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Edição Nº 123 Director: Mário Lopes Domingo, 2 de Janeiro de 2011
Opinião
A Carne do Bacalhau é Amarelada
    


Valdemar Rodrigues

Um mestre que lembro com saudade avisara-me da iminência deste tempo, um tempo distorcido e acelerado, repassado todo ele pela ambivalência. Nesse tempo – dissera-me – os homens caminharão por caminhos diferentes, porém todos seguindo na mesma direcção. O futuro será por fim nítido e certo, projectado na tela celeste sempre com alarme e doçura, e ninguém jamais ousará questioná-lo. O futuro será, nesse tempo, o que a técnica disser que pode ser. Os irracionais, ou seja, aqueles que duvidarem da força que emana do conhecimento técnico do mundo, merecerão a morte, que é sempre a pena adequada para aqueles que se recusam a participar no futuro. Não haverá outros fins para além daqueles que a técnica determinar como desejáveis ou bons, e a justiça consistirá apenas em escolher os melhores meios para os alcançar. Num mundo assim modernizado, é óbvio que a identidade humana, caso possua alguma rigidez, se atormenta e fractura. Apenas as almas líquidas poderão aspirar à sobrevivência. O estado permanente da vida humana será então o da volubilidade. Um estado que os mais impreparados confundirão com o caos e a desordem. Mas o caos e a desordem só existem para as partículas resistentes. Para as outras, fungíveis, ele não é mais do que a ordem natural do mundo.

   É por isso que, para mim, o bacalhau que por aí tanto se comerceia por alturas do Natal já não é bacalhau. A carne do bacalhau da minha infância e juventude era amarelada, gorda e saborosa, temperada pelo sal das águas frias do Atlântico, do Canadá ou do Mar da Noruega. A carne macilenta dos peixes que agora se fazem enganosamente passar por bacalhau, sem que a defesa do consumidor reclame e sem que a maioria das pessoas perceba, não é de modo algum comparável à carne do verdadeiro bacalhau, uma espécie infelizmente cada vez mais rara nos nossos oceanos. Mas porque razão continua a chamar-se bacalhau a peixes que não são bacalhau? É aqui que volto à ambivalência. Em estados avançados do fenómeno, o importante deixa de ser a coisa em si mas tão somente a sua utilidade. O ser torna-se secundário face ao papel que tem ou representa na sociedade, e ambos acabam por coexistir flexivelmente num mundo transiente que não vê aí qualquer tipo de problema. O que ganharíamos nós em não chamar bacalhau àquilo que não é bacalhau, mas que cumpre exactamente a mesma função ou utilidade social? – perguntariam, com razão, os mais pragmáticos.

   A palavra bacalhau, que designa esse ente único e insubstituível cujo paladar e textura jamais esquecerei enquanto viver, torna-se pois ela própria vítima da ambivalência, o que permite que coisas diversas existam apenas à superfície, e que até os contrários se confundam, dando a impressão de uma harmonia universal rumo a um único e determinado futuro. Perguntar-se-á: como reagirão as gerações futuras ao verdadeiro bacalhau, se por acaso tiverem alguma vez a oportunidade de o virem a provar? É óbvio que vão dizer exactamente o que eu agora digo: que não é bacalhau! Num mundo em constante movimento, tudo permanece assim imutável no certo e seguro reino da ambivalência. A verdade une-se à mentira, para que o bem e o mal possam de novo existir na nudez original de um mesmo tronco. 

   Valdemar J. Rodrigues
vjrodrigues65@sapo.pt
02-01-2011
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