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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Quarta, 16 de Junho de 2004
No âmbito do EURO 2004
Roteiro Korrodi apresentado em Leiria

Ernesto Korrodi 

A Região de Turismo de Leiria-Fátima, o CEPAE, a ADLEI, a Ordem dos Arquitectos e a Câmara de Leiria apresentaram, no dia 11 de Junho, um roteiro  dedicada à obra de Ernesto Korrodi (1870-1944) em Leiria. A vinda dos jornalistas e adeptos suíços ao jogo Suíça-Croácia foi o pretexto para a edição deste guia trilingue que visa divulgar a obra do prestigiado arquitecto suíço radicado em Leiria. Korrodi deixou cerca de 400 obras em Portugal, entre as quais dois prémios Valmor.

Na apresentação do roteiro marcaram presença Vítor Lourenço, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Leiria, Miguel Sousinha, presidente da Região de Turismo de Leiria-Fátima, Pedro Biscaia, presidente da ADLEI (Associação para o Desenvolvimento de Leiria), Acácio de Sousa, presidente do CEPAE (Centro do Património de Leiria), Rui Ribeiro, presidente do Núcleo Distrital de Leiria da Ordem dos Arquitectos e a historiadora Maria Genoveva Oliveira, a preparar actualmente uma tese de mestrado sobre Ernesto Korrodi, a quem coube apresentar a obra.

 Banco de Portugal

O roteiro de bolso em Português, Inglês e Francês inclui um mapa com o percurso pelas mais emblemáticas das obras de Ernesto Korrodi em Leiria, como a Villa Hortênsia (casa onde o arquitecto viveu), o Convento de S. Francisco, a Casa do Arco, o Edifício Zúquete, o Banco de Portugal, os Paços do Concelho, o Mercado de Sant"Ana e o castelo de Leiria. O guia contém ainda referências  a outros edifícios da Região de Turismo Leiria-Fátima, como o castelo de Ourém ou o Teatro Chaby Pinheiro, na Nazaré, contendo também um breve resumo histórico de cada obra.

Pedro Biscaia: Ernesto Korrodi foi um cidadão exemplar

Para Pedro Biscaia, a ideia subjacente à edição deste roteiro é a valorização do que é distintivo no património, não só de Leiria, mas de toda a região. A intervenção de Ernesto Korrodi é um importante ícone para cativar o turismo cultural cujo público-alvo tanto podem ser as pessoas que se interessam por arte e arquitectura, como o estudante que quer fazer um trabalho, ou o turista acidental que tem algo para de diferente ver em Leiria. O presidente da ADLEI lembra também a importância deste roteiro para os próprios leirienses, pois muitos deles passam pelos edifícios e não sabem que foram projectados por Ernesto Korrodi.

 Pedro Biscaia, presidente da ADLEI

Korrodi foi importante não apenas como arquitecto, mas na sua vida cívica, tendo sido um dos grandes lutadores pelo descanso semanal ao domingo, na altura da República, um homem de uma grande modernidade e com uma atitude cívica muito importante. Por isso, Korrodi pode ser um pretexto para se fazerem coisas boas em Leiria e lembra, a este propósito, que a Junta de Freguesia instituiu também o Prémio Korrodi para a reabilitação urbana.

Pedro Biscaia reconhece que o EURO 2004 foi importante para Leiria porque serviu de catalisador para muitas obras na cidade, "pequenos pormenores que fazem a cidade" há muito reclamadas pela sociedade civil e agora feitas de uma vez só, "o que demonstra que era fácil e possível fazê-las. Hoje a cidade está mais bonita, o que mostra que as reivindicações da ADLEI eram justas".

Rui Ribeiro: património de Korrodi em Leiria continua em risco

 Rui Ribeiro, presidente do Núcleo de Leiria da Ordem dos Arquitectos

Segundo Rui Ribeiro, a ideia deste roteiro visa dar maior visibilidade à obra de Ernesto Korrodi, dotando a cidade de Leiria de um documento que faça com que as pessoas possam percorrer os principais pontos da cidade pontuados pela obra do arquitecto. Assim, as pessoas poderão simultaneamente passear na cidade e conhecer a obra de Ernesto Korrodi, um dos expoentes da Arte Nova em Portugal. Em 1910, recebeu o Prémio Valmor pelo prédio da Avenida Fontes Pereira de Melo onde se encontra actualmente o Teatro Villaret e, em 1917, o mesmo galardão pelo prédio do nº 5 da Rua Viriato, ambos em Lisboa.

