 JERO
Correspondendo ao pedido do meu amigo Mário Lopes apareço nesta espaço para dizer “umas coisas” sobre um assunto no mínimo desagradável, que tem merecido nos últimos tempos muitos e variados comentários. Obviamente que a minha presença aqui e agora é na qualidade de ex-combatente. Não faria qualquer sentido ter a presunção de vir a público dar “palpites” sobre António Lobo Antunes como escritor…Posto isso só mais um aviso à navegação. Ler (ou falar) sobre guerra em tempo de paz, à mesa de um café com amigos, ou no sossego e comodidade do lar, não tem nada a ver com o ambiente de tensão e sofrimento de quem “andou por lá” e sentiu na pele e na alma os estampidos, os tiros, os gritos e o cheiro do sangue e da morte… À distância no tempo haverá sempre que ter em atenção a…”memória das circunstâncias”…Recordar em 2010 factos dos anos 70 implica retorno no tempo e nas circunstâncias.
Na Guerra do Ultramar (ou Guerra Colonial) a guerrilha não tinha nada de cavalheiresco. De parte a parte. E os militares portugueses, que “jogavam fora de casa”, num ambiente hostil e totalmente estranho, tinham (quando era caso disso) que fazer pela vida… Era matar ou morrer!
Está claro que na guerra tem que haver “regras”, nomeadamente em relação a civis (velhos, mulheres e crianças), e a tropa portuguesa quando bem enquadrada – estou a pensar em chefias competentes – não cometeu exageros e deu protecção a populações apanhadas “entre dois fogos”…
Sei do que estou a falar pois tive a sorte de ter sido comandado por um distinto oficial aquando da minha permanência na Guiné (1964-66). O meu Capitão veio mais tarde a ser o Oficial General mais novo do Exército Português E não foi por acaso. Chama-se Alípio Tomé Pinto.
Quando ele estava presente – em operações ou no aquartelamento –não havia “baldas”nem abusos. Quando não esteve presente, nem sempre tudo correu bem… Costuma-se dizer que na “tropa” há filhos de muitas mães e há gente sem princípios e sem escrúpulos. Conheci um soldado que era um assassino nato. Ainda há poucos dias – 40 e tal depois – soube pelo seu ex-Alferes que um dia, numa operação de rotina, tinha ficado para trás para matar à facada dois indivíduos da população que tinham sido mandados em paz.
Sei mais histórias mas…fiquemos por aqui.
Feito este intróito vamos ao que me foi pedido em relação a António Lobo Antunes.
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 António Lobo Antunes
O tenente-coronel do Exército Carlos Matos Gomes, que escreve sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, classificou recentemente como «fantasias e delírios» as declarações do escritor e ex-combatente António Lobo Antunes sobre a guerra colonial.
Lobo Antunes descreveu um cenário de barbárie causado pelos militares portugueses na zona de Angola onde cumpriu comissão de serviço na guerra, numa das entrevistas que integram o livro «Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes». Descontente, um grupo de ex-combatentes, oficiais na reforma, quis processar o escritor por «atentado à honra e dignidade dos militares», tendo apresentado ao chefe do Estado-Maior do Exército uma petição nesse sentido.
A possibilidade de se avançar para um processo-crime foi rejeitada, por se tratar de uma «obra de ficção», noticiou o semanário Expresso, segundo o qual os militares admitem dar «um par de murros em público» ou «ir ao focinho» do escritor, a quem chamam ainda «bandalho» e «atrasado mental». O tenente-coronel Matos Gomes disse mais tarde à Lusa que, na sua opinião, têm existido «em muitos discursos, em muitas declarações, em muitas obras, enormes fantasias e delírios e excessos de muitos ex-combatentes».
«Este do Lobo Antunes é mais um. Eu até já ouvi fantasias de que existiam submarinos no Lago Niassa. Portanto, julgo que a do Lobo Antunes é mais uma fantasia como muitas outras, como milhares de outras», comentou.
Por outro lado, o oficial do Exército classificou as pretensões do grupo de ex-combatentes como «uma patetice também, mais uma». «O militar salientou ainda que «esses excessos de linguagem do Lobo Antunes e destes militares são muito recorrentes».
Antes desta posição “oficial” do Tenente-Coronel Matos Gomes o “tema Lobo Antunes” já tinha tido outros comentários emotivos e agressivos por parte de ex-combatentes, que ainda hoje dedicam muito do seu tempo às memórias da guerra. Será uma terapia ocupacional onde também me incluo.
O comentário do meu “irmão de armas” Mexia Alves data de 18 de Novembro de 2009.
