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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Segunda, 7 de Junho de 2004
Opinião
Condomínios de Portugal, S. A.

 Valdemar Rodrigues*

Tinha nove anos quando se deu a Revolução dos Cravos. Sandokan, o tigre da Malásia, e os fabulosos águias do Espaço 1999 preenchiam então, a preto-e-branco, o meu imaginário infantil. Gostava muito de aviões, e por isso recordo bem a imagem do regresso dos nossos heróis de Abril exilados em Paris e outras estâncias revolucionárias de então. Recordo-me de vê-los acenar ao povo do cimo das escadas junto ao avião acabado de aterrar. Desertores da guerra do ultramar, geralmente de famílias burguesas dadas à cultura, cosmopolitas e apreciadores de bom vinho e boa mesa.

Eis um retrato à la minute da futura elite política portuguesa, aquela que viria a substituir o grosso da elite política cessante ou temporariamente cessante, a caminho do exílio (temporário) no Brasil. Muitos destes revolucionários regressados eram maçons ou amigos de maçons ou seja, amigos daqueles que Oliveira Salazar e a PIDE abominavam. Ideologicamente eram na sua maioria republicanos, socialistas ou amigos de socialistas, e populares democratas. Pessoas de muito bom gosto, apreciadores de arte e da boa vida.

Pessoas que olhavam para Portugal analfabeto com um certo sentimento de contrariedade e desprezo. Ah ignorância, ah falta de boas estradas para o Algarve e de bons teatros. Ah que país miserável, sem a boémia de Aznavour, sem o Moulin Rouge e os poemas de Bréton, sem as óperas de Puccini. Que país horrível de gente rude e mesquinha, como já lá dizia o Camões. Um país sem Shakespeare, sem Verdi, sem Dante, sem Goethe e sem Mozart. Que merda de país! Ora foi a estas pessoas que assim pensavam e viviam que o povo português confiou a partir do 25 de Abril de 1974 o governo dos destinos de Portugal. Pior a emenda que o soneto. Se mal estávamos pior ficámos e esta é que é a pura da verdade. E é esta verdade que o chamado centro (centro direita, centro-esquerda, centro central, etc.) não quer que se saiba. Porque não lhe convém, está-se mesmo a ver!

Repare-se nos políticos que têm governado este nosso Portugal e veja-se o seguinte para demonstrar esta tese. Onde é que eles põem os filhos a estudar? Quando são pequeninos no Colégio Alemão, Francês, Moderno, no S. João de Brito, nos Jesuítas ou nos Maristas. Nunca numa escola pública, que é como quem diz numa escola do povo. Que horror ter de pôr um filho a estudar na primária dos Anjos, na C+S dos Prazeres ou na Secundária de Benfica. Que profundo horror ter de pôr um filho a estudar na Escola Básica da Cova da Moura, Na C+S da Cruz de Pau ou na Secundária de Agualva-Cacém.

Quando são maiorzinhos e vão para a Universidade, é uma tragédia. As nossas universidades não prestam, dizem eles, e por isso fazem preces para que o Francisquinho, futuro Secretário de Estado, possa ir para Harvard, para o MIT ou, na pior das hipóteses, para Londres ou para a Sorbonne. Lembram-se onde estava Durão Barroso antes de nos vir salvar do pântano? E lembram-se de um homem chamado Fernando Nogueira, que há quatro anos andava tão preocupado com o futuro deste país? Pois bem, foi viver para Paris.


Agora veja-se o que os nossos queridos governantes fazem quando eles, ou a sua família, estão doentes. É claro que a primeira coisa que pensam é num especialista estrangeiro, americano, brasileiro ou cubano, não interessa. E se a doença for de pouca monta ou os recursos (ainda) não o permitirem há sempre as clínicas privadas espanholas, ou então os hospitais continentais mais chiques, como o da Cruz Vermelha Portuguesa. Já viram o horror que seria por exemplo a senhora Ministra Celeste Cardona ser chamada ao Hospital de Leiria para uma intervenção cirúrgica ao seu aneurisma após três anos a sofrer em lista de espera? Que horror! Que merda de país...

Estes políticos e governantes, de que falei num texto anterior, não gostam efectivamente de Portugal e do seu povo. Não se juntam com ele e fazem o que podem para se isolar em condomínios fechados de privilégio, de preferência protegidos por polícias e vigilantes de vária espécie pagos pelo povo. Ora como pode alguém que não gosta do seu país e do seu povo tratá-los bem a eles e à coisa pública? Esta é a pergunta que devíamos fazer.

É óbvio que poucos a farão, e nas próximas eleições voltaremos a ter do mesmo. Desta vez ganhará o PS! Viva o PS! Da próxima ganhará Cavaco! Viva Cavaco, o Presidente de Portugal! E assim sucessivamente até ao dia em que não houver mais nada para privatizar, mais nada para governar, e o povo esteja condenado a ter de pagar impostos para sustentar políticos que não governam. Viva a Constituição Europeia! Viva! Vivam o Eusébio e o Rui Veloso! Vivam o Henrique Mendes e o Artur Agostinho e a Laurinda Alves! Vivam o Toy, o Emanuel e a Ágata! Força Portugal! Força Portugal Positivo!

Para finalizar, tenho saudades de algumas pessoas engraçadas deste país que deixaram de se ouvir não se sabe bem porquê: quem ainda se lembra do monárquico Miguel Esteves Cardoso? Os Ena Pá 2000 e o candidato Vieira, o Repórter Estrábico, os UHF de Almada? O Rui Zink? O país parece ter começado a perder o sentido de humor. E viver em Portugal, para quem como eu sempre cá viveu, começa a ser insuportável. Vamos mas é embora ó malta enquanto é tempo!


          * Professor universitário

07-06-2004
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