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Edição Nº 32 Director: Mário Lopes Terça, 23 de Maio de 2006
Opinião
A propósito de um regresso (operático) de Inês de Castro a Alcobaça

 José Alberto Vasco

A castelhana Inês de Castro (1320?-1355) tornou-se com o correr dos tempos uma figura mítica do imaginário alcobacense e universal. A história dos seus amores com D. Pedro (1320-1367) e de todas as atribulações e consequências inerentes à sua grande paixão tem inspirado inúmeros artistas um pouco por todo o mundo, nomeadamente após o seu cruel assassínio, ordenado por D. Afonso IV (1291-1357).

Essa fonte de inspiração tornar-se-ia mais densa e seminal quando D. Pedro se tornou oitavo rei de Portugal, em 1357, declarando clara e publicamente ter-se anteriormente casado com D. Inês, encetando seguidamente impiedosa vingança contra todos os que haviam estado implicados no seu assassinato.

Posteriormente mandaria coroá-la, já morta, em impressionante cerimónia, tendo em 1366 mandado lavrar o seu belíssimo túmulo, que seria colocado num dos transeptos da nave central do Mosteiro de Alcobaça, cidade que a partir de então ficaria quase umbilicalmente ligada a uma trágica e inspiradora história cujos contornos desde sempre se têm ombreado entre o sonho e a realidade...

A tragédia de Inês de Castro tornou-se quase imediatamente fértil inspiração para a literatura portuguesa, inspirando inúmeras e notáveis obras como algumas trovas incluídas por Garcia de Resende (1470-1536) no seu Cancioneiro Geral, o III Canto de Os Lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580) ou a tragédia A Castro, de António Ferreira (1528-1569), tendo esta última servido também de forte inspiração a muitas das obras seguidamente concebidas sobre os amores de D.ª Inês e D. Pedro. Havendo mesmo observadores que algo emotivamente a têm comparado à shakespeareana Romeu e Julieta, dando-lhe a muito subjectiva vantagem de ser uma história real enquanto esta é puramente ficcionada, embora de maneira notável por William Shakespeare (1564-1616), um indiscutível vulto da literatura mundial...

A memória cultural alcobacense tem guardado um lugar muito especial para duas históricas representações daquela tragédia clássica de António Ferreira em Alcobaça, no adro do Mosteiro de Santa Maria, ambas pela afamada Companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro: a primeira em 25 de Agosto de 1935 e a segunda em 30 de Agosto de 1941.

Meritória e mais moderna encenação de A Castro foi também apresentada no Mosteiro de Alcobaça em 30 de Setembro de 1983, por João Mota e a sua Comuna - Teatro de Pesquisa, merecendo aqui também especial referência uma outra representação, mais recente, ocorrida no Cine-Teatro de Alcobaça, em 10 de Março de 2001. Desta vez a peça teatral apresentada foi a também belíssima Linda Inês, escrita pelo transmontano Armando Martins Janeira (1914-1988), então representada pela Acta- Companhia de Teatro do Algarve, com fascinante encenação de Luís Vicente.

Histórica oportunidade cultural seria subtilmente perdida por Alcobaça em 22 de Agosto de 1968, data de uma memorável actuação do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio na escadaria frontal do Mosteiro de Santa Maria. Nessa noite ali foram apresentados os bailados Fantasia Romântica, Um Tema Alentejano e A Ilha dos Amores, não tendo sido infelizmente apresentado um dos mais importantes bailados até então estreados por aquela companhia: Inês de Castro, concebida pelo compositor português Ruy Coelho (1892-1986), facto que a ter-se verificado permitiria àquele espectáculo poder ombrear com a próxima representação operática de 10 de Junho em Alcobaça, ficando a partir de então para a História essa apresentação da Inês de Castro de Giuseppe Persiani (1799-1869) como a primeira ópera desde sempre apresentada num palco de Alcobaça!...

Pesquisa sensivelmente apurada confirmou-me a existência de várias dezenas de óperas dedicadas à tragédia de Inês de Castro, sendo quase unanimemente aceite que esta completa e complexa tipologia musical se começou a definir cerca de dois séculos após o seu assassínio, em 1594, ano em que Jacopo Peri apresentou a sua pastoral Daphne, experiência lírico-dramática na qual se começaram a definir as particularidades do género operático.

