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Edição Nº 180 Director: Mário Lopes Segunda, 5 de Outubro de 2015
Editorial
A eleição das meias vitórias
  
                   Mário Lopes
Costuma dizer-se em tom irónico que habitualmente, na noite eleitoral, não há derrotados, uma vez que todos os dirigentes políticos reivindicam vitórias para os seus partidos, colocando o ponto de partida onde mais lhes convém: as últimas eleições, as sondagens, o que se dizia antes, etc. Na noite eleitoral de 4 de outubro, todos tiveram também motivos para se declararem vencedores. A coligação Portugal à Frente foi a vencedora absoluta, porque teve mais votos e mandatos, e porque recuperou face às sondagens dos últimos meses, que a davam apenas como a segunda força política preferida dos eleitores.

   Contudo, esta vitória é também uma meia derrota. Importa recordar que a soma dos votos do PSD e do CDS quase sempre constituiu a maioria de votos em eleições legislativas, sendo as únicas exceções 1999 e 2005, em que o PS teve mais votos. Portanto, a maioria de votos do PSD e CDS ocorreu quase sempre, mesmo quando estes partidos ficaram na oposição, só não nos apercebemos disso porque habitualmente estes partidos concorriam separados e o termo de comparação eram as votações no PS e no PSD.

   Por outro lado, a coligação Portugal à Frente perde nestas eleições mais de meio milhão de votos, o que corresponde ao total da votação do CDS em 2011. A soma dos votos do PSD e do CDS em 2015 foi mesmo inferior à votação no PSD em 2011. Portanto, a vitória da coligação Portugal à Frente é, simultaneamente, meia derrota.
Também o PS pode reivindicar meia vitória, porque aumentou o número de votos e mandatos, mas também teve meia derrota, porque ficou abaixo da média de Esquerda como terceira força política no Parlamento.

   Contudo, em termos relativos, se o Bloco foi o partido que mais beneficiou deste ato eleitoral, o PS foi o que mais perdeu, apesar de ter subido a votação. E perdeu porque não tinha, à partida, condições para ganhar.

   Com efeito, o Partido Socialista trazia atrás de si uma herança pesadíssima: primeiro, conduziu o País em 2011 a um resgate financeiro, em segundo lugar, tinha o seu anterior secretário-geral e primeiro-ministro na prisão por alegada corrupção (culpado ou inocente, da suspeita não se livra) e nenhum partido no mundo ganha eleições com um ónus destes às costas. Por último, o PS não conseguiu traçar um caminho claro para propor aos portugueses, começando a campanha eleitoral a propor uma coligação alargada à Esquerda e terminando a propor um Governo exclusivo do PS, com alianças conjunturais à Esquerda e à Direita, consoante os assuntos. Com estes pressupostos, era completamente impossível o PS ter um bom resultado. António Costa, que, reconheça-se, não fez uma boa campanha (muito discurso improvisado, não esteve à altura de um político profissional do século XXI, ao contrário de Passos Coelho e Paulo Portas, que foram altamente profissionais e eficazes nos seus discursos) dificilmente poderia ter feito muito melhor, em termos de resultados.

   Consoante os pontos de vista, a coligação Portugal à Frente teve uma meia vitória ou uma meia derrota, uma vez que venceu perdendo uma fatia significativa do seu eleitorado. Como já aqui escrevi noutro editorial, a coligação partia com alguns trunfos: um discurso muito claro (“o PS levou o País à bancarrota, nós tirámos o País da bancarrota”), que repetiu até à exaustão (e é assim que deve ser para que a mensagem chegue ao eleitorado), uma solução de governo estável, a que juntou outro trunfo decisivo: as notícias sucessivas de bons indicadores económicos do País, que fizeram a coligação ultrapassar o PS nas sondagens nos últimos meses.
O PS teve ainda nestas eleições um outro adversário inesperado. Como todos os comentadores reconheceram, Catarina Martins teve um desempenho notável nos debates e nas intervenções televisivas e recuperou para o Bloco de Esquerda a aura da “lufada de ar fresco”, mormente, no eleitorado jovem e feminino.

