Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Concorda com a legalização da eutanásia?
Sim
Não
Não sei/talvez
Edição Nº 89 Director: Mário Lopes Quinta, 20 de Março de 2008
Opinião
Do Estado sem povo
   


Valdemar Rodrigues

As sociedades modernas estão profundamente doentes. E, talvez como nunca, perigosas. O mundo que para muitos ocidentais parecia ter encolhido até finais da década de noventa do século XX, ensaia agora inesperados alargamentos. As cidades concentram cada vez mais gente, a pobreza aumenta, e aumentam assustadoramente as desigualdades sociais. Muitos estados voltam a rearmar-se, e outros tantos definham enleados que estão nas teias de um poderio económico verdadeiramente voraz e apátrida. 

    Os povos desanimam, confusos e julgando-se incapazes do exercício da sua autonomia. As liberdades vão sendo crescentemente cerceadas. É a própria razão de ser dos estados nacionais que se desfaz. Mas enquanto os cidadãos são expostos à globalização, os estados nacionais, inflexíveis, teimam em manter uma imagem de pujança. Mas o que lhes resta hoje é pouco mais do que o poder repressivo. Sobre os seus povos, entenda-se. O estado de natureza que antes imperava nas relações internacionais é, desta forma, transferido para a esfera "doméstica", para as relações entre o Estado e o conjunto dos cidadãos constituintes que lhe conferiram o seu estatuto de sociedade política. 

    Tudo indica que estejamos pois a viver um tempo de plena contradição com a ideia constitucional de Estado. Teme-se pois o pior nesta travessia, num teatro composto por estados nacionais congregados sob a protecção de armas e exércitos comuns e que podem, a qualquer momento, carregar sobre qualquer povo que ouse exercer autonomamente o governo dos seus destinos. A situação política na Venezuela bolivariana representa nesta perspectiva algo sui generis para o tempo, que oxalá não venha a sair muito caro ao seu povo. Julgo que é mais por esta razão, e não por outra qualquer mais fútil relacionada com a alienação das massas, que os povos, e designadamente os europeus, vêm assistindo resignadamente aos processos políticos e à globalização em curso. 

    Acresce que nunca outrora o Ocidente teve tanta gente na situação de desemprego ou de emprego precário com tão elevados níveis educacionais, e com tanto acesso à informação. A injustiça cresce a todos os níveis, e, pela primeira vez desde há muito, há uma geração que vai viver pior do que a geração anterior. Com bastante menos oportunidades de emprego (não obstante as suas maiores qualificações académicas e/ou profissionais), com menos protecção social, com menos segurança quanto ao presente e com pouca esperança de melhores dias no futuro. E com um rol impressionante de novas obrigações. Serão sustentáveis sociedades assim? Temo que dificilmente, pois aquilo de que padecem hoje, sendo porventura novo do ponto de vista das motivações de quem as governa, não deixa de ser já também bastante antigo na perspectiva de quem é governado. 

    E novas lutas de classes poderão reacender-se a qualquer momento. Mas agora desfocadas daquilo que efectivamente importa. Pois não é na exploração das classes operárias assalariadas e dos trabalhadores agrícolas sem terra que está exactamente hoje o problema. É mais na reconhecida mas não declarada inutilidade e dispensabilidade de uma parte importante da população mundial, talvez mais de 2/3, incluindo naturalmente os jovens e as crianças. Essa parece ser a grande diferença dos tempos modernos. 

    A verdade é que nunca houve tanta abundância de alimentos e tanto gasto inútil de energia. O que existe hoje no mundo, se estivesse bem distribuído dentro de cada povo e se a solidariedade entre os diferentes povos fosse autêntica e não apenas um negócio, era mais do que suficiente para todos vivermos em paz e com dignidade. Mas a economia dominante assenta no utilitarismo materialista e num pretenso igualitarismo de Estado, o que faz com que o seu crescimento dependa na prática do aumento da precaridade das nossas vidas, quando não do aumento da desgraça e da miséria humanas. E infelizmente todos parecem hoje concordar com a imprescindibilidade desse crescimento económico baseado na destruição e na mudança pela mudança, no esfrangalhar dos valores básicos da sociedade e no desperdício absurdo de gente e de recursos. Isso jamais pôde alguma vez significar desenvolvimento, e muito menos pode hoje significar desenvolvimento sustentável. 

