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Edição Nº 55 Director: Mário Lopes Segunda, 2 de Maio de 2005
Opinião
Origem, evolução e significado do Traje Académico

 Henrique Tigo

Agora que temos as queimas e bênçãos entre outras cerimónias de final de curso, acho importante falar sobre o Traje Académico, pois existem estudantes que só o compram nesta altura e só porque é bonito e não sabem bem o que estão a usar. Contudo acho importante salientar que existem regras de utilização do Traje, que variam de Universidade para Universidade assim como de distrito para distrito. As regras que aqui vos deixo seguem as tradições mais antigas desta secular tradição académica.

O Traje Académico tem origem nas velhas lobas (batinas) eclesiásticas e sempre foi composto por capa e batina. Tal facto vem confirmar a influência que a Igreja sempre teve no ensino. É preciso não esquecer que até ao século XVIII, quem detinha o monopólio do ensino era o clero, nomeadamente a Companhia de Jesus. Só com a laicização do Estado é que esse monopólio se começa a desmoronar.

Apesar de actualmente se apresentar uniformizado, nem sempre o Traje Académico foi como o conhecemos hoje. Os antigos estatutos da Universidade de Coimbra não ordenavam o uso de um uniforme académico. Contudo, proibiam o uso de certas cores e condicionavam o leque de escolhas em relação ao corte. Em 1645, D. João IV confirmou os estatutos que a Universidade dispunha, elaborados em 1598, conhecidos pelos Velhos ou pelos Oitavos e que vigoravam em pleno até 1772, altura em que ocorreu a reforma Pombalina.

É no século XIX que o Traje Académico vai sofrer maiores alterações. No início desse século, os atentados ao Traje eram tão exagerados que o próprio Reitor resolveu impor-se. Nos finais do século XIX, as modificações são ainda maiores. O Traje afasta-se cada vez mais das primitivas loba e baeta e aproxima-se a passos largos daquilo que conhecemos hoje como Traje Académico. A principal alteração terá sido a escolha definitiva da calça comprida.

Em meados do século XX, o Traje adquire já feições muito aproximadas às de agora. É com a publicação do primeiro Código da Praxe Académica, apresentado por Mário Saraiva de Andrade e Victor Dias Barros, em 1957, que o Traje passa a ter a sua entidade uniformizada.
Mais tarde, seria a vez do Porto criar o seu Código da Praxe Académica, apresentado em 1983 por José António Balau e Augusto Henrique Soromenho. Este documento continua a ser um projecto.

Em 1993, Pedro Cabral procede a uma revisão do Código da Praxe Académica de Coimbra e acrescenta-lhe uma introdução com textos explicativos acerca das tradições coimbrãs. O Traje Académico, tal como já foi dito mais acima neste artigo, além de ser «uniforme» do estudante universitário, simboliza a igualdade entre todos os estudantes.

De Capa e Batina, não existem distinções entre pobres e ricos. Todos são iguais. A única forma de alguém se evidenciar é através do uso da inteligência, pois de traje não se podem usar enfeites para chamar a atenção. Estando de Capa e Batina, o estudante é levado a desenvolver mais fortemente a sua personalidade e a tornar-se mais sólido.

Da simbologia do Traje já muito se tem dito, mas muitas divagações acerca dele correm sério risco de se encontrarem erradas. É o caso da apaixonada, mas ingénua explicação avançada por um amigo meu. Dizia ele que o Traje Académico simbolizava a congregação das três principais classes sociais, sendo a Capa o símbolo da Nobreza, a Batina o do Clero e o Colete o do Povo. Por mais bela e romântica que esta explicação possa ser, não tem qualquer fundamento histórico: a Capa e Batina são as sucessoras da loba e baeta, sendo estas de origem eclesiástica.

Além disso, tudo leva a crer que o colete só foi acrescentado ao conjunto Capa e Batina para desempenhar a função de agasalho. Repare-se que o uso do colete nem sequer é obrigatório, desde que a batina se encontre abotoada.

