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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Quinta, 10 de Junho de 2004
Opinião
Regionalismo e urbanismo nos romances de José de Alencar

Aldinida Medeiros* 

Em meados do século XIX, as moças e senhoras burguesas costumavam partilhar a literatura através da leitura coletiva de jornais e folhetins. Enquanto bordavam e costuravam, se emocionavam, ao lerem, em voz alta, os romances ou poemas; divagavam, assim, em um mundo de sonhos e amores impossíveis... Por meio dessas leituras, autores românticos adentraram a sociedade brasileira, conquistando o público feminino para quem, gradativamente se habituaram a escrever.

No Brasil, o Romantismo se inicia em 1836, quando Gonçalves de Magalhães publica a revista Niterói e lança um livro de poesias intitulado Suspiro poéticos e saudades. Faz-se necessário explicar, antes, que essa data não configura um marco previamente determinado para o início do Romantismo enquanto movimento literário; tanto quanto não configura a data de encerramento do classicismo. Obras com nuanças de romantismo já se configuravam; bem como aspectos clássicos ainda existiram (e ainda existem) em obras posteriores às românticas.

Características do Romantismo no Brasil

Se observarmos o contexto social no qual surgirá o Romantismo, perceberemos sua proximidade com a proclamação da independência do Brasil, ocorrida em 1822. É justamente nesse momento de afirmação da nacionalidade (embora uma nacionalidade ainda difusa), que surge a necessidade em expressar os propósitos nacionais e expressar o valor histórico da Pátria, muito embora isso também já tenha sido feito. Basta lembrarmos as cartas de Dirceu para Marília, de Tomás Antônio Gonzaga, e as Cartas Chilenas, as quais estão contextualizadas na literatura árcade, mas são também de relevância para a afirmação da nacionalidade do país, no movimento da Inconfidência Mineira.

Há, no período de 1822, portanto, uma necessidade de auto-afirmação da pátria que então se formava e o movimento literário romântico vai se encaixar justamente nesse contexto. Talvez por isso é que suas tendências literárias traçarão, ainda que superficial, ou equivocadamente (em algumas obras) o perfil das etnias que formavam a nação: o europeu (mais expressivamente) nos romances urbanos; o índio nos romances indianistas; e, de uma maneira bem diferente da realidade escravista, os negros, nos romances regionalistas. A situação política e social (o abolicionismo, as lutas humanitárias, os sentimentos liberais, o poder agrário, a corrupção), bem como os conflitos urbanos, surgidos a partir da industrialização nos centros mais desenvolvidos, tudo isso passa a ser elemento temático dos romances escritos no Brasil.

O autor de Iracema, O tronco do ipê e Senhora

Natural de Messejana, o cearense José Martiniano de Alencar desembarcou em São Paulo, no ano de 1844, para morar com um primo e dois colegas deste numa república de estudantes, da rua São Bento. A essa altura, morava no Rio de Janeiro. Aos 17 anos, ingressava na Faculdade de Direito; assim como tantos outros literatos, visto que nessa época a maioria das faculdades contavam apenas com este curso; além de Engenharia, nas Escolas Politécnicas e Medicina, este último em menor quantidade. Aos 18 esboçava - sem publicar - seu primeiro romance: Os Contrabandistas; e após sua formatura, em 1850, muda-se para o Rio de Janeiro a fim de exercer a advocacia, profissão que jamais abandonaria e que garantiria seu sustento, tal qual ele próprio assinalou: "não consta que ninguém já vivesse, nesta abençoada terra, do produto de obras literárias". (1)

Como romancista, sua estreia aconteceu em 1856; saiu em folhetins o romance Cinco Minutos. Consta que, ao final da publicação, juntaram-se os capítulos em um único volume, oferecido aos assinantes do jornal como brinde. Tal foi a procura que muitos, mesmo sem assinarem o jornal, procuraram esse volume para compra. Ao que Alencar comentaria: "foi a única muda, mais real animação que recebeu essa primeira prova. Tinha leitores espontâneos, não iludidos por falsos anúncios"(2). No ano seguinte, se deu sua estreia como autor de teatro, em 1857, com a peça Verso e reverso.

