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Edição Nº 90 Director: Mário Lopes Sábado, 19 de Abril de 2008
Opinião
O Património da História do Termalismo em Portugal

    O Património da História do Termalismo em Portugal (epítome no Tempo e no Espaço)

   


Helena Gonçalves Pinto

Os conjuntos termais são definidos pelos diferentes edifícios (balneários, pavilhões de nascente ou buvettes, galerias de passeio, hotéis, casinos, quiosques, igrejas e capelas) e espaços exteriores. Este sistema integrado, em pequena ou grande escala de território, de acordo com o desenvolvimento e a importância da estância termal, procura dar expressão ao lugar, de forma a permitir aos utentes estadas agradáveis e uma ocupação diversificada que contribuam para o equilíbrio físico e mental associado à terapia e ao lazer pelo uso das águas.

    A história das termas portuguesas dá-nos um importante património, desde os vestígios arqueológicos romanos, as estruturas do início da Nacionalidade e o primeiro e mais antigo hospital termal do mundo fundado no final do século XV. Mas o grande legado remonta aos séculos XIX e XX – sobretudo este –, justificado pela realização de um maior número de investimentos e onde o termalismo representou uma actividade importante no contexto das sociedades, quer a nível da saúde, quer como estratégia económica de afirmação de uma pequena localidade ou de consolidação de um aglomerado urbano maior.

    Em meados do século XIX, surgiram tipologias arquitectónicas em que a área balnear se articulou com outras funções complementares: simultaneamente balneário e alojamento ou balneário e zona de convívio. O desenho da arquitectura termal também se adequou à especialização das funções: as áreas de tratamento, com a separação por classes e sexos, bem como a instalação de modernos equipamentos para o banho e duche, vapor e sauna, pulverização e inalação. O átrio da entrada ganhou desde logo uma importância especial. Trata-se do vestíbulo de recepção: um espaço amplo, emblemático e decorativo, que distribui os aquistas para as galerias de circulação e zonas de tratamentos. No átrio e nas galerias, a entrada de luz, directa ou zenital, cria ambientes e espaços próprios de convivência ou recolha. Aliás, a luz e a ventilação foram os temas principais do discurso higienista do século XIX.

    A piscina, quando existia, era quase sempre o elemento principal, à volta ou junto da qual se instalavam as galerias de banhos individuais, simétricas e separadas por sexos, no desenho mais convencional. Por questões de higiene e de decoração, a utilização dos revestimentos cerâmicos (faiança vidrada) e pétreos passou a ser feita nas paredes em detrimento da pintura, e os pavimentos em mosaico (liso ou decorado) ou cimento substituíram os de madeira, por causa das lavagens quotidianas, sobretudo nos novos compartimentos destinados a banhos de 1.ª e 2.ª classes, onde o mobiliário em madeira também era parte importante da decoração e da ambiência.

    Protegidas no interior do edifício balnear em local central ou construídas no exterior, as buvettes tomaram formas diferentes, por vezes enriquecidas com revestimentos em pedra e trabalhos em ferro e vitral. Do seu ponto central, emerge a água, num reduto delimitado por gradeamento ou balcão, intransponível por quem dela usufrui várias vezes ao dia. A buvette passou a ser o local de centralização do ritual, lugar sacralizado, onde se esbatem as classes e os sexos.

    Já no século XX, consolida-se a construção dos diferentes microcosmos termais, onde para além do edifício balnear, este território completa-se com outros edifícios essenciais à prática termal, como os alojamentos, de diferentes tipologias, segundo as necessidades e o orçamento familiar: grandes hotéis, pensões, chalés ou o aluguer de quartos em casas privadas. Atentos à sua importância num processo de cura e de valorização da vida, sem deixar de observar certamente o gosto da época, os estabelecimentos hoteleiros ofereciam salas de baile, percorridos por valsas e contradanças, concebidos, portanto, de raiz, com amplos salões adequados a esta função, nos quais se reuniam músicos e público. Também se construíram clubes de recreio ou casinos, onde era possível encontrar café, casa de bilhar, sala para jogos e outros refinamentos do quotidiano, nos períodos da manhã ou de tarde, nos intervalos entre refeições e tratamentos, ou então à noite, numa requintada socialização ou sociabilidade que fluía entre os regulares frequentadores das águas.

    A existência de uma igreja ou capela nas estâncias termais é entendida como necessidade espiritual e, para muitos, um complemento à recuperação da saúde através do contacto com as águas e a natureza, com a serenidade dos espaços, onde o princípio e o final do dia se oferecia como um grandioso espectáculo natural, a esperança de poder retomar uma vida normal, com inteira autonomia, dinamizando o funcionamento e o equilíbrio do corpo.

    Daí também a existência de grandes espaços verdes, como os parques arbóreos, elementos essenciais para potenciar o efeito hidroterapêutico, dada a sua influência em três aspectos essenciais: na qualidade do ar do espaço termal (oxigenação e fixação do dióxido de carbono; aumento da humidade relativa, devida quer à intensificação evapo-transpiração quer da intersecção da radiação e consequente regularização da temperatura em exterior; filtração e fixação de gases, fumos, partículas e poeiras), na protecção aos aquíferos da água mineral natural (protecção contra a poluição concentrada e difusa, em particular nas zonas superficiais dos aquíferos elásticos e em situações de fissura; controle da erosão do solo ou camada protectora; controle genérico da qualidade e quantidade das águas infiltradas) e na integração das actividades termais de recreio e lazer (recreio activo, com exercícios variados adequados à capacidade dos aquistas e acompanhantes, com áreas especializadas em qualidade e dimensão suficientes, e recreio passivo, proporcionando situações de estar, contemplação e observação da natureza, com estimulação sensorial através das diferenças de luz, cor, escala, humidade relativa, temperatura e som, em ambiente calmo e seguro).

    Tem sido para estes ambientes, ora sublimados, ora mais pobres de conteúdo, que os utentes das termas se deslocam, em viagem, para a separação e o corte temporário com as atribulações quotidianas da vida, a procura da cura ou o contacto com um círculo elegante e culto, a vivência num espaço semi-público, a excitação do inesperado, para a qual a arquitectura também contribui.

    Outrora, essas viagens eram extraordinárias: implicavam a partida de parte ou de toda a família, dos amigos e criados, com os custos que isso poderia representar, e podiam demorar vários dias a chegar a locais, muitos deles isolados, pelos quais os seus utentes lhes dedicavam uma fidelização que poderia durar anos, criando estratégias de animação, de passeio, de lazer, durante a sua estada. É este carácter mágico, que as estâncias termais têm revelado junto dos seus utentes, que dá sentido à sua existência, muitas vezes em regiões desfavorecidas de interior, cujo património não pode ser apenas material, mas também do universo dos sentidos e dos ritos.

    Presentemente, o património termal português, ligado aos recursos hidrotermais, à arquitectura, aos equipamentos e acessórios terapêuticos, às áreas verdes de enquadramento e às práticas e usos tradicionais, torna-se num valor acrescido para o relançamento do termalismo em Portugal. A sua preservação também é um factor de competitividade das estâncias termais, como valor cultural, pelo que deve ser tomado como elemento estratégico na actuação dos responsáveis nacionais e locais.

Helena Gonçalves Pinto
hgpinto@gmail.com
Jorge Mangorrinha
jmangorrinha@gmail.com

19-04-2008
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Comentário de Angela Marina Neto Valente Quitério
16-12-2013 às 11:12
Parabéns.Sem dúvida que tenho muito a aprender contigo.Afinal brilhas com luz própria.Bjs Marina(ex-Borges)
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