Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Quem é responsável pelo conflito entre os motoristas e as empresas transportadoras?
Os motoristas
As empresas
O Governo
Outros
Não sei
Edição Nº 121 Director: Mário Lopes Segunda, 25 de Outubro de 2010
Editorial
Os quatro pilares da crise
   


Mário Lopes

Nunca, como agora, houve tanta gente confusa com as causas da crise económica. Quase ninguém se entende, nem políticos, nem cidadãos, nem por vezes os próprios economistas quanto às raízes do problema. Na verdade, estamos na presença de uma crise onde se conjugam tanto factores estruturais como conjunturais. O problema é complexo, mas, como em tudo, existem soluções, se houver seriedade e responsabilidade política.

   A entrada da China na Organização Mundial de Comércio e a Globalização

   Nos factores estruturais, dois verdadeiros terramotos económicos abalam actualmente a sociedade ocidental. O primeiro resulta da entrada de países-continente, conhecidos pela sigla BRIC, (Brasil, Rússia, índia e China), no comércio mundial, nomeadamente, a China, em 2001, com factores de produção e mão-de-obra que chegam a ser 10 vezes inferior aos seus congéneres ocidentais, inviabilizando assim qualquer hipótese de concorrência. 

   A entrada da China na OMC, com o apoio unânime dos 142 estados-membros, após 15 anos de negociações – deveu-se à crença da classe política mundial de que a abertura das fronteiras do outrora Império do Meio iria representar uma abertura sem precedentes dos mercados do País. A ideia era tão consensual que foi aprovada em 10 de Novembro de 2001, em Doha, no Katar, numa sessão que durou poucos minutos, sem consciência de que se estava a dar início a um virar de ciclo com consequências devastadores a nível e económico e social nos países ocidentais. 

   Para os políticos ocidentais da época, a entrada da China na OMC representava a abertura de um fantástico mercado de mais de mil milhões de consumidores. O potencial de concorrência da República Popular da China foi desvalorizado, tratando-se, grosso modo, de sacrificar o mercado dos têxteis (ou “trapos”, como ouvi um autarca recém-regressado de uma viagem à China classificar) por tudo o resto, incluindo negócios milionários como telecomunicações e aviões. Mike Moore, então presidente da OMC, declarava à BBC que a adesão da China seria boa para todos, pois a partir de agora a China teria de estar sujeita a regulamentação exigente. 

   Ora, o País da Grande Muralha rapidamente demonstrou que não estava disposto a escancarar as portas do seu mercado e assistir passivamente à invasão de produtos estrangeiros. Hoje, a China produz tudo o que seja baixa e média tecnologia, ou seja, a grande maioria dos bens transaccionáveis: de têxteis a automóveis, de electrodomésticos a telemóveis, não só para abastecer o seu gigantesco mercado interno como o mercado mundial. Apenas a alta tecnologia de ponta escapa actualmente aos fabricantes chineses, mas ninguém duvide de que não faltará muito até a China deixar de importar Airbus europeus e passar a fabricar os seus próprios aviões. Naturalmente, muito mais baratos, correndo a Europa então o risco de passar de exportador a importador. 

   Dizem alguns economistas que este ajustamento após a abertura de mercados sempre existiu e até há quem dê o exemplo da abertura do mercado britânico às exportações de têxteis portugueses, nos anos 70, contestada pelos empresários britânicos por colocar os seus produtos em forte desvantagem competitiva. Tudo isso é verdade, só que há uma “pequena nuance”: as exportações portuguesas ou de qualquer outro país, pequeno ou médio, não passaram de uma gota de água no mar da economia mundial. Quanto muito, produzem uma febre ligeira e passageira nas economias para onde exportam. 

