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Edição Nº 77 Director: Mário Lopes Terça, 27 de Março de 2007
Opinião
Salazar, fantasma do passado

   


Salazar, visto por Henrique Tigo

Através do programa da RTP os “100 Maiores Portugueses de Sempre”, voltou-se a falar sobre o Prof. Oliveira Salazar, personalidade da História Portuguesa que acabou por vencer esse programa com 41% dá votação, algo que, por exemplo, há 20 anos era impensável.

 

    Nascido após o 25 de Abril de 1974, toda a minha vida cresci perto de pessoas que viveram de perto os horrores do Estado Novo e com eles sofreram, mas nunca deixaram de lutar e acreditar num Portugal melhor. Para muitos, pode parecer estranho que um jovem nascido após o 25 de Abril de 1974, escreva sobre aquilo que nunca viveu na pele.

    Contudo, eu identifico-me com todos os valores que presidiram à génese e ao desencadeamento esperançoso do 25 de Abril. Os objectivos estratégicos e pragmáticos, todavia, ainda não foram totalmente cumpridos - é um processo contínuo, mas urgente, para não defraudar todos quantos acreditaram num mundo, português e global, que ainda não foi possível construir. E como o Povo diz, o Natal é sempre que um homem quiser. Parafraseando a expressão, eu diria que o dia da Liberdade é sempre que nós quisermos, o que não dispensa que tenha de ser periodicamente lembrado.

    Portugal viveu uma ditadura criada pelo Prof. Oliveira Salazar, na altura um jovem economista nascido em Santa Comba Dão. Foi seminarista, homem da acção católica e que em vez de boca tinha uma cicatriz como costumava dizer a Actriz Beatriz Costa. Será que já temos o distanciamento necessário para falar sobre ele quando ainda só passaram 37 anos da sua morte, e muitas das personalidades do seu círculo mais íntimo ainda estão vivos?

    Afinal de contas, quem foi o Prof. Oliveira Salazar? António de Oliveira Salazar nasceu a 28 de Abril de 1889 no Vimieiro, Santa Comba Dão, Em 1900, após completar os seus estudos na escola primária, com 11 anos de idade, ingressou no Seminário de Viseu, onde permaneceu 8 anos. Em 1908, no seu último ano lectivo no Seminário, tomou finalmente contacto com toda a agitação que reinava em Viseu (e também em todo o País). Surgiam artigos que atacavam o Governo, o Rei e a Igreja Católica. Foi também neste ano que se deu o assassínio do Rei D. Carlos e do seu filho, o Príncipe D. Luís Filipe. Não ficando indiferente a estes acontecimentos, Salazar, um devoto católico, começou a insurgir-se contra os republicanos em defesa da Igreja, escrevendo por isso vários artigos nos jornais.

     Após completar os estudos, permaneceu em Viseu mais 2 anos. Porém, em 1910, mudou-se para Coimbra para estudar Direito. Em 1914 conclui o curso de direito com a alta classificação de 19 valores e em 1916 é assistente de Ciências Económicas. Assumiu a regência da cadeira de Economia Política e Finanças em (1917) a convite do professor José Alberto dos Reis, praticando a actividade com grande qualidade, antes de se doutorar (1918).

    Durante este período em Coimbra, materializa o seu pendor para a política no Centro Académico da Democracia Cristã onde faz amigos como Mário de Figueiredo, José Nosolini, os irmãos Dinis da Fonseca, Manuel Gonçalves Cerejeira e Bissaya Barreto, entre outros. Alguns haveriam de colaborar nos seus governos. Combate o anti-clericalismo da 1ª República, através de artigos de opinião que escreve para jornais católicos. Acompanha Cerejeira em palestras e debates.

    As suas opiniões e ligações ao Centro Académico da Democracia Cristã, levaram-no em 1921 a concorrer por Guimarães como deputado ao Parlamento. Sendo eleito e não encontrando aí qualquer motivação regressou à Universidade passado três dias. Aí se manteve até 1926.

    Foi ministro das Finanças entre 1928 e 1932 e depois, entre 1932 e 1968, foi o estadista que dirigiu os destinos de Portugal, com o cargo de Presidente do Concelho de Ministros, mais ou menos, o cargo de primeiro-ministro da actualidade.

     Em 1928, após a eleição do Marechal Carmona e na sequência do fracasso do seu antecessor em conseguir um avultado empréstimo externo com vista ao equilíbrio das contas públicas, reassumiu a pasta, mas exigindo o controlo sobre as despesas e receitas de todos ministérios. Satisfeita a exigência, impôs forte austeridade e rigoroso controlo de contas, conseguindo um superavit, um "milagre" nas finanças públicas logo no exercício económico de 1928-29.
- Sei muito bem o que quero e para onde vou! - Afirmara, denunciando o seu propósito na tomada de posse.

