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Edição Nº 89 Director: Mário Lopes Domingo, 16 de Março de 2008
Opinião
O Regicídio
    Assinalou-se, no dia 1 de Fevereiro, os 100 anos do Regicídio, no qual foram assassinados El Rei D. Carlos e o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe.

    El Rei D. Carlos e a família real regressaram a Lisboa no comboio, atravessaram o Rio Tejo no vapor da carreira e tomaram o landeau real que os devia conduzir ao Paço. Pouca gente os esperava, quando a carruagem passava em frente dos actuais correios. Antes da esquina para a Rua do Arsenal, ouviram-se detonações.
Um homem correu para o landeau real, saltou para as traseiras e fulminou o Rei com dois tiros à queima-roupa. Então o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe pôs-se de pé, e viu-se um atirador, encostado às arcadas, apontar-lhe uma carabina e abatê-lo. O Infante D. Manuel recebeu um ferimento de bala num braço, sem gravidade. Os poucos polícias que estavam na Praça correram sobre os regicidas e abateram-nos. 

    Disse-se depois que o grupo designado para a morte do Rei era formado por cinco pessoas, mas, no pânico que se estabeleceu, os outros conseguiram fugir. Um dos regicidas foi mais tarde identificado como Alfredo Costa, jovem de 23 anos que, embora viesse para Lisboa como caixeiro, sentia-se escritor. Fundara o jornal "O Caixeiro" de que era director, e editava livros em fascículos, que vendia de porta em porta, juntamente com propaganda republicana. Era um conspirador muito activo, organizou os grupos revolucionários civis que deviam intervir na preparada revolta, e mantinha relações com oficiais e dirigentes republicanos. Foi ele quem saltou sobre a carruagem e assassinou o Rei. 

    O atirador que escondia a carabina sob um gabardo de Aveiro era Manuel Buiça, transmontano, antigo sargento de cavalaria, professor de ensino particular. Eram, ambos, pessoas de certa autoridade nos meios revolucionários e dentro do seio da Carbonária.

    O processo de investigação criminal desapareceu logo após a proclamação da República, em 1910. Por isso, não se conhecem inteiramente as responsabilidades dos autores do regicídio de 1908, embora seja certo que a ideia de abater o Rei tinha sido mais de uma vez encarada pelos conspiradores da Carbonária.

    Desde o Regicídio, tem havido uma grande discussão pública sobre se teria sido a Carbonária ou a Maçonaria a organizar o atentado com El Rei. Há quem diga que as duas organizações são a mesma, mas eu pessoalmente não concordo.

    O que é a Maçonaria, afinal? Antes de dar uma definição real da Maçonaria, começo por explicar o significado do seu nome. Mas... que nome? 

    Existe um total de quinze vocábulos para designar os seus membros: franco-mações, franc-masones, frarnassoni, franc-maçons, freemaxon, free-macsons, frey-metzelers, frimureríet, liberi muratori, libres muradores, muradores, pedreiros livres, vrye metzelears. De todos eles, o mais utilizado é o nome de mações ou franco- macões. 

    Estas expressões provêm das palavras inglesas free (livres) e massons (pedreiros) ou das francesas franc e maçon, que significam o mesmo. Segundo alguns livros, a Maçonaria é a arte de edificar. Mas a arte de edificar é própria daqueles que praticam a ciência da Arquitectura, e não dos que fazem parte da Maçonaria. Por isso, muitos tentam encontrar uma verdadeira explicação sobre o significado dessa sociedade. Expõem-se seguidamente algumas definições mais representativas, que lutam por ser as verdadeiras:

a) O Dicionário da Real Academia Espanhola da Língua define a Maçonaria como «uma associação secreta em que se usam vários símbolos retirados da arte dos pedreiros; como esquadros, níveis, etc».
b) Segundo o Dicionário Enciclopédico da Maçonaria, a Maçonaria é «união associação universal, filantrópica, filosófica e progressiva», procura inculcar nos seus adeptos o amor pela verdade, pelo estudo da moral universal, pelas ciências e artes, desenvolver no coração humano os sentimentos de abnegação e caridade, a tolerância religiosa, os deveres da família; tende a extinguir os ódios raciais, os antagonismos de nacionalidade, de opiniões e de interesses, unindo todos os homens por laços de solidariedade e liberdade confundindo-os num terno afecto de mútua correspondência.
Procura, enfim, melhorar a situação social do homem por todos os meios lícitos e especialmente pela instrução, o trabalho e a beneficência. Tem por divisa «liberdade, igualdade e fraternidade».
c) Se aceitarmos a definição de Fay, chegamos à conclusão de que «a Franco-Maconaria não é um partido, não é uma seita, não é uma corporação, não é uma academia, embora seja isso tudo ao mesmo tempo.

    Então e o que é a Carbonária? A Carbonária Portuguesa era uma ligação sem ligações orgânicas à maçonaria portuguesa ou obediência e foi fundada em 1896. Luz de Almeida, o grande impulsionador e dirigente daquela organização, descreveu com algum pormenor os trabalhos de fundação da mesma e sua metamorfose na Carbonária Portuguesa. 

