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Edição Nº 55 Director: Mário Lopes Quarta, 18 de Maio de 2005
Opinião
Imaginários de Museus e Museus Imaginários

 Miguel Silvestre

Chegámos a 18 de Maio, logo temos de falar um pouco de Museus, uma vez que hoje é o seu dia internacional. Voltamos à prática, cada vez mais generalizada, em Portugal de reacção às efemérides. A culpa não é só dos responsáveis do sector, mas também do público que nestas datas baixa um pouco as suas defesas e permite algumas investidas.

A realidade nacional dos Museus é paradigmática do estado da Cultura em Portugal, com o organismo de tutela (Instituto Português de Museus) a ser alvo de cortes orçamentais que chegaram a atingir os 20%, com modelos de gestão presos a legislação antiquada e sem recursos humanos, tornando o panorama confrangedor. Portugal é o país onde o Museu Nacional de Arte Antiga, o seu museu mais importante, chegou a ponderar encerrar as suas portas devido às férias dos funcionários em plena época estival! Imaginem encerrar o Prado, ou o Louvre! Seria inconcebível. Alguns dos caminhos que entendo como necessários para resolver esta questão já aqui apresentei num artigo anterior sobre o financiamento cultural.

Voltando ao caso na ordem do dia, para além da dificuldade que vai sendo a manutenção dos Museus, existem ainda outras dificuldades prévias: a conceptualização e a abertura. Recordo-me sempre, a este respeito, do caso de estudo que é Alcobaça. Não faltam projectos, vozes críticas (justas e injustas) e principalmente, não falta potencialidade.

Alcobaça, neste momento, não tem um Museu. Um museu que cumpra com os requisitos do levantamento o Observatório das Actividades Culturais. Há museus sem colecção, colecções sem museu, museus sem pessoal, museus sem programa, mas todos combinam numa coisa: alheamento dos públicos. Senão atentem nestes exemplos:

- O Mosteiro de Santa Maria possui acervo, mas não tem museu, apesar de ser uma ambição oitocentista de Alcobaça e estar legalmente criado desde a década de 80 do séc. XX;
- O Museu Nacional do Vinho, em virtude do desinvestimento e de um proprietário que se recusa a entender com a Câmara Municipal de Alcobaça vai definhando e perdendo o seu pioneirismo. Cairá no subalternismo face a projectos que nascem e se desenvolvem, não muito longe, por exemplo no Cartaxo;
- O Museu dos Coutos de Alcobaça é um projecto embrionário que espero que consiga atingir a maioridade, mas que creio ter um paradoxo que não vi ninguém esclarecer. Como pode um Museu dos Coutos de Alcobaça existir sem o Mosteiro? Para além disso o projecto parece-me pouco pragmático apostando numa rede de equipamentos que cria desafios, quanto aos recursos humanos e financeiros que lhe são inerentes. Não creio que exista nenhum estudo económico que justifique esta opção, por mais coerente que possa ser do ponto de vista museográfico. As interrogações que deixo não são nada quando comparadas com as que tenho em relação ao caso de estudo da não-museologia alcobacense: a casa-museu Vieira Natividade. Creio que o recente episódio da tentativa de deslocalização do monumento que lhe está coligado é a caricatura perfeita.

Continuam a faltar em Alcobaça projectos-âncora que funcionem como forma de preservação patrimonial e difusão cultural. O Cine-Teatro foi um passo decisivo nessa direcção, assim como a Biblioteca Municipal, mas ainda falta um Arquivo Municipal (prioridade administrativa e cultural absoluta) e um bom espaço museológico/exposições.

Relativamente a este último, dos vários possíveis, existem dois modelos que gostaria de destacar:
- Tradicional: um espaço, uma colecção permanente temática, espaço para exposições temporárias e reservas, com financiamento público, quase em exclusivo. Teria como principais vantagens a possibilidade de um trabalho mais duradouro, no entanto é um modelo menos flexível às novas realidades da gestão cultural, que requerem equipamentos polivalentes e/ou, quando há dinheiro, espaços mais específicos para trabalho localizado.
- Simbiose. Alcobaça carece de um espaço livre para exposições, com dimensão para receber Arte contemporânea, afastada da nossa programação cultural, à excepção das artes performativas. Nesse âmbito a existência de um espaço que cumprisse com essa exigência seria uma vantagem significativa, em paralelo ou perpendicularmente seria possível articulá-lo com uma exposição sumária, mas representativa, de mais-valias de Alcobaça. A tónica na minha opinião seria a Faiança de Alcobaça e a cristalaria. Só faria sentido com a sinergia entre sector privado e municipal.

O espaço Alcobaça, à semelhança de um Welcome center, serviria para receber os visitantes e teria uma incidência no presente e futuro, com o passado integrado.
A concepção do espaço seria uma responsabilidade municipal enquanto a gestão quotidiana pertenceria às empresas participantes no projecto com ou sem a Câmara Municipal no consórcio. Neste projecto seria estrutural a exploração de um loja, galeria, cafetaria/restaurante, que teriam como objectivos, a rentabilidade económica do projecto e o prestígio das empresas e da cidade.

No que concerne à localização também temos duas possibilidades:
- Clássica: Mosteiro de Alcobaça. É bom não esquecer que o IPPAR vai constituir uma equipa para a execução de um Plano Director para o Mosteiro. Alcobaça tem de participar, não se pode alhear.
- Antiga fábrica da Olaria: seria uma forma de preservar, pelo menos uma parte, do património edificado e principalmente da memória histórica que ainda perdura. A localização é favorável, à entrada ou saída da cidade e junto ao rio Alcôa.

As ideias que apresento fogem um pouco à doutrina geralmente instituída, porque procura a partilha de recursos e da gestão, em moldes pouco convencionais no sector cultural. Encara a Cultura como conhecimento, mas também como mais-valia económica. Procura ser Cultura Sustentável. Quanto mais não seja, fica o meu contributo para o imaginário dos Museus de Alcobaça.


         Miguel Silvestre

18-05-2005
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