   A porta-voz do Bloco de Esquerda jogou, sobretudo, um trunfo decisivo no debate com António Costa, ao mostrar disponibilidade para uma coligação com o PS, algo que era reivindicado por muito eleitorado à Esquerda, e que o Bloco até agora não assumira. Na minha opinião, esta alteração de posicionamento resulta na diferença entre o Bloco dos 5% do eleitorado de 2011, enquistado ideologicamente, e o Bloco dos quase 10% de 2015, disponível para o diálogo à Esquerda.

   Relativamente à CDU, fez uma boa campanha, esteve igual a si própria, mas continua a ser prejudicada pela renitência em dialogar com os outros partidos de Esquerda, o que afasta uma fatia importante de eleitores de Esquerda que pedem uma solução governativa à Esquerda.

   Aliás, a questão da governabilidade à Esquerda mantém-se, após esta obter nestas eleições uma das maiores maiorias de sempre, com mais de 60% da votação eleitoral. Aparentemente, tanto voto de pouco serve se os dirigentes políticos desta área política não se derem ao trabalho de se sentar a uma mesa e discutir o que os une e o que os separa e encontrarem caminhos comuns para trilhar. António Costa, que encheu a boca com a Esquerda na campanha eleitoral, mal acabou de contar os votos, ofereceu-se para discutir com Passos Coelho e Paulo Portas os termos da governabilidade, rejeitando assim conversar com os outros partidos de Esquerda uma alternativa de Governo.

   É certo que António Costa pode alegar que não estavam reunidas as condições para um braço de ferro com a coligação PSD-CDS pela nomeação do novo primeiro-ministro, uma vez que nem sequer conseguiu uma bancada maior que a do PSD e que seria perigoso para o País entrar num período de grande instabilidade política e institucional. Admito que poderá ter razão e que a manutenção da coligação PSD-CDS poderá ser a melhor solução neste momento para o País.

   Contudo, parece-me que António Costa terá também ficado despeitado por ter visto os outros partidos de Esquerda subirem eleitoralmente e à sua custa! Na conferência de imprensa o secretário-geral do PS afirmou mesmo que não entendia porque razão tantos eleitores de Esquerda deram o seu voto ao BE e à CDU. Ora, as razões são clarissimas e apontam para a falta de credibilidade do PS e dos seus dirigentes nos últimos anos, como já atrás referi. Não se pode ter o último secretário-geral na cadeia e uma bancarrota no currículo e vir pedir maioria absoluta aos eleitores como se nada fosse!

   Ao invés, nem as câmaras presididas pela CDU foram à bancarrota, nem Catarina Martins, as manas Mortágua ou Marisa Matias estão acusadas de corrupção. Não é preciso muita inteligência para perceber porque é que BE e CDU obtiveram juntos quase 20% dos votos dos eleitores de Esquerda…

   E muito dificilmente, o tempo voltará para trás e o PS voltará a ter votações de 40% ou mais. Não foram só os partidos socialistas grego e italiano que desapareceram (ou quase) e o espanhol que perdeu metade do seu eleitorado. A credibilidade, uma vez perdida, demora muito tempo a recuperar e o PS português dificilmente voltará a ser Governo, nos anos mais próximos, sem o apoio dos outros partidos de Esquerda. Até porque sociologicamente, o eleitorado da Direita é superior ao socialista. Será preciso quase um terramoto eleitoral para o PS ter mais votos que PSD e CDS juntos, algo que só por duas vezes aconteceu em 40 anos de democracia.

   E como será o Governo amanhã? Infelizmente o País poderá entrar num pântano político, dado o cenário eleitoral inconclusivo. A coligação PSD-CDS não tem maioria absoluta na Assembleia da República, nem interlocutores disponíveis para coligações e veremos se terá condições para aprovar diariamente as suas propostas legislativas.

   O novo Governo está agora inteiramente nas mãos do PS, o que é uma situação incómoda para todos: para a coligação PSD-CDS, que se vê impedida de aplicar o seu próprio programa, para o próprio PS, que se dividirá internamente entre cooperantes e adversários do Governo, e para os partidos mais à Esquerda, que seguramente não gostarão de ver o PS a viabilizar as propostas de um Governo à Direita. Como todos sabemos, numa casa onde ninguém se sente bem, o divórcio é apenas uma questão de tempo. Dentro de alguns meses será eleito um novo Presidente da República e, ou muito me engano, ou teremos eleições antecipadas no espaço de um ou dois anos. Como diz o povo, o que tem de ser, tem muita força.

   Mário Lopes
05-10-2015
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