    Na imprensa, que era controlada pela Censura, Salazar seria muitas vezes retratado como salvador da pátria. O prestígio ganho, a propaganda, a habilidade política na manipulação das correntes da direita republicana, dos monárquicos e dos católicos consolidavam o seu poder. A Ditadura dificilmente o podia dispensar e o Presidente da República consultava-o em cada remodelação ministerial. Enquanto a Oposição se desvanecia em sucessivas revoltas sem êxito, procurava-se dar rumo à Revolução Nacional imposta pela ditadura. Salazar, recusa o regresso ao parlamentarismo e à democracia.

     Foi fundador e chefe da União Nacional (partido único durante o Estado Novo) a partir de 1931. Tendo sido também o fundador e principal mentor desse Regime (1933-1974), que termina com o Movimento dos Capitães a 25 de Abril de 1974. Em 1932 era publicado o projecto de uma nova Constituição que seria aprovada em 1933.  Com esta constituição, Salazar cria o Estado Novo, uma ditadura anti-liberal, anti-comunista e anti-parlamentar que se orienta segundos os princípios da tradição conservadora: Deus, Pátria e Família. Toda a vida económica e social do país estava organizada em Corporações - era também um Estado Corporativo.

    Com Salazar, Portugal afirmava-se como "um Estado pluricontinental e multirracial" - assentava sobre os pilares de uma politica colonialista. Durante o Estado Novo, os Presidentes da República tinham funções meramente cerimoniais. O detentor real do poder era o Presidente do Conselho dos Ministros e era ele que dirigia os destinos da Nação.

     Durante a Segunda Guerra Mundial e desde a Guerra Civil Espanhola, o Presidente do Concelho Oliveira Salazar assumiu a pasta dos negócios estrangeiros. Com a II Guerra Mundial, o imperativo do governo de Salazar é manter a neutralidade. Próximo ideologicamente do Eixo, o Regime Português escuda-se nisso e também na aliança com a Inglaterra para manter uma política de neutralidade. Esta assentava num esforço de não afrontamento a qualquer dos lados em beligerância.

    Primeiramente, com uma intensa actividade diplomática junto de Franco de Espanha tenta evitar que a Espanha se alie à Alemanha e à Itália (caso em que previsivelmente os países do Eixo com a Espanha olhariam a ocupação de Portugal como meio de controlar o Atlântico e fechar o Mediterrâneo, o que desviaria o teatro da guerra para a Península Ibérica).

    Com a Espanha fora da guerra, a estratégia de neutralidade é um imperativo da diplomacia de forma a não provocar a hostilidade nos beligerantes e Salazar não tolera desvios dos diplomatas que coloquem em risco a sua política externa. Quando o Cônsul português Aristides de Sousa Mendes, em Bordéus, concedeu vistos em grande quantidade a judeus em fuga aos nazis, ignorando instruções de Salazar, este foi implacável e demitiu-o.

    Quase desde o final da II Guerra Mundial, a comunidade internacional e a ONU vinham a defender a implementação de uma política de descolonização em todo o mundo. O Estado português foi o único que se recusou a conceder a autodeterminação aos povos das regiões colonizadas. Salazar, praticando uma política de isolamento internacional sob o lema “orgulhosamente sós”, levou Portugal a sofrer consequências extremamente negativas a nível cultural e económico.

    Em Março de 1961, no norte de Angola, acaba por estalar uma sangrenta revolta, com o assassínio de colonos civis. A chacina merece de Salazar a resposta: “Para Angola rapidamente e em força.” Defensor de uma política colonialista, Salazar alimenta as fileiras da guerra colonial, que se espalha à Guiné e a Moçambique, com o propósito de manter as chamadas províncias ultramarinas sob a bandeira portuguesa.

    A Guerra Colonial teve como consequência milhares de vítimas entre os povos que acabariam por se tornar independentes e entre os portugueses. Arruinou economicamente Portugal e abalou as suas estruturas políticas e sociais, tendo sido uma das causas da queda do regime.

    Em Agosto de 1968 o Prof. Oliveira Salazar sofre um acidente e fica mentalmente diminuído, sendo afastado do Governo pelo Presidente da Republica Almirante Américo Tomás, a 27 de Setembro de 1968. O Prof. Marcelo Caetano é então chamado a substituir Oliveira Salazar. Contudo e até morrer, em 1970, Salazar continuou a receber visitas como se fosse ainda Presidente do Conselho, nunca manifestando sequer a suspeita de que já o não era, no que não era contrariado pelos que o rodeavam.