Mesmo assim, o Traje Académico continua a apaixonar estudantes, geração após geração.
Espero que assim continue!

O Traje para os Homens deve ser constituído por:

· Sapatos pretos lisos, sem fivelas nem adornos metálicos, com cordões em número ímpar;

· Meias pretas; calça preta lisa com ou sem porta; colete preto não de abas ou cerimónia;

· Batina que não seja de modelo eclesiástico; camisa branca e lisa, com colarinho de modelo comum, gomado ou não, e com ou sem punhos; gravata preta e lisa; capa preta, com ou sem cortes na parte inferior e com ou sem distintivos na parte interior; o colete e a Batina deverão ter um número de botões pregados correspondente ao número de casas; a Batina deve ter pregados, na parte média posterior, dois botões de tamanho maior e apresentar em cada uma das mangas de um a quatro botões, mas de modo a que o número destes seja o mesmo num e noutro punho.

· Na falta do colete, a batina deve apresentar-se abotoada; o bolso posterior da calça, tendo casa, tem de ter botão; o laço pode usar-se com o traje em ocasiões solenes; o uso de lenço visível no bolso superior esquerdo não é incompatível com o uso da Capa e Batina, desde que seja branco;

· O uso do gorro da praxe é facultativo, mas este não pode ter borla nem terminar em bico; É proibido o uso de botins ou botas altas.

O Traje para as mulheres deve ser constituído por:

· Sapato preto, de modelo simples, com tacão pequeno; meia alta, preta;

· Fato saia e casaco, preto e de modelo simples; o casaco não pode ter golas de seda ou pele; a saia não pode ser rodada e deve usar-se pelo meio do joelho;

· Camisa branca; gravata preta lisa; capa preta .

· O uso do gorro da praxe é proibido às mulheres; é proibido o uso de maquilhagem; não havendo proibição formal acerca do uso de brincos, aconselha-se sejam discretos, clássicos e não sejam pendentes;

Para ambos:
a) Em tempos normais
É proibido o uso de luvas, pulseiras, colares, anéis e outros adornos ou sinais externos de vaidade ou riqueza. É permitido, contudo, o uso de aliança de casamento ou de compromisso.

Não é proibido o uso de relógio de pulso, mas este tem de ser clássico, discreto e sem brilhos. É proibido o uso de telemóvel visível. Quem não quiser prescindir dele deve guardá-lo num dos bolsos, por exemplo. É proibido o uso de boina. Só é permitido o uso de guarda-chuva se este for preto, liso, com cabo de madeira e possuir doze varas.

Os pins não são proibidos, ou pelo menos não existe nenhuma proibição formal quanto ao seu uso, mas devem usar-se na lapela esquerda. De forma a evitar as inestéticas "vitrinas", aconselha-se fortemente o uso de um único pin: o da instituição ou o do curso, por exemplo.

Devem retirar-se todas as etiquetas do traje.
Devem retirar-se os colchetes e todo e qualquer tipo de abotoadura da capa.

A Capa nunca se lava. Lavá-la é apagar e renunciar todas as recordações da vida de estudante, além disso, "dá azar", dizem os supersticiosos.

A Capa não se deve encontrar a uma distância superior a sete passos do seu proprietário.

A Capa pode usar-se dobrada sobre o ombro esquerdo com a gola para trás ou sobre os ombros, com um número de dobras na gola correspondente ao ano frequentado e com os distintivos virados para dentro.

Os caloiros devem usar a Capa dobrada no braço esquerdo, sendo-lhes vedado traçá-la, fazer-lhe rasgões ou colocar-lhe emblemas e/ou insígnias pessoais.

Contudo, após o cair da noite, devem colocá-la sobre os ombros e segurá-la junto ao colarinho de modo a que não se veja o branco da camisa.

Podem colocar-se emblemas e insígnias pessoais na Capa na parte interior esquerda.

Estes devem ser cosidos manualmente com linha preta em ponto cruz e esta não deve passar para o lado exterior da capa. Não se espeta metal na Capa. A soma dos emblemas da Capa tem de ser ímpar. Os distintivos da Capa não podem ser visíveis estando esta traçada ou sobre os ombros.