Seis anos depois o mesmíssimo Peri apresentaria a sua ópera Eurídice, em Florença, representação a que assistiu um interessado Claudio Monteverdi (1567-1643), compositor com cuja ópera Orpheu, estreada em 1607, se atingiria a emancipação e reconhecimento daquele novo género músico-dramático.

De entre as óperas dedicadas a Inês de Castro, a primeira, escrita por Gaetano Andreozzi (1755-1826), foi estreada em 1793, na lindíssima e envolvente Florença. No ano seguinte, 1794, estrearia em Nápoles a Inês de Castro de Giuseppe Francesco Bianchi (1752-1810), numa época em que aquela cidade era um dos grandes centros operáticos, ali tendo sido também estreada em 1806 uma outra ópera Inês de Castro, concebida por um Giuseppe Farinelli (1769-1836) que pouco terá a ver com o celebrizado castrado Farinelli, nome artístico utilizado pelo afamado soprano italiano Carlo Broschi (1755-1782).

A ópera Inês de Castro de Giuseppe Persiani foi estreada em Nápoles, no seu Teatro S. Carlo, em 28 de Janeiro de 1835, tendo desde logo alcançado enorme sucesso perante o público e a crítica, facto que lhe permitiu estar em cena durante cerca de 16 anos, em mais de 60 produções diferentes... O seu também bem sucedido libreto foi o segundo concebido pelo poeta Salvatore Cammarano, que no mesmo ano escreveu também o libreto para a ópera Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti (1797-1848).

Em Lisboa, o Teatro de S. Carlos assistiria em 1841 à estreia de uma outra ópera Inês de Castro, escrita por Pier Antonio Coppola (1793-1877), marcando a importância então conseguida por aquele Teatro a nível europeu. Os primeiros teatros de ópera portugueses haviam sido edificados durante o reinado de D. João V (1689-1750), postura que culminaria no reinado de D. José I (1714-1777) quando foi construída em Lisboa a mítica e efémera Ópera do Tejo, que infelizmente sucumbiria durante o terramoto de 1755.

Foi já durante o reinado de D.ª Maria I (1734-1816) que um grupo de abonados portugueses decidiu mandar construir em Lisboa um novo teatro de ópera. O projecto do que seria o Teatro S. Carlos de Lisboa foi então entregue a José da Costa e Silva, que estudara em Itália, que o conceberia inspirando-se nos modelos do Teatro S. Carlo, de Nápoles, e do Teatro Scala, de Milão. O nosso Teatro S. Carlos seria estreado em 1793, já no reinado de D. João VI (1767-1826), com a apresentação da ópera italiana La Ballerina Amante, de Domenico Cimarosa (1749-1801).

De entre as várias dezenas de óperas desde sempre dedicadas a Inês de Castro merecem-me também especial referência a concebida pelo compositor português Ruy Coelho, que tal como já escrevi neste texto concebeu também musica de bailado sob o mesmo tema e o mesmo título. Ruy Coelho foi autor de 19 óperas, uma das quais O Serão da Infanta, estreada em 1913, foi a primeira ópera com libreto integralmente escrito em Língua Portuguesa. A ópera em 3 actos Inês de Castro, de Ruy Coelho, foi estreada em Lisboa, em 1953, tendo o seu libreto sido concebido a partir de obras literárias A Castro, de António Ferreira, e D. Pedro, de António Patrício.

Curiosamente, a tragédia de Inês de Castro inspirou também um compositor de música culta contemporânea, James MacMillan, nascido em 1959. A ópera Inês de Castro concebida por aquele autor foi estreada em 23 de Agosto de 1996, na edição desse ano do notabilizado Festival de Edimburgo, pela Scotish Opera Orchestra, com encenação de Jonathan Moore. O seu libreto foi escrito pelo novelista britânico John Clifford, a partir da quase incontornável A Castro, de António Ferreira, facto que terá também justificado a sua apresentação em Portugal a 7 e 9 de Julho integrados no Porto 2001 Capital da Cultura.

Nesse ano, essa ópera Inês de Castro não passou infelizmente por Alcobaça, situação que será certamente ressalvada numa próxima noite de 10 de Junho em que uma outra Inês de Castro, a de Giuseppe Persiani se encarregará de fazer história num belíssimo palco da nossa cidade, servida pela imponente e inspiradora cenografia da fachada principal do Mosteiro de Alcobaça... É mesmo um espectáculo a não perder, por nada neste mundo!!!...

23-05-2006
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