com um documentário assumidamente político sobre o actual presidente norte-americano. Também não foi por acaso que vários actores norte-americanos apelaram em Cannes ao não voto em George W. Bush nas próximas eleições presidenciais de Novembro. A verdade é que nada disto aconteceria numa situação política normal. Contudo, eles perceberam que o mundo corre hoje para o abismo e enfrenta perigos que se julgavam inimagináveis há 4 anos atrás.

Em minha opinião, o mundo enfrenta hoje uma das maiores ameaças à paz mundial desde que Adolf Hitler assumiu o poder em 1933. Como já diversos políticos e comentadores afirmaram, o actual presidente norte-americano é hoje o principal fomentador do terrorismo internacional, tornando o Iraque no principal campo de treino dos terroristas e Israel numa escola de suicidas. Por mais que os nossos comentadores domésticos queiram esconder a cabeça debaixo da areia, a verdade é que nunca um presidente norte-americano fomentou tanto ódio e descontentamento no mundo inteiro. Por isso, o tempo não é de hesitações nem de meias palavras, mas de mobilização.

Para bem do mundo inteiro, George W. Bush e a sua administração de Extrema-Direita têm de ser apeados do Poder. E este não é um objectivo político, há muito que deixou de o ser. É um objectivo de cidadania e de sobrevivência global. Por isso, este tem de ser um objectivo de todos nós, sejamos da Esquerda ou da Direita, ricos ou pobres, cristãos ou muçulmanos, budistas ou ateus. Se o actual presidente norte-americano for reeleito, o mundo mergulhará numa crise ainda mais profunda, económica, social e política, de consequências imprevisíveis. Se o preço do barril de petróleo já ultrapassa actualmente os 40 dólares, poderá chegar aos 50 ou 60 com uma vitória de Bush nas eleições presidenciais. Tal causaria o caos na economia mundial, falências em cadeia e desemprego aos milhões.

Ora, o meu apelo é para que não fiquemos distraídos e contribuamos para evitar o que seria uma tragédia para o mundo. Como os portugueses se mobilizaram para condenar o massacre de Timor, também agora se podem fazer ouvir condenando a política "tonta" e irresponsável da administração norte-americana. O caso pode ser menos agudo, mas as consequências poderão ser muito piores, porque nos afectará a todos. A nossa voz, não tenhamos dúvidas, é decisiva: protestando, comentando, votando, enviando cartas ou e-mails, há que dizer basta!

Israel e o estranho silêncio da União Europeia

No dia 19 de Maio, o mundo novamente surpreendido com mais dois actos de barbárie, cometidos pelas tropas norte-americanas e israelitas. No Iraque, as tropas norte-americanas, ignorando as tradições iraquianas, resolveram bombardear preventivamente um casamento, porque, alegadamente, ouviram tiros. Resultado: 41 mortos, incluindo mulheres e crianças, e dezenas de feridos. Um completo desprezo pela vida humana que não pode deixar de indignar qualquer ser humano, seja qual for a sua nacionalidade ou a sua ideologia política.

Em Israel, também as tropas israelitas resolveram bombardear uma manifestação de civis, com o argumento de que alguns teriam armas. O mesmo desprezo pela vida humana, a mesma selvajaria: um Estado que se arroga no direito, contra tudo e contra todos, de praticar terrorismo quando, como e onde quiser. Ariel Sharon, acusado de crimes contra a humanidade no massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila- decretou também a demolição de milhares de casas de palestinianos, que se viram na rua, despojados de tudo o que têm, apenas porque são suspeitos de apoiar os "terroristas" palestinianos.

Desta vez, nem os Estados Unidos se atreveram a usar o veto com que têm sancionado as actividades criminosas - goste-se ou não, não há outra classificação possível - do Governo israelita pelo que acabou condenado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Num total desprezo, já não apenas pelos palestinianos, mas agora pelo mundo inteiro, o Governo israelita ignorou a deliberação e, em vez de parar, aproveitou para acelerar o processo de demolição de casas.