Podem fazer-se rasgões na capa, cada um simbolizando um momento importante da vida do estudante. Todos os rasgões devem ser feitos com os dentes. Coser os rasgões é facultativo, mas deve fazer-se com linha preta ou da cor do curso, em ponto cruz.

A Capa traça-se sempre sobre o ombro esquerdo. O uso do traje académico implica o respeito e cumprimento de certas regras. Deste modo, a Capa deve usar-se caída pelos ombros e sem dobras nas aulas teóricas em que o professor é catedrático (podendo retirá-la com a autorização do professor), em sinal de respeito pela pessoa com quem se está a falar ou a acompanhar, e em sinal de respeito pelo local onde se está (igreja, catedral, cerimónia académica, etc.) Nestas ocasiões, a Batina deverá encontrar-se sempre abotoada. Por vezes, quando se pretende homenagear alguém, coloca-se-lhe uma capa caída pelos ombros.

Só em ocasiões muito especiais é que se colocam as capas estendidas no chão para que o homenageado possa passar por cima delas, esta é a maior homenagem académica que se pode fazer a alguém.

b) Em cerimónias especiais
Deve usar-se a Batina abotoada e a Capa estendida ao longo do corpo, com as respectivas dobras.Em situação de dança, e por uma questão de mera comodidade, poder-se-á dançar sem Capa, se a dama assim o permitir.

c) Na missa
Deve usar-se a Batina abotoada e a Capa estendida ao longo do corpo, sem dobras. Nunca se traça a Capa durante uma cerimónia religiosa.

d) Durante o luto
Em caso de luto, a Batina deve apresentar as abas fechadas, encontrando-se a Capa caída pelos ombros, sem dobras.

e) No fado e nas serenatas
Todos os estudantes presentes devem ter as capas traçadas, evitando que se veja o branco do colarinho e dos punhos. Nas serenatas nunca se batem palmas. Caloiro não traça a Capa, mas deve-a unir e apertar junto ao pescoço, segurando-a de modo a que não se veja o branco do colarinho.

Henrique Tigo
Presidente da AE de Geografia
Universidade Lusófona.

