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Edição Nº 24 Director: Mário Lopes Quinta, 4 de Maio de 2006
Editorial
Agora é Lula

Mário Lopes 

Como se esperava, Luís Inácio Lula da Silva é o novo presidente eleito do Brasil, numa eleição que decorreu de forma serenamente exemplar. Esta eleição histórica, que aplicou pela primeira vez no mundo, com assinalável êxito, o método da urna electrónica a 100% dos eleitores, encerra, em minha opinião, dois factos políticos singulares.

O primeiro é o facto de o novo inquilino do Palácio do Planalto ser operário metalúrgico, profissão que exerceu desde os 14 anos até abraçar a vida política. Como tantos dos seus compatriotas nasceu e cresceu à beira da exclusão social, tendo frequentado a escola apenas durante três anos. Todavia, apesar da falta de habilitações literárias, o facto é que bem se poderá dizer que Lula, atendendo à sua enriquecedora experiência de vida, tirou o equivalente a vários cursos universitários durante os seus 57 anos de idade, completados no dia da sua eleição, a 27 de Outubro.

Da luta como sindicalista de base no ABC de S. Paulo (formado pelos municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano), à direcção do sindicato dos metalúrgicos de S. Paulo, à luta contra a ditadura militar, à fundação e direcção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e à fundação e direcção do Partido dos Trabalhadores (PT), é inegável que Lula da Silva fez toda a sua trajectória pessoal e política baseada em convicções e coragem. Por isso, Lula da Silva é uma referência de cidadania no Brasil do século XXI e isso mesmo foi reconhecido pelos seus compatriotas nesta eleição.

O segundo facto singular nesta eleição é que Lula da Silva, sendo um político de Esquerda, foi apoiado nesta eleição por um espectro político muito alargado, da extrema Esquerda à Direita tradicional, contando com apoiantes tão distantes politicamente como Renato Rabelo, do PC do B, e António Carlos Magalhães, do conservador PFL.

Para além das inúmeras razões pessoais e políticas, nem sempre lineares, que levaram personalidades situadas nos antípodas do espectro político brasileiro a darem o seu apoio a Lula da Silva, há uma razão que, a meu ver, predomina: a exorbitante situação de desigualdade social do povo brasileiro.

É natural que os portugueses tendam a ver a realidade brasileira com o olhar da realidade portuguesa, por exemplo, contrapondo as favelas aos bairros de lata lusitanos, felizmente, cada vez mais raros. Contudo, essa é uma imagem desfocada da realidade. A verdade é que os bairros de lata das grandes cidades como Lisboa se constituíram como ilhas no meio de uma grande maioria de prédios de habitação. Pelo contrário, no Brasil, não estaremos longe da verdade se dissermos que as barracas ou casas abarracadas são a norma e os prédios e vivendas a excepção. Basta circular na estrada que liga S. Paulo ao Rio de Janeiro para vermos centenas de quilómetros de casas abarracadas formando uma linha quase contínua.

Ora, esta situação em que a maioria do povo é votado à condição de indigente dentro do seu próprio País afigurava-se insustentável por muito mais tempo. Por isso, o Brasil entendeu que não era mais possível manter o status quo político e social. Do Oiapoque ao Chuí, a maioria dos brasileiros percebeu que era tempo de mexer na questão da redestribuição da terra, de alterar profundamente as políticas sociais e redefenir as políticas económicas do País. Falhadas as tímidas políticas reformistas de Fernando Henrique Cardoso, o País de figuras como Chico Mendes, D. Hélder Câmara ou Tiradentes precisava de um homem de coragem: Lula foi o homem em quem a maioria do povo brasileiro se reviu.

Um dos momentos mais significativos da campanha eleitoral, aconteceu quando a actriz Regina Duarte, que deu a cara por José Serra na TV, veio manifestar publicamente o seu receio pela previsível vitória de Lula da Silva. Contudo, o País não vacilou e a imagem que passou foi que "a hora era de coragem e não de medo". A vitória de Lula da Silva representa, assim, o "25 de Abril" brasileiro, num contexto diferente, num tempo diferente, com actores diferentes, mas com a mesma alegria e a sensação de haver chegado a hora da libertação. As palavras do recém-eleito presidente foram significativas, quando dedicou a vitória "ao povo sofrido do Brasil".

A tarefa que agora espera o novo presidente é ciclópica, a braços com uma dívida externa gigantesca, uma profunda crise social e económica, além de um senado e um congresso politicamente adversos. Lula vai precisar de tempo para vencer cada um desses obstáculos pelo que a difícil gestão das expectativas populares será, por certo, um dos principais problemas. Por isso, a autoridade política que esta esmagadora vitória lhe outorgou obtendo a maior votação na história da democracia mundial - será tão preciosa neste seu mandato.

Uma coisa todos temos a certeza: depois desta eleição nada ficará como dantes. Nem no Brasil, nem na América Latina, nem no mundo. As declarações de Horst Köhler, director do Fundo Monetário Internacional e de George W. Bush felicitando o novo presidente e convidando-o para trabalharem em conjunto são um sinal do respeito que o Brasil conquistou com esta eleição. Agora, é Lula.

04-05-2006
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