A questão que se coloca agora é: até quando? Até quando o mundo vai permitir a barbárie? Sobretudo, porque é que a União Europeia se limita a condenações anódinas e não tem a coragem de impor uma única sanção? Nem um embargo aéreo, nem sanções económicas, nem nenhuma outra. Absolutamente nada! Ora, a União Europeia que tão célere foi a impor sanções a Cuba porque um grupo de dissidentes tentou desviar um barco para Miami com passageiros lá dentro, tendo sido por isso fuzilados por isso, ignora os assassínios continuados de que milhares de civis e inocentes palestinianos continuam a ser alvo, a que nem as mulheres, crianças e deficientes escapam.

A União Europeia, que não hesita em exercer represálias contra os fracos invocando os direitos humanos, demonstra uma lamentável covardia política quando se trata de afrontar os fortes. A Europa, goste-se ou não, tem aceitado passivamente os crimes do Governo israelita pela inacção que tem demonstrado. Por isso, como cidadão europeu, expresso aqui a minha indignação. Nesta União Europeia de políticos sem alma e sem valores e de burocratas sem coragem, não me revejo!

Portugal Positivo?

Há alguns meses, tive a oportunidade de saudar o aparecimento de dois movimentos cívicos: um, o Compromisso Portugal; o outro, a Comissão Representativa de Empresários, Proprietários e Moradores de Alcobaça. Contudo, o mesmo não posso dizer de um denominado movimento "Portugal Positivo". Se é verdade que Portugal tem problemas de auto-estima e que há um pessimismo exagerado na sociedade portuguesa, não me parece que a solução seja ignorar o mau momento por que atravessa o País e o mundo.

A ideia peregrina de passar a divulgar notícias positivas e ignorar os problemas da actualidade parece-me destituída de qualquer sentido e, até, ridícula. A verdade é que se o País e o mundo estão como estão é porque há políticas e políticos responsáveis por essa situação. A solução natural parece-me que deve passar por responsabilizar esses políticos e mudar as políticas, não esconder a cabeça na areia.

Aliás, o secretário de Estado norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, perante o clamor internacional contra o escândalo da prisão de Abu Ghraib e as suas políticas belicistas, teve uma ideia luminosa muito semelhante a esta: deixar de ler jornais!

George W. Bush, que também não gosta da realidade da qual ele próprio é responsável, em vez de rever as políticas que conduziram às torturas em série na prisão de Abu Ghraib, decidiu que o melhor era esconder o símbolo da vergonha nacional americana e demolir a prisão. Todavia, o que qualquer político minimamente responsável faria seria musealizar esta prisão - célebre pelas atrocidades cometidas pelo regime de Saddam Hussein - para preservar a memória de uma realidade que não se deve repetir. Como se fez em Auschwitz, no Tarrafal ou no Forte de Peniche. Ao anunciar a demolição da prisão, Bush revelou o mesmo desprezo pela Cultura e pela memória já evidenciados quando deixou pilhar o museu de Bagdad.

A realidade, por mais cruel que pareça não é para ser apagada e muito menos escondida. Melhor fariam os senhores do "Portugal Positivo" se fizessem alguma coisa para a alterar, em vez de quererem tapar o sol com a peneira. Aliás, não me parece nada saudável intitularem-se de apolíticos. No caso do "Compromisso Portugal", os portugueses conhecem as pessoas que dão a cara por ele, sabem de que quadrante ideológico provêm, tudo é claro e transparente. Pelo contrário, a história demonstra que por detrás de movimentos apolíticos e nacionalistas como o "Portugal Positivo" espreita geralmente a Extrema-Direita. Para esse peditório, já demos...

Aliás, alguns políticos apanharam a boleia deste discurso e querem-nos fazer crer que o mundo não está assim tão mal. Podem os senhores do "Portugal Positivo" deixar de ler jornais ou de ver televisão, se gostam da realidade em que vivem. Têm esse direito. Agora, deixem o povo ver o estado do País e do mundo. O problema não é dos jornalistas, a realidade é mesmo negra! E há responsáveis por este ambiente plúmbeo e sulfuroso, por mais que o tentem esconder...

01-06-2004
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