    “…Tudo começou numa reunião ocorrida em casa de Adolfo Bordalo, aluno da Escola de Agronomia e Veterinária e na qual participaram numerosos estudantes, entre os quais diversos subscritores do Manifesto Republicano Académico: Francisco Cristino da Silva, José Cordeiro, Henrique Caldeira Queirós, João Gonçalves, Carlos Amaro, José Soares, Carlos Marques, José Barroso e Emílio Costa…”

    A Carbonária estruturava-se em quatro lojas, cada qual com um Venerável eleito, tinha um Conselho Director constituído por um presidente — Luz de Almeida — e pelos quatro Veneráveis das Lojas que eram Caldeira Queirós, José Cordeiro, Carlos da Silva Pestana e Ivo Salgueiro. Durante o ano de 1897, toda a actividade na Academia de Lisboa foi orientada por este grupo de estudantes através das diversas organizações, legais ou ilegais. No centro de tudo estava a Carbonária, que não se tratava já de um simples grupo revolucionário, de carácter secreto, mas duma sociedade secreta, com direcção, estatutos, quotização, etc. 

    A Carbonária tinha então as seguintes Lojas: Independência, Justiça, Pátria e Futuro, que passavam a Choças, sendo os seus membros divididos em grupos de vinte. Cada um desses grupos, ou choças, adoptou um título da sua livre escolha. Foram vinte as choças que se criaram. Os presidentes dessas choças formaram a Alta-Venda - provisória, que era uma espécie de Parlamento Carbonário que, ao inaugurar os seus trabalhos, elegeu um Bom Primo a quem conferiu plenos poderes para, secretamente, escolher, entre os membros daquela entidade, quatro Bons Primos que, juntamente com ele, constituíram a Suprema Alta-Venda. 

    Numa das primeiras sessões de Alta-Venda, efectuada num 1.° andar desabitado do Largo de Silva e Albuquerque, que o republicano Silva Fernandes tinha posto à disposição, foi apresentada uma proposta para serem admitidos elementos populares na Carbonária Portuguesa. A discussão dessa proposta foi bastante agitada, originando a sua aprovação a saída de vários académicos. José Maria Furtado de Mendonça, absolutamente contrário à admissão de populares, abriu a dissidência, arrastando consigo Francisco Cristino da Silva, Manuel Marques, José Viale e outros estudantes pertencentes à Alta-Venda. 

    Os populares iniciados foram distribuídos pelas Choças que tinham ficado incompletas com a saída de bastantes académicos. Das Choças mistas passou-se às populares. Os primeiros populares - operários, quase todos - foram iniciados na antiga Rua de S. Roque, 107, último andar - sede provisória da Carbonária Portuguesa. A primeira Choça popular foi registada com o título de República. A seguir, fundaram-se as Choças «Marselhesa», «Companheiros da Independência», «Mocidade Operária», -Amigos da Verdade», da qual era presidente António Francisco Gonçalves, -Sentinela dos Bosques», presidida por Ferreira Manso, «Defensores da Pátria, por Silva Línis, -Progresso», por Carlos Pinto Furtado da Luz, -Termídor», por Vicente de Almeida Freire, etc. A Alta-Venda foi dissolvida. A Suprema Alta-Venda desapareceu da organização, passando os seus membros para a nova Alta-Venda, que ficou sendo o Corpo dirigente da Carbonária Portuguesa. 

    Fizeram parte desta Venda Superior quatro académicos: Luz de Almeida, presidente, José Maria Cordeiro, Ivo Salgueiro, José Soares e o popular Silva Fernandes. As diferentes secções da Carbonária tinham as seguintes denominações: Choças. Barracas, Vendas e Alta-Venda. Os Bons Primos, que pertenciam às Choças, possuíam os graus primeiro e segundo - Rachadores e Carvoeiros - e eram presididos por um carbonário decorado com grau terceiro - Mestre. Às Barracas e Vendas só pertenciam os Mestres, presidentes de um certo número de Choças ou Barracas.

    Sobre a actividade da Carbonária após o 5 de Outubro de 1910, ou seja após o fim da Monarquia e implantação da República também não abundam informações. Só sabemos que teve um papel importante na mobilização contra as incursões monárquicas de 1911 e 1912, mas as dissenções que dilaceravam o Partido Republicano Português e que levaram a sua fragmentação irão pôr um ponto final nessa organização que tanto fez cm prol da proclamação da República. Continuaram, certamente, a existir grupos de cariz carbonário, mas a velha carbonária, unitária, essa desapareceu para sempre. Em boa verdade, o seu objectivo fundamental tinha siclo alcançado... a implantação da República.

    Em suma, os conspiradores que assassinaram El Rei e o Príncipe eram membros da Carbonária e não da Maçonaria. Penso que este artigo pode esclarecer algumas dúvidas sobre o papel da Maçonaria e da Carbonária no Regicídio de 1908.

    Henrique Tigo

Fontes:
CIDADE, Hernâni, História de Portugal, Implantação do Regime Liberal – Da Revolução de 1820 à Queda da Monarquia, VOL. VII, QN, Edição e Conteúdos S. A 2003, pp113- 115,
SARAIVA, José Hermano, História de Portugal, Vol 5, Publicações Alfa, Lisboa 1984
MATTOSO José, História de Portugal, sexto volume – Segunda Fundação, Edições Circulo dos Leitores, 1998, Lisboa.
CHAPUIS, F, Abreviaturas Maçónicas, 1937
FISCH, JCA – Iniciação à Filosofia da Franco-maçonaria, 1863
ALMEIDA, Luís, A obra revolucionaria de propaganda das sociedades secretas, Lisboa, 1932, Vol.II.
História do Regime Republicano em Portugal, Dir de Luís Montalvor, Lisboa 1933, Vol II pp 202-256.
VENTURA, António, A Carbonária em Portugal, CML, Lisboa 1999
16-03-2008
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