   Pelo, contrário, as exportações de um País-continente, com 1300 mil milhões de habitantes, podem deixar de rastos economias inteiras, destruindo um a um quase todos os sectores vitais das economias de muitos países. Não só o volume comercial é gigantesco, como a competição entre os próprios empresários chineses conduz a preços arrasadores, que nenhuma empresa no resto do mundo consegue enfrentar. Naturalmente, a competitividade da economia chinesa no mercado mundial não é mérito (apenas) dos empresários chineses. Na verdade, dispõem internamente de condições que nenhum País ocidental dispõe: reduzidas exigências ambientais, baixos salários, inexistência de contribuições para a Segurança Social, preços reduzidos das matérias-primas e subsídios às exportações. 

   Por outro lado, esta envolvência empresarial favorável levou também a uma migração maciça de milhões de empresas de todo o mundo para a China, levando ao despedimento ou à não criação de milhões de empregos no resto do mundo. O resultado é um crescimento da China em cerca de 10% na última década, contra os crescimentos anémicos na maior parte dos países ocidentais. Portugal incluído. 

   O que fazer então? Restam duas alternativas. A primeira passa por manter o status quo, aceitando um longo e doloroso ajustamento dos mercados mundiais, que, provavelmente, se arrastará por mais duas décadas e conduzirá a uma crise crónica nos países ocidentais. 

   A segunda, que continua inexplicavelmente fora das agendas políticas dos políticos ocidentais, passa pelo regresso à mesa das negociações para uma nova regulação mais justa e equitativa dos mercados. Trata-se de uma opção difícil e complexa, que envolve inúmeros interesses, muita coragem política e problemas jurídicos, o que, provavelmente, justifica a ausência de discussão do tema por parte dos líderes mundiais ocidentais. Ninguém se quer meter num assunto complexo, que exige muito tempo e trabalho, paciência e solidariedade política dos países ocidentais, sem qualquer garantia de êxito, à partida. Contudo, a alternativa é a decadência e a crise no Ocidente instalada durante décadas. 

   A crise demográfica

   A juntar à crise da Globalização, junta-se a crise demográfica, um problema estrutural que afecta particularmente Portugal, a braços com uma redução dramática da taxa de natalidade. O problema afecta a economia, que terá de recorrer à imigração de trabalhadores para compensar a falta de mão-de-obra no País, mas também e, drasticamente, a Segurança Social e o próprio conceito de Estado Social, como tal o concebemos nas últimas décadas. 

   Com cada vez menos jovens nascidos (1,32 filhos por mulher, quando a regeneração das gerações implicaria uma taxa de 2,1), por via das exigências cada vez maiores colocadas aos novos pais (maior número de anos de escolaridade e maior exigência de bem-estar dos filhos, com o consequente acréscimo de custos), e cada vez mais idosos, por via da melhoria da informação e oferta de cuidados de saúde, irão restar cada vez menos recursos para distribuir pelos mais necessitados. 

   Já hoje, o Estado Social não é sustentável, com o Governo a ter de pedir regularmente dinheiro emprestado aos credores estrangeiros para poder assumir as suas obrigações: funcionamento do aparelho de Estado (nomeadamente, Saúde, Educação, Poder Local e forças de segurança), salários da Função Pública, pensões, subsídios de desemprego e rendimento social de inserção (cerca de 600 mil actualmente).

   Por isso, o País tem também duas alternativas: ou continua com a mesma taxa de natalidade e será obrigado a diminuir drasticamente o orçamento do Estado, com reduções de salários dos funcionários públicos e os apoios sociais (o que já está a acontecer) e das pensões, além da qualidade dos serviços públicos para não se continuar a endividar ou, então, providencia incentivos para aumentar a taxa de natalidade. 

   Neste capítulo, já defendi noutro artigo o pagamento de uma prestação única, universal, por nascimento, como fizeram a Alemanha e a Espanha. Não será com aumentos de 10 ou 20 euros no abono de família, como fez este Governo, que qualquer casal se sentirá estimulado a aumentar a família. Por outro lado, privilegiar o apoio à natalidade a casais sem rendimentos próprios - desempregados de longa duração ou pessoas com rendimento mínimo – como também fez este Governo, não contribui em nada para uma parentalidade responsável, obrigando, muitas vezes, o Estado a ter de assumir generosos subsídios sociais durante longos anos, colocando ainda mais em causa a sustentabilidade da Segurança Social. 