O presidente da Ordem dos Arquitectos de Leiria considera, todavia, que subsistem bastantes edifícios projectados por Korrodi em risco em Leiria, embora ressalve que os problemas arquitectónicos da cidade sejam os mesmos do resto do País. Rui Ribeiro refere, no entanto, que há regiões em que o património edificado de Korrodi está mais bem preservado que em Leiria. Os problemas do património edificado por Korrodi afectam não apenas edifícios particulares, mas também públicos, incluindo alguns propriedade do Poder Central, "completamente votados ao abandono".

O Castelo de Leiria foi um dos monumentos cuja recuperação Ernesto Korrodi mais defendeu durante décadas, tendo fundado a Liga dos Amigos do Castelo, em 1915, associação que conseguiu iniciar a recuperação do monumento já nos anos 20 e 30. O monumento, classificado como Património Nacional em 1910, deverá sofrer proximamente uma intervenção a cargo da Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais, ainda está em fase de apresentação de estudos. Rui Ribeiro adianta que já houve sessões públicas de apresentação de estudos prévios sobre o castelo, esperando-se apresentações mais formais e completas da intervenção num futuro próximo.

Miguel Korrodi: um apaixonado pelo obra do bisavô

 Miguel Korrodi

Miguel Korrodi, por sua vez, admite que a sua ideia original era fazer um roteiro de âmbito nacional com a obra do arquitecto suíço, mas a vinda dos jornalistas suíços levou a esta solução de âmbito local. O bisneto de Ernesto Korrodi esclarece que o espólio existente no ateliê do arquitecto foi entregue ao Arquivo Distrital de Leiria e que todo o arquivo da secção de obras da Câmara Municipal de Leiria está no arquivo da Câmara Municipal, nomeadamente, na Biblioteca Afonso Lopes Vieira.

A preservação estará, assim, assegurada, permitindo desenvolver investigação, nomeadamente, a que serviu para elaborar este roteiro e para a tese de mestrado desenvolvida em 1984 por Lucília Verdelho da Costa, publicada em livro em 1997, que veio dar a conhecer muita da obra de Korrodi.

Miguel Korrodi lembra que muita gente ainda hoje pensa que Ernesto Korrodi foi apenas o autor da reconstrução do castelo de Leiria ou o responsável pelo edifício do Banco de Portugal, dos Paços do Concelho ou do Mercado Sant"Ana, o que revela um desconhecimento total sobre o elevado número de casas privadas projectadas pelo seu bisavô. Aliás, Miguel Korrodi que é engenheiro de máquinas, vive há cerca de um ano na casa onde o bisavô também viveu, a Villa Hortênsia, que sofreu obras de recuperação durante 4 anos.

O bisneto de Ernesto Korrodi espera que a edição deste roteiro contribua para que as pessoas se empenhem mais na preservação destas casas: "Korrodi lutou muito para proteger o património nacional em várias cidades do País, e hoje, quase 100 anos volvidos, compete às novas gerações esforçarem-se por preservar o património arquitectónico que ele desenvolveu", concluiu.

Vítor Lourenço: Cultura e desporto não devem
ser mundos separados

 Apresentação do roteiro de Ernesto Korrodi

O vereador da Cultura da Câmara Municipal de Leiria referiu ao Tinta Fresca que a edição deste roteiro cultural no âmbito do EURO 2004 representa mais uma das apostas da autarquia em juntar Cultura e desporto, dois mundos considerados, muitas vezes, separados e até antagónicos. Vítor Lourenço rejeita, todavia, essa separação considerando que Cultura engloba todas as manifestações do ser humano, individual e colectivamente considerados.

O EURO 2004 representa também uma oportunidade para democratizar a Cultura. Daí que Vítor Lourenço destaque os espectáculos de teatro de rua realizados a 8 e 9 de Junho, que considerou de grande qualidade e participados por toda a população: "Aproveitámos o EURO 2004 para proporcionar às pessoas que nos visitam momentos de lazer, mas também de enriquecimento cultural, com as artes, os espectáculos, as exposições ou as obras editadas. Queremos dar a imagem de uma terra preparada para receber e enviar para fora a imagem de uma sociedade equilibrada, socialmente justa e culturalmente rica", explicou o autarca.