02-05-2005
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Comentários

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Comentário de j.p.soares
24-10-2015 às 19:29
Aplaudo o seu interesse por assuntos académicos. Como deve saber a praxe foi transmitida de geração em geração e os "códigos" desde o "palito métrico" nunca foram seguidos. As modificações ora introduzidas são devidas à quebra da praxe em 69. O luto académico e a revolução estudantil podia ter-se feito sem quebrar a tradição. A evolução seria sempre, como foi no passado, inevitável. Porém há algumas afirmações com as quais discordo. O uso da capa, não tem nada que ser ao longo do corpo, sem ser enrolada. Não sei quem inventou isso. é muito mais elegante bem traçada, no ombro direito ou esquerdo (e os canhotos?).É melhor, e segura-se melhor, enrolada ao longo do corpo bem como traçada. Não tem diferença ser caloiro, bicho ou doutor. Na década de 50 era assim e já a "herdei" assim. O colete fazia parte da praxe. Podia ou não usar-se mas, não o usando, não estava na praxe. Isso de não distinguir o pobre do rico é mais ou menos verdade! Houve tempos, quando os sapatos tinham fivela, algumas prateadas etc que essa diferença existia. Um abraço J.P.Soares
Comentário de Carolina
05-09-2015 às 00:53
Este ano entrei para a faculdade e não fiquei uma grande adepta de praxe. Devido às faltas de presenças não me permitiram trajar. Alguns disseram que não o poderia fazer de todo, outros disseram que podia mas que o traje perderia significado... Ao ver a resposta que deram a Ana fiquei finalmente esclarecida e aliviada por ver que tenho tanto direito de usar o traje como qualquer outro estudante académico. Por isso, primeiro quero agradecer aos dois (Rui e Henrique). Tenho apenas uma questão...Os rasgões e emblemas também se destinam a todos ou são exclusivos da praxe?
Comentário de Henrique Tigo
16-10-2013 às 12:21
Cara Ana A alguns anos escrevi este artigo, ou um grande defensor da tradição acadêmica, eu como muito antes e depois de mim passaram muito assim como as sua famílias para termos o direito de usar o traje acadêmico. Ainda hoje e passados quase 10 anos que acabei o curso tenho muitas saudades de o usar... Como sabem passado 2 anos de terminarmos o curso não podemos mais usar o mesmo, contudo podemos e devemos usar com orgulho a "nossa"capa coisa que ainda hoje faço em atividades acadêmicas, até ja a levar para dar aulas... Mas para responder a sua questão, usar o traje acadêmico é um direito de qualquer estudante universitário. Segundo a tradição só o poderia usar na sua segunda matricula. Nada tem haver com praxes, a única regra é que quem não passou pelas praxes não pode nem deve praxar... Usar o traje todos podem! Cumprimentos Henrique Tigo Past presidente da AE geografia da Universidade lusófona
Comentário de Rui Morais
13-06-2011 às 04:48
Ana, Ao contrário do que muitos apregoam, o Traje Académico não pertence exclusivamente à Praxe. Não é por uma pessoa não ir às actividades da Praxe que perde o direito a envergar o Traje Académico. Se as Comissões de Praxe proíbem ou escolhem quem deve e quem não deve usar o Traje Académico trata-se pura e simplesmente de uma situação de abuso de poder e de muita ignorância. A partir do momento em que se é estudante do Ensino Superior tem-se o DIREITO a usar o Traje Académico. Ponto. Proibirem alguém de o usar é patetice de quem não percebe nada, nem de Praxe, nem do Traje Académico. O uso do uniforme académico era sim obrigatório e apenas deixou de o ser com a implantação da Republica. Prova disso é a emissão do Decreto 10:290 de 12 de Novembro de 1924 (que penso que foi recentemente revogado) que diz: "Artigo 1.º É permitido aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, liceus e escolas superiores o uso da capa e batina, segundo o modêlo tradicional, como traje de uso escolar. Art. 2.º A todas as pessoas que indevidamente enverguem capa e batina são aplicadas as sanções estabelecidas pela legislação penal para o uso ilegítimo de uniformes, fardamentos e distintivos." Portanto o meu conselho é: se queres usar o Traje Académico, compra-o, usa-o no dia-a-dia e não apenas nas festas, respeita-o. ;) Em relação ao artigo, apenas algumas imprecisões que dependem muito da Universidade e da Academia, como o uso da capa com a gola para trás (típico do Porto), ou a regra dos 7 passos (que na verdade é uma invenção pois a única regra que sempre existiu é que a Capa e a Batina têm de estar juntas ou a uma distância inferior a um braço do proprietário).
Comentário de Ana Monteiro
18-05-2011 às 20:57
Este texto permite-nos esclarecer algumas das duvidas de muitos estudantes relativamente ao traje. Contudo coloca-se uma outra questao. A utilização do traje académico é um momento pelo quais muitos estudantes académicos anseiam, contudo a utilização do mesmo e de quem o poderá vir a utilizar é feita pela comissão de praxes ( segundo quem foi as actividades de praxe, ou nao). Segundo o que pude ler no documento acima o traje deve ser usado com respeito, humildade e sobretudo para nao criar desigualdades entre estudantes, pelo contrario colocando todos ao mesmo nivel. Por isso pergunto-me até que ponto será justo escolher que estudantes podem usar o traje académico, quando alguns dos estudantes nao tiveram mesmo hipotese de ir a determinadas actividades de praxe. Como posso referir no meu caso, estaria na minha faculdade como externa, ou seja tinha uma disciplina de 12º para terminar, tive de tomar a decisao de a terminar, pois caso contrario nada do que estaria a fazer na faculdade tera efeito. no seguimento disso, neste momento nao poderei usar o traje. e tenho duvidas até que ponto esta situção seré justa.
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