   A crise do sub-prime

   Nos factores conjunturais, temos a crise no sistema bancário, traduzida numa economia de casino, onde as poupanças das pessoas foram utilizadas de forma irresponsável e fraudulenta, perante a passividade de governos e reguladores. Gestores bancários de todo o mundo, àvidos de lucros fáceis à custa das poupanças de milhões de pessoas que as confiaram aos bancos, perante a complacência de governos e reguladores, contribuíram para o descrédito do sistema bancário mundial e para a crise que afecta Portugal e o mundo.

   Todavia, parecem-se insuficientes as medidas tomadas para moralizar o sistema bancário internacional, não tendo havido, nomeadamente, coragem para acabar com os paraísos fiscais, que mais não são do que expedientes usados pelas grandes empresas e por milionários para fugirem ao pagamento de impostos nos seus países de origem, além de servirem para o branqueamento de dinheiro e a protecção de actividades criminosas, como o tráfico de droga e o terrorismo. 

   Este é um dos exemplo acabados da necessidade de um governo mundial que, estou certo, acabará por acontecer mais cedo ou mais tarde. É uma inevitabilidade: recursos e problemas globais não podem ser resolvidos apenas por entidades locais ou regionais. Contudo, por inércia, miopia política, egoísmo e falta de coragem política, continuamos com uma ordem internacional saída da II Guerra Mundial, perfeitamente anacrónica e obsoleta.

   A política do Governo

   O segundo factor conjuntural e quarto pilar da crise é, na minha opinião, a política do Governo. A política, como qualquer actividade humana, produz resultados e bem-estar para a população a longo prazo se for encarada com trabalho e seriedade. Como na medicina, na química, na matemática, na agricultura ou na economia,  também na política o trabalho e o estudo em profundidade são a chave para o êxito. Contudo, para mal dos povos, por vezes surgem actores políticos especialmente talentosos na arte do parecer, que conseguem fazer crer aos cidadãos capacidades que não têm. 

   Quem não se lembra de Collor de Mello no Brasil e o seu fantástico slogan eleitoral “vamos opor à bandeira vermelha (de Lula da Silva) a bandeira do Brasil!”, de Berlusconi e dos sucessivos escândalos que envergonham a Itália ou do populista e omnipresente Chavez, na Venezuela? Todos eles são óptimos comunicadores, conseguem uma excelente empatia com o povo, mas o tempo se encarregou de provar que não passam de péssimos governantes. 

   Em Portugal, José Sócrates tem esse dom da comunicação: as políticas mais abstrusas, ziguezagueantes e inconsequentes são sempre explicadas com o mesmo ar sereno, o mesmo discurso bem articulado, uma dicção sem falhas, um tom magnético e convincente. Com ele, até o Diabo seria convencido a usar crucifixo ao peito.

   Ora faz passar a mensagem do “deixem-nos trabalhar” e do “estamos a puxar o País para a frente”, quando se trata de novas iniciativas, ainda que sejam completamente absurdas, como inaugurar auto-estradas onde quase não há pessoas ou decretar um pequeno aumento do abono de família “para que todas as famílias possam ter os filhos que quiserem!”, ora faz passar a mensagem da inevitabilidade das suas políticas, geralmente, recorrendo a uma ideia simples, mas grosseira ou mesmo falsa, como opor os alegados interesses corporativos dos professores ao das famílias (como se os professores não fossem também pais) ou construir um TGV para não ficarmos isolados da Europa, mesmo sem dinheiro (como se não existissem aviões e comboios convencionais) . Num País onde o nível de instrução é tão baixo e se estuda tão pouco os problemas, todo este discurso oco, mas bem apresentado, consegue passar. 