Nas entrelinhas, do comentário do autor, constatamos a queixa que perduraria, ao longo dos anos, de que a crítica literária atribuía pouca importância a sua obra. Apesar desses rasgos de desgosto com os críticos literários, Alencar continua escrevendo, e se torna um dos mais importantes romancistas, ao lado de Joaquim Manoel de Macedo, dentre outros do Romantismo brasileiro. Escrevendo sobre o índio, sobre as grandes fazendas e sobre a vida na corte, José de Alencar participa, então, das três vertentes românticas: a indianista, a regionalista e a urbanista, respectivamente.

Os costumes da corte burguesa em Senhora

Além do retrato da vida burguesa na corte, Senhora apresenta um escritor preocupado com a psicologia das personagens, sobretudo as femininas. Aurélia, a protagonista da obra, antes pobre e agora portadora de grande dote financeiro, arrisca toda a sua fortuna na "compra" de Seixas, de quem se enamorara no passado e sofrera rejeição, por ser pobre. A condição social e financeira dos protagonistas será, aliás, o mote de praticamente todos os romances urbanistas alencarinos.

Sobre Senhora, o crítico literário Robert Schwarz - para quem a forma e o enredo têm toda um relação advinda do contexto social dos autores - vai comentar: "Senhora é um dos livros mais bem cuidados de Alencar ... Trata-se de um romance em que o tom varia marcadamente ... uma esfera singela e familiar em que pode haver sofrimento e conflito, sem que ela seja posta em questão [...] Digamos que em Senhora a reflexão toma o alento e a maneira à esfera mundana, do dinheiro, da carreira, dando-lhe por conseguinte a primazia na composição." (3)

Outras obras de cunho urbanista do escritor cearense terão um enredo semelhante ao de Senhora. Em Sonhos d"ouro, Ricardo busca através do dinheiro a autonomia para poder se casar com Guida. Em Diva, Emitia vive uma busca incansável de um marido que se interesse mais por amor, que por dinheiro. Lucíola talvez seja a obra que mais exprime o comentário feito por Schwarz acerca da primazia do dinheiro nos enredos alencarinos, pois resume e expõe uma sociedade que transforma amor, casamento e amizade em algo quantitativo, que pode ser negociado e comprado.

Romances regionalistas: o escravismo
sob o prisma de Alencar

O tronco do Ipê e Til são considerados os romances regionalistas mais significativos dentre as obras do autor cearense. Nestes, a figura dos senhores de engenhos, ricos detentores de poder e dinheiro os agregados são, sob o prisma de Alencar os protetores dos agregados e escravos e a visão que seus romances regionalistas nos passa é a de um escravismo bem diferente do que se tinha, na realidade. Isso porque, para esse autor, a escravidão não era a "ferida social" que apregoavam os abolicionistas.

Segundo Chalhoub, "A chave dessa história de barões, cavalheiros e sinhás-moças esteve sempre na cabana de Pai Benedito, o escravo feiticeiro guardião dos segredos do Boqueirão. As linhas do enredo [...] convergem invariavelmente para o preto velho.". (4) De acordo com sua visão, a escravidão era, para Alencar "a chave de todo um modo de vida, não necessariamente mau; se as "luzes do século" exigiam a emancipação, era preciso fazê-lo sem comprometer a continuidade do mundo senhorial." (5)

Apesar dos comentários de alguns críticos, há que se reconhecer a importância de José de Alencar para a escola literária romântica brasileira. Embora não tenha sido ele partidário das causas da sociedade; e não tenha estabelecido, através de seus romances, nenhuma análise crítica dos problemas sociais, Alencar presenteou-nos com uma prosa indianista das mais belas, sobretudo com Iracema. Além do mais, o autor soube satisfazer o gosto das mocinhas românticas por muitas gerações. E se não usou, para isso, a pena da galhofa, tal qual o célebre Machado de Assis, esmerou-se na caracterização das suas personagens femininas dando-lhes o tônus da emoção e os arroubos da subjetividade.

1
2 http://www.sbn-net.com.br/personagens/listas/j/jose-alencar.html
3 Robert Schwarz, p. 33 e 34
4 Sidney Challhoub p. 195
5 Idem, p. 196
6 Machado de Assis, p. 78


        * Mestre em Literatura Comparada

10-06-2004
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Comentários

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Comentário de carolina silvestre da silva
27-05-2010 às 13:14
Perfeito a maneira de repasso das obras do autor...
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