  Biografia cronológica do Prof. Oliveira Salazar

·      1889: Nasce em Vimieiro, Santa Comba Dão. ·      1914: Em Coimbra, conclui o curso de Direito.
·      1918: Professor de Ciência Económica.
·      1926: Após o golpe de 28 de Maio é convidado para Ministro das Finanças; ao fim de 13 dias renuncia ao cargo.
·      1928: É novamente convidado para Ministro das Finanças; nunca mais abandonará o poder.
·      1930: Nasce a União Nacional.
·      1932: Presidente do Conselho de Ministros.
·      1933: É plebiscitada uma nova constituição que dá início ao Estado Novo. Fim da ditadura militar.
·      1936: Na Guerra Civil de Espanha apoia Franco; cria a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa; abre as colónias penais do Tarrafal e de Peniche - 1937: Escapa a um atentado dos comunistas.
·      1939: Iniciada a Segunda Guerra Mundial, Salazar conseguirá manter a neutralidade do país.
·      1940: Exposição do Mundo Português.
·      1943: Cede aos Aliados uma base militar nos Açores.
·      1945: A PIDE substitui a PVDE.
·      1949: Contra Norton de Matos, Carmona é reeleito Presidente da República; Portugal é admitido como membro da NATO.
·      1951: Contra Quintão Meireles, Craveiro Lopes é eleito Presidente da República.
·      1958: Contra Humberto Delgado, Américo Tomás é eleito Presidente da República; o Bispo do Porto critica a política salazarista
·      1961: 22/01, assalto ao Sta. Maria; 04/02, assalto às prisões de Luanda; 11/03, tentativa de golpe de Botelho Moniz; 21/04, resolução da ONU condenando a política africana de Portugal; 19/12, a União Indiana invade Goa, Damão e Diu; 31/12/61 para 01/01/62, revolta de Beja.
·      1963: O PAIGC abre nova frente de batalha na Guiné.
·      1964: A FRELIMO inicia a luta pela independência, em Moçambique.
·      1965: Crise académica; a PIDE assassina Delgado.
·      1966: Salazar inaugura a ponte sobre o Tejo.
·      1968: Salazar sofre um acidente e fica mentalmente diminuído.
·      1970: Morte de Salazar.
·      1974: A Revolução do Cravos e fim do Estado Novo.

    Ao longo destes anos já escrevi sobre a Censura, sobre a polícia politica (PIDE), sobre os heróis de Portugal e até sobre o 25 de Abril.
Quero terminar este artigo, dizendo que não sou Salazarista. Escrevi este artigo sobre o Prof. Oliveira Salazar porque venceu o programa da RTP e, pelos vistos, 41% dos Portugueses que votaram acham que ele foi o maior Português de sempre. Acredito que basta de meter a cabeça na areia e não se falar dos fantasmas do passado, pois, talvez por causa disso ,o Prof. Oliveira Salazar teve este resultado.

    Dr. Henrique Tigo
    Geógrafo


Referências bibliográficas
CAETANO, Marcello. Minhas memórias de Salazar. Lisboa: Verbo, 1977
NOGUEIRA, Franco. Salazar. Porto: Livraria Civilização, 1985
MEDINA, João. Salazar, Hitler e Franco: Estudos sobre Salazar e a Ditadura. Lisboa: Livros Horizonte, 2000
LOUÇÃ, António. Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra, 1940-1944. Lisboa: Terramar, 2000

27-03-2007
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Comentário de Júlio Fortes Caboverdiano
28-07-2010 às 17:16
Salazar garantiu aos Portugueses o Portugal que alicerçado firme como Nação ainda subsiste altaneiro e orgulhoso e resiste graças aos seus filhos ditosos que devem expulsar os vendilhões do templo.
Comentário de António Mendes da Silva
29-11-2009 às 13:05
Esta gente toda que fala mal de Salazar precisava que lhe abrissem a cabeça para lá meter uma coisa que eles desconhecem e que se chama verdade. Ele foi ditador e os de agora. Alguém pode votar em quem quizer? Não, só naqueles que a "quadrilha" lhe escolhe para votare. No tempo do dr. Salazar só podiamos votar nas pessoas que um português patriota, honesto, e inteligente nos indicava, mas agora, com a "demovracia, todos podem votar naqueles que a quadrilha dos que deixaram de ser portugueses para passarem a ser eurioeus, dos que só querem o poder para encher os bolsos, que além de serem vesgos a ver ainda o são pior a pensar. Ao menos que tenham vergonha e vão para casa, que talvez lá tenham que fazer. Ou então cukltivar as terras que nos davam o pão e que por culpa das suas políticas europeistas só pruzem mato e incêndios. Coitados dos que vierem atrás de nós!
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