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| Amaral Lopes (ao centro) com Gonçalves Sapinho (à direita) |
Maria Augusta Trindade, ex-directora do Mosteiro de Alcobaça e comissária da exposição sobre as chitas de Alcobaça que esteve em itinerância em Portugal e no Brasil, apresentou, no dia 31 de Maio, o seu livro "De Gil Vicente às Colchas de Chita de Alcobaça". A apresentação da obra teve lugar no auditório da Biblioteca Municipal e contou com a presença de José Amaral Lopes, secretário de Estado da Cultura, e de muitos alcobacenses.
Maria Augusta Trindade referiu ao Tinta Fresca que este livro resultou de um convite que a Câmara Municipal lhe dirigiu para publicar um trabalho sobre as chitas de Alcobaça quando proferiu uma conferência no Gabinete de Informação da Universidade de Coimbra em Alcobaça, o que foi aceite, e depois escrito, "com muito prazer". O livro foi materializado em apenas um ano, só possível porque a autora já tinha editado dois catálogos sobre o tema: um para uma exposição em Alcobaça, em 1998, e outra no Brasil, em 2001, a convite do director do Instituto Camões no Brasil, Rui Rasquilho.
A historiadora confirma que as chitas de Alcobaça não têm origem em Alcobaça e, embora os estudos estejam muito avançados, não é ainda possível ter a certeza sobre os locais onde foram produzidas. Alguns historiadores defendem que foram confeccionadas em Portugal pelos pescadores, mas os ingleses defendem que foram feitas em Inglaterra e exportadas para Portugal. No entanto, a autora manifesta a sua convicção de que estas chitas possuem uma identidade e uma certa ingenuidade próprias do espírito português.
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| Sessão de autógrafos na Biblioteca Municipal |
Maria Augusta Trindade sublinha que houve uma indústria têxtil muito importante em Alcobaça, talvez a mais importante do País no século XVIII, que se caracterizava pelo fabrico de panos de algodão, com uma gama muito variada de tecidos. Tratou-se de uma das mais importantes indústrias de Portugal neste século. Por exemplo, a Real Fábrica de Lençaria e Fazendas Brancas de Alcobaça chegou a ter 500 operários. No entanto, dando como adquirido que a estamparia das chitas - um tecido de algodão estampado proveniente da Índia - tenha tido lugar em Alcobaça, a razão da designação "Chitas de Alcobaça" permanece como "um dos maiores mistérios da arqueologia industrial portuguesa".
Para a autora, a razão de ser deste livro são as colchas de chita de Alcobaça, mas lembra que a obra trata também de outros assuntos, como o desenvolvimento da vila através dos tempos. Maria Augusta Trindade admite que não pretende desenvolver mais este tema, indo agora regressar àqueles que foram os seus interesses de sempre: a Ordem de Cister, o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça e S. Bernardo.
Para o presidente da Câmara Municipal, este livro é um contributo para preservar a memória, a história e sobretudo, a identidade de Alcobaça. Apesar de se admitir que as chitas não tiveram origem em Alcobaça, Gonçalves Sapinho considera que não é determinante saber a origem das chitas, pois são reconhecidas como de Alcobaça em toda a parte. O autarca salienta que o livro fala sobretudo das colchas de chita, provavelmente o produto mais nobre das chitas de Alcobaça e lamentou mesmo não possuir também uma colcha de chita.
Também o historiador Jorge Pereira de Sampaio considera que as louças e as chitas constituem um dos cartões de visita mais internacionais de Alcobaça. O proprietário da Galeria Conventual assume-se como um apaixonado pelas chitas de Alcobaça, embora possua uma colecção que considera um apontamento, em comparação com o vasto espólio de louças de que é proprietário.
Jorge Pereira de Sampaio realça que este é o primeiro livro alguma vez publicado sobre as chitas de Alcobaça. Até agora, apenas existiam os catálogos das já aludidas exposições sobre as Chitas de Alcobaça, realizadas em Portugal e no Brasil. A primeira, recorde-se, teve lugar no Mosteiro de Alcobaça, no tempo em que Maria Augusta Trindade era a sua directora, sendo depois também mostrada no Palácio da Ajuda. A segunda, esteve na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, na exposição nas Docas, em Belém do Pará, e na Caixa Económica Federal, em Brasília.
O número de exemplares de colchas de Alcobaça deverão ser actualmente, apenas de algumas centenas, entre colecções de museus e privadas. A maior deverá ser a da família Natividade com mais de uma centena. O Museu Vitória e Alberto possui cerca de 30. De resto, a escassez de colchas de Alcobaça deve-se ao facto de se irem gastando com o tempo por serem estampadas. Como sucede com todos os têxteis, a tinta vai desaparecendo por acção do tempo e das sucessivas lavagens.
O historiador defende que há espaço para a edição de outras obras sobre este tema e recorda que é moda actualmente as editoras editarem grandes álbuns que aparecem nas livrarias a partir de Setembro, para apanharem a época de vendas de Natal. Jorge Pereira de Sampaio declara que nada tem a opor a trabalhos que aliam as vertentes estéticas e científicas porque "a vista regala-se e a ciência aprofunda-se".
Mário Lopes