1-Começava assim «…apenas vos digo que isto deve ter sido das coisas que mais me insultou como ex-combatente da guerra do Ultramar. «Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois ou vinte e três anos que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros». Estas são, por aquilo que me é dado saber, as frases proferidas por Lobo Antunes e que são objecto da justa indignação de muitos ex-combatentes. Lembremo-nos que Lobo Antunes esteve em Angola já nos anos 70, ou seja, quando a guerra em Angola estava praticamente acabada, (cheguei a Angola no início de 74 e circulava-se livremente por todo o território), e portanto as operações militares, sobretudo ao nível dos Batalhões em quadrícula, não eram de molde a provocar as baixas que ele cita e muito menos a barbárie que ele refere. Para um Batalhão em Angola ter naquele tempo 150 baixas, (que número tão redondo), como ele refere na mesma ocasião, deve ter contado as “baixas” por matacanhas e as unhas encravadas! E termina Mexia Alves:«Um dos meus irmãos mais velhos esteve no Norte de Angola de 63 a 65, sempre em zonas de combate, e disse-me peremptoriamente que essa história dos pontos é uma pura e simples invenção, o que aliás nós bem percebemos, porque se fosse prática em Angola porque não o seria na Guiné e em Moçambique? Mas são sobretudo estas duas frases que me indignam, «E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros», porque faz dos militares portugueses um bando de assassinos frios e sem piedade, o que nós sabemos nem de longe nem de perto corresponde à verdade. Não nos esqueçamos que são frases proferidas por um médico, que já o era, e que portanto estava, devia estar, arredado das acções directas de combate. Coloca também em causa os seus camaradas de Batalhão, fazendo deles uma espécie sub-humana, sem sentimentos e a roçar o animalesco! (...) Abraço camarigo para todos. Joaquim Mexia Alves
 Imagens da guerra
Existem muitos e variados comentários de outros ex-combatentes.
Além do Mexia Alves, que conheço e sei ser um homem bom e generoso, mas também particularmente emotivo, vou partilhar com quem me lê um ultimo comentário um pouco diferente.
2. Comentário de Luís Graça, editor de um blogue de ex-combatentes que em cerca de 6 anos está à beira de atingir 2.000.000 (dois milhões) de páginas visitadas.
«As infelizes frases ditas, no estrangeiro, por um escritor de que eu sou leitor(…), reportam-se à sua condição de médico militar durante a guerra colonial e, nessa qualidade, não nos podem deixar indiferentes, dizem-nos também respeito... Em todo caso, não podem ser usadas como título de caixa alta, postas entre parênteses, fora de contexto, muito menos como libelo de acusação para linchamento do homem e do escritor em praça pública...
Há que ler o livro e inserir essas e outras frases no contexto da experiência do autor que era, antes de mais, um oficial miliciano e só depois médico e só mais tarde escritor (em 1985, torna-se escritor profissional, abandonando a psiquiatria)... Deixo aqui outras frases do livro, o qual resulta - é bom não esquecê-lo! - de uma longa conversa com o Lobo Antunes, mantida pelo jornalista João Céu e Silva (que é, de facto e de jure, o AUTOR DO LIVRO!), entre Setembro de 2007 e Maio de 2009:
(...) [JCS] Dessa guerra há um dia que o tenha marcado mais do que todos os outros ?
[ALA] Há o dia 13 de Outubro de 1972, mas não posso dizer porquê. Foi uma violência, nunca vou esquecer esse dia! (p. 111)...
(...) Eu nunca quis falar nem nunca escrevi sobre a guerra! (p. 110)... Há dias, tive uma conversa com um amigo... e recordei algumas coisas da tropa, o resultado foi que passei uma noite má. Acho que não há quem não tenha vindo de lá afectado (p. 111)...
Qual é esse terrível segredo que o escritor tem guardado, até hoje, só para si? E que não quis compartilhar com o João Céu e Silva (p. 391) ?... Aliás, essa "declaração inédita", esse terrível parágrafo que começa pelas terríveis palavras "Eu tinha talento para matar e para morrer"... podem ser "parte da solução do mistério sobre um certo episódio em África que se recusou a revelar-me" (sic) ... E, se for de facto assim, é um daqueles segredos que o homem leva para a cova , e não apenas uma manifestação da imaginação delirante do autor de "Memória de Elefante" (1979) ?
De resto, as declarações do veterano da guerra colonial de Angola podem levantar (levantam, seguramente) uma questão ética, que tem ver com ambiguidade, confusão e conflito de papéis a que o Lobo Antunes também não escapa, como ser social: onde acaba a consciência moral do homem, do militar e do médico e começa a liberdade criativa do escritor?
Os lapsos de memória do ex-oficial miliciano médico ou até a sua falta de rigor em relação a questões técnico-militares (por ex., calibres de armamento) devem ser tidas em conta, mesmo que não sirvam de desculpa... Por ex., na página 239, leio algumas coisas que me espantam e que não tenho a certeza de serem correctas (pode ser que alguém mo confirme):
"E à volta de cada mina, [os guerrilheiros do MPLA] punham várias minas antipessoais, porque a mina anticarro rebentava com duzentos quilos e a mina antipessoal, com a pica, eram mais quarenta quilos e aquela merda estourava toda. Mas assim saía mais barata ao Estado , porque enquanto uma Berliet custava dois ou três mil contos, pela morte de um homem, por um rapazinho, pagam quatrocentos contos à família. Ficava mais barato!"
Confesso que já não sabia a que pressão rebentavam as minas e, muito menos, que o Estado pagava, na época, 400 contos de indemnização à família pela perda de um vida, cinco ou sete vezes e meia menos do que o custo de uma Berliet do Tramagal...
Fico por aqui. Não sou advogado do escritor, muito menos do homem. E quero sobretudo reafirmar aqui um dos nossos princípios fundamentais, a (ix) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus), princípio esse que tem que ser compatível com o (i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem)...
Termino com uma reflexão pessoal: “Ficção verdadeira” ou “fixação no que se julga que podia ter sido a verdade”!? Quadratura do círculo ? Às vezes as peças não encaixam mesmo...
E quatro décadas depois as feridas da Guerra do Ultramar (ou Guerra Colonial) ainda estão por fechar...
JERO
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