   Lamentavelmente, cada vez mais os eleitores se defrontam com os chamados “bons comunicadores”, que mais não são do que os velhos vendedores de banha da cobra, agora com a mensagem amplificada pelos meios de comunicação social. A política transformou-se num grande ”reality show”, onde o que conta é impressionar o espectador, não sendo necessário estudar nada em profundidade nem sequer ouvir quem sabe. A política vive do efémero, das “performances” dos políticos na televisão e dos comentadores que, na sua grande maioria, opinam sobre tudo sem nada ou quase nada estudarem. 

   Neste aspecto, políticos e comentadores estão bem uns para os outros, comenta-se o que parece e só é preciso ficar bem no boneco e dizer umas frases de belo efeito para se conseguir o estatuto de herói (quem não se lembra do debate em que Sócrates, com ar de virgem ofendida, acusou Louçã de atacar a classe média por propor o fim das deduções fiscais (defendendo este como contrapartida a redução da fiscalidade sobre os salários) para, logo depois de ganhar as eleições, o mesmo primeiro-ministro vir reduzir essas mesmas deduções fiscais, que irão agora ser ainda mais reduzidas?). Então, os comentadores realçaram desde logo a tirada de génio do estadista José Sócrates, com a consequente subida nas sondagens.. 

   Estes “tudólogos” desqualificados continuam por aí, passeando a sua ignorância como se nada fosse e exibindo o mesmo estatuto de estrela do entretenimento político. Naturalmente, como em qualquer reality show, não é preciso saber nada para se ser estrela, só é preciso ser-se conhecido. E como já são conhecidos, não conseguimos mais livrar-nos deles... Um destes "líderes de opinião" afirmou mesmo estarmos perante o melhor primeiro-ministro de todos os tempos! Não nos espantemos, portanto, por José Sócrates ter ganho novamente as eleições. Muita comunicação social andou com este PM ao colo para o manter no poder, contra todas as evidências (as casas da Guarda ou a forma como obteve o diploma de licenciado, só por si, eram mais do que suficientes para fazer soar as campaínhas de alarme) . Ao que parece, mudaram entretanto de opinião, mais não seja porque a desgovernação também lhes foi ao bolso, mas agora é tarde, Inês é morta!

Aliás, é frequente ver comentadores de política, à terça-feira, comentarem futebol, à quarta-feira, e vice-versa. Tudo, claro, com a maior das naturalidades. No País das Novas Oportunidades, tudo se aprende num ápice e confere acreditação. Haja gente ingénua para comer, calar e  se for preciso, bater palmas…
   
   O PEC III


   O anúncio do chamado PEC III ou terceira edição do Programa de Estabilidade e Crescimento, que mais não é do que a confissão de que Portugal iniciou o seu caminho inexorável para o regresso à pobreza do século passado, é o corolário desta estranha forma de fazer política. Os salários da Função Pública, os abonos de família, o IVA ou o IRS sobem e descem como se a política se comparasse à arte do ilusionismo. Nada se estuda com seriedade e profundidade, tudo se promete quando convém, sem qualquer sustentabilidade financeira, para logo se retirar dois ou três meses depois. A culpa, claro, é da crise financeira internacional ou dos especuladores, que têm as costas quentes…

   A penalização dos funcionários públicos é, a meu ver, injusta e injustificável. Em primeiro lugar, não se percebe porque razão se reduzem apenas os salários aos funcionários públicos. Se o Governo precisa de receitas, seria mais lógico aumentar o IRS de toda a gente, trabalhadores do sector público e privado, distribuindo assim o mal pelas aldeias. É verdade que outros países já haviam tomado medidas idênticas, mas os salários dos funcionários públicos portugueses são claramente inferiores aos espanhóis, irlandeses ou mesmo gregos. Se havia margem para corte nos salários nestes países, no caso português não me parece, dado que são salários de subsistência, na sua grande maioria. 