Biografia

Ernesto Korrodi nasceu em Zurique, em 1870, e o seu apelido deriva do nome “Konrad”.Concluiu muito novo o ensino primário e secundário e ingressou na Escola de Arte Industrial onde obteve o diploma no final de 1888, interessando-se, desde logo, pela Arqueologia. Concorreu a um cargo para professor de Desenho, anunciado no consulado de Portugal em Berna, e em 1889 foi colocado na Escola Industrial de Braga onde permaneceu cinco anos.

 Em Braga, para além do ensino, dedicou-se ao estudo de monumentos, igrejas, e palácios, sendo transferido, em 1894, para a Escola Industrial de Leiria onde, de imediato, se dedicou nas suas horas vagas, ao minucioso levantamento do que restava das ruínas do Castelo. Em 1898, publica os Estudos de Reconstrução sobre o Castelo de Leiria, edição de 200 exemplares, subsidiada pelo Governo Português e impressa no Instituto Poligráfico de Zurique. Ainda nesse ano é homenageado com a Comenda do Mérito Industrial.

 Em 1901, casa em Leiria com Quitéria Maia, professora do ensino primário, e vêm a ter 2 filhos. Em 1902, é agraciado com a Ordem de S. Thiago do Mérito Científico, Literário, e Artístico pelo projecto de reconstituição dos Paços do Duque de Bragança, em Barcelos. O seu empenho em defesa do Castelo de Leiria conduziu à sua classificação como Monumento Nacional em 1910 e em 1915, cria a Liga dos Amigos do Castelo que, com a ajuda do Estado, deu início às primeiras obras de consolidação. Os trabalhos continuaram sob a sua orientação até 1933, passando depois para a responsabilidade da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

 Em 1905, foi nomeado director da Escola Industrial de Leiria. Para além do ensino e do estudo de monumentos históricos, desde cedo se dedicou à arquitectura, como autodidacta, e em 1899 já era sócio da Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos, bem como da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses.   Os seus projectos de arquitectura estendem-se por todo o país, desde Chaves até Vila Real de Santo António, e em Lisboa foi agraciado com dois Prémios Valmor, em 1910 e em 1917.

  Criou em Leiria uma pequena escola de cantaria artística, a expensas suas, e esta viria a transformar-se numa grande oficina de verdadeiros artistas cujo trabalho, na sua maior parte, era passado à pedra sob modelação sua. Esses trabalhos de cantaria enriqueceram não só as obras por si projectadas, como as de outros arquitectos por todo o país. Em 1926, foi-lhe concedido pelo Governo Português, o título de Arquitecto.

 Desde cedo se envolveu em diversos movimentos de modernização, chegando a realizar trabalhos e conferências por todo o país sobre o Ensino em Portugal, pelo que foi agraciado, em 1909, com  a Comenda da Instrução Pública.  Em 1911, viria a liderar um movimento de âmbito nacional a favor do descanso dominical, promovendo-o energicamente através de conferências e artigos na imprensa. Ernesto Korrodi faleceu em Leiria, em 1944, sendo sepultado voltado para o Castelo, como era seu desejo.

 Em 1970, no centenário do seu nascimento, foi eleito a título póstumo, cidadão honorário do Concelho pela Câmara Municipal de Leiria e foi-lhe descerrado um monumento no sopé do castelo, na avenida com o seu nome. Em 1997, foi publicada em livro a Tese de Mestrado Ernesto Korrodi – Arquitectura, Ensino, e Restauro do Património, de Lucília Verdelho da Costa, contribuindo de uma forma decisiva para dar a conhecer a dimensão da sua obra.

 Em 2000, a Câmara Municipal de Braga atribui o seu nome a uma rua e apresentou a sua biografia no guia Braga Cultural.  Em 2003, foi criado em Leiria o Prémio Korrodi destinado a dinamizar a preservação e reabilitação de imóveis degradados e contribuindo, ao mesmo tempo, para homenagear a sua obra.

          Mário Lopes

 

16-06-2004
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Comentário de Daniel Lacerda
14-10-2011 às 13:23
Sabe-se que os Korrodi estão associados às Termas de Monte Real e à fachada e torre sineira da nova igreja matriz. Mas não haverá também a mão de Korrodi na residência da Quinta das Costeiras, hoje em ruína?
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