    No Ocidente, desde há séculos dirigido intelectualmente por planeadores e engenheiros sociais mais ou menos iluminados, os resultados estão à vista. Não é por isso surpreendente a recente aproximação à Igreja de muitos desiludidos com os ideais do progresso e da modernidade: um universo mal explicado e persistentemente injusto que os “blocos” de conhecimento ao serviço da razão instrumental não conseguiram resolver, porque as suas fissuras não pararam nem param de aumentar, é algo que tende a aproximar as pessoas de Deus, levando-as a procurar n'Ele respostas que a ciência não sabe, não pode ou simplesmente não quer responder. Os estados fundados no laicismo, designadamente as repúblicas laicas, sempre consideraram nefasta esta aproximação a Deus, outrora por se tratar de um apego do povo ao obscurantismo, hoje provavelmente por razões menos nobres.

    Em relação ao cristianismo, é absolutamente impossível, sob pena de violação dos seus mais elementares princípios doutrinais, aceitar-se a ideia de um certo darwinismo social, tendente agora a eliminar o “excesso” de população do planeta, população “inútil” que mais não é do que o “excedente humano” do processo de industrialização e de acumulação de capital há muito iniciado, e que foi fortemente acelerado nas últimas décadas com o advento da dita globalização. Um cristão não pode aceitar nunca tal coisa, sob pena de deixar de o ser. E se for esse o plano dos “pragmáticos” engenheiros sociais contemporâneos, então estes deverão perceber a cristandade como um possível travão ao seu desenvolvimento.

    Ao que parece as coisas têm corrido bastante bem, e o plano – a existir, entenda-se – tudo indicava poder via a ser um êxito. Houve algo porém que falhou, que foi não só a dificuldade de execução de algumas tarefas pontuais, atrapalhadas por pontuais problemas, como ainda o facto de haver um crescente número de pessoas, e cristãs incluídas, a aperceber-se da urgência em reforçar a capacidade de prevenção para uma possível hecatombe humana. Se atendermos bem à mensagem de Bento XVI deixada na sua primeira encíclica (Deus Caritas Est), observa-se um registo muito claro: não é à Igreja que cabe fazer justiça, mas sim à política: a César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

    Para o interior da Igreja, Bento XVI lança o apelo da caridade, do amor ao outro, ou seja, da importância de a comunidade cristã se preparar no seu todo para os tempos difíceis que se avizinham. Aos estados, depois do strip-tease mais ou menos erótico da globalização, que mais não foi do que a inaudita concentração de capital nas mãos de muito poucos, resta-lhes hoje pouco mais do que o exercício do seu poder repressivo sobre os cidadãos. Ah, e o combate às terríveis "ameaças" das alterações climáticas! É cada vez maior o número de pessoas que em muitos países, começam a duvidar das boas intenções estatais, e da real capacidade do Estado para assegurar a justiça.

    O serviço militar obrigatório desapareceu em muitos países e as tropas, precisamente aquelas que outrora faziam as revoluções, profissionalizaram-se. E quem nos defende do Estado? A NATO? As Nações Unidas? Talvez, mas estas organizações recorrem também cada vez mais a profissionais da guerra, contratados a empresas privadas de segurança. Havia pois que mudar muita coisa. Quanto à Igreja, o seu papel pode parecer irrelevante: sem armas, como poderia ela defender-nos de um Estado injusto? Talvez pela persuasão, coisa que certamente faz mais vezes do que aparenta. A sua experiência de séculos de ligação ao Estado e às elites do poder político habilitam-na para a missão, mas nunca de uma forma directa nem garantidamente eficaz. A História infelizmente tem sido prolífica em mostrar-nos isso.

    A resposta provável, a única possível a esta questão essencialmente absurda, mas infelizmente real, é a de sermos todos nós! Exactamente assim, num verdadeiro acto de refundação do Estado. Esse absurdo Estado sem povo que, não obstante a globalização e a integração europeia, teima em viver como sempre o fez: da rapina da riqueza e do trabalho do “seu” povo. Porque um Estado sem povo é sempre um povo à procura de um Estado.

    Valdemar Rodrigues
    Prof. Universitário

20-03-2008
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
OPINIÃO
Do Estado sem povo
Valdemar Rodrigues
Ser professor em Portugal
António Maduro
O Regicídio
Henrique Tigo
A crise na Educação!
Mário Nogueira
De jesuíta a “imperador”: erudição e pluralidade em António Vieira
Aldinida Medeiros
Porque a passagem do TGV é contra-natura
Por Jorge Alves
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o