   Por outro lado, não é honesto comparar, de forma cega, os salários do sector privado com o do sector público, para concluir que estes são superiores. Naturalmente que são, uma vez que a maior parte dos funcionários públicos são trabalhadores qualificados – médicos, enfermeiros, professores, juízes, etc. – pelo que os seus salários não podem ser comparados com os do sector privado, onde predominam ainda as profissões não qualificadas. Portanto, ao contrário do que se quer fazer muitas vezes fazer crer, em matéria salarial, os trabalhadores da Função Pública não são seguramente privilegiados. 

   Por outro lado, a redução dos rendimentos dos funcionários públicos será muito superior aos 5% anunciados pelo Governo. A estes há que somar o 1% no aumento dos descontos para a Caixa Geral de Aposentações, o 1,5% nos descontos para o IRS, a drástica redução dos benefícios fiscais em sede de IRS, a supressão dos abonos de família, os 2% do aumento do IVA e os 2,2% por cento de inflação. Tudo isto sem contabilizar os eventuais aumentos nos preços dos combustíveis e no crédito à habitação. Tudo somado, a redução de rendimentos dos funcionários públicos poderá oscilar entre os 15 e 20%! 

   Ora um valor desta ordem de grandeza não respeita minimamente os trabalhadores da Administração Pública que, de repente, se vêm despojados dos rendimentos que lhe permitiam satisfazer compromissos assumidos por muitos anos, como empréstimos bancários para a compra de casa ou automóvel, os estudos dos filhos ou a assistência a familiares idosos, doentes ou deficientes. 

   Ao invés, enquanto as famílias agonizam perante a prepotência do Governo, este continua a gastar sem rei nem roque, como temos lido e ouvidos nas últimas semanas. A despesa pública continua a aumentar, apesar do sacrifício da esmagadora maioria dos portugueses e nada garante que não vá haver um PEC IV. Esta situação é intolerável e não pode continuar. 

   A taxa de natalidade

   José Sócrates seguiu uma política errada, concedendo incentivos aos muito pobres para terem filhos e ignorando a classe média. Ora, não parece lógico que o Estado incentive os indigentes a terem muitos filhos e desincentive a classe média de ter filhos. A consequência é que, no futuro, será o Estado a arcar também com todas as despesas das crianças nascidas em famílias sem recursos próprios, que vivem à base do chamado Rendimento Mínimo, até à idade adulta, uma vez que estas não terão capacidade para as sustentar. 

   A anunciada retirada do já simbólico abono de família à classe média (4º e 5º Escalão) preconizada agora pelo PEC III representa mais uma irresponsável machadada na taxa natalidade que compromete a sustentabilidade futura do Estado Social. 

   Sem crianças, não haverá no futuro pessoas em número suficiente para trabalhar e, consequentemente, não haverá dinheiro suficiente para pagar as pensões dos actuais e futuros aposentados. A taxa de natalidade em Portugal está em níveis absolutamente alarmantes e este Governo segue políticas erráticas e inconsequentes, ora anunciando apoios sem qualquer sustentabilidade ora retirando-os, por vezes, ainda antes de entrarem em vigor, ao sabor dos ciclos eleitorais ou das necessidades de limitar os défices anuais. Um problema desta importância merecia mais seriedade e respeito. 

   Mas as contradições deste Governo no capítulo da natalidade não acabam aqui. Vieira da Silva, na minha opinião, um dos piores ministros deste Governo, enquanto concedia alguns aumentos de abono de família (embora mal, como já demonstrei) e promovia a construção de mais creches, aprovava um Código do Trabalho que obrigava os trabalhadores (nos quais se incluem as mães) a trabalharem até 60 horas por semana, em alturas em que tal se afigure mais conveniente para as empresas. 

   A não ser que este Governo queira que as creches permaneçam abertas até à meia-noite (depois da “escola a tempo inteiro”, teríamos agora as creches a tempo inteiro), não sei onde deixarão as mães os seus filhos, neste regresso civilizacional ao trabalho de sol a sol. Seguramente haverá empresas com necessidade sazonais de trabalho extraordinário, mas não me parece que seja esta medida frontalmente anti-natalidade que sirva os interesses do País a longo prazo. 

   Justiça

   Uma palavra também para o crescente desprestígio do sistema judicial (com a péssima qualidade da legislação que se produz na Assembleia da República, que já mereceu, e bem, reparos do Presidente da República).

   Recentemente, a deputada do PS Ana Catarina Mendes criticou o seu próprio grupo parlamentar por ter aprovado à pressa um corte de 5% no vencimento de alguns políticos, deixando outros de fora. Aliás, eu fico estupefacto como aparecem frequentemente, pouco depois de um qualquer caso mediático, projectos de lei na Assembleia da República em 48 horas! Então as leis não têm de ter um tempo de maturação e de reflexão? Se as obras públicas ou os PDM’s têm de ter um tempo de consulta pública, porque é que as propostas legislativas, que têm um impacto enorme na sociedade, não têm de estar sujeitas a um tempo de apreciação pública? As associações da sociedade civil não se devem pronunciar? A Ordem dos Advogados e as associações de juízes? Os cidadãos não devem ser auscultados? 

   Mesmo depois de aprovadas , as leis não devem ter um tempo suficientemente dilatado para entrarem em vigor, para que advogados, juízes e cidadãos as possam estudar? Quem não se lembra da entrada em vigor do último Código do Processo Penal, em apenas 15 dias, perante o coro de protestos de juízes e advogados?! 

   Se a propostas legislativas fossem devidamente maturadas e escrutinadas, seguramente não haveria tanta legislação de má qualidade, cheia de erros técnicos, imprecisões, omissões, incongruências e falta de adesão à realidade. Isto sem falar na redacção das leis, cheias de artigos abstractos e linguagem hermética que ninguém entende e se prestam às mais variadas interpretações, fazendo os cidadãos perderem tempo, dinheiro e fé na Justiça. Ou até na sua inexequibilidade porque conflitua com outra legislação ou ainda porque, pura e simplesmente, não existem condições materiais para a sua execução. E quando uma lei não passa do papel por não se conseguir aplicar ou ninguém a consegue interpretar de forma clara, é o próprio Estado de Direito e a democracia que ficam em causa. 

   Educação

   A política educativa deste Governo poderia resumir-se numa expressão: fogo de vista.. A obsessão mórbida pelas estatísticas não teve qualquer respaldo na melhoria da aprendizagem dos alunos. Continua a privilegiar-se a quantidade e não a qualidade: mais escolas, mais cursos, mais alunos e pouca qualidade das aprendizagens. Uma pressão incompreensível e ineficaz sobre os professores, obrigados a trabalhar horas sem fim para satisfazer uma burocracia inútil.

   Enquanto isto, assistiu-se a um laxismo irresponsável quanto aos deveres dos alunos, cuja cereja em cima do bolo foi o anterior Estatuto do Aluno, que dava o direito aos alunos de nem sequer aparecerem nas aulas. Aliás, nem sequer o dever de aparecer na prova de recuperação, tendo o professor a obrigação de realizar provas sem fim até que o aluno se dignasse aparecer! O absurdo é a palavra que melhor define o mandato de Maria de Lurdes Rodrigues à frente do Ministério da Educação. Esta foi apenas uma das pérolas com que os professores tiveram de se confrontar durante 4 anos. 

   Por outro lado, a escola tem-se vindo a despojar cada vez mais de recursos humanos, com menos professores, menos auxiliares de acção educativa e, sobretudo, menos técnicos especializados, absolutamente essenciais no acompanhamento dos casos problemáticos e alunos com necessidades especiais. Os edifícios escolares podem ser importantes, mas são seguramente muito menos importantes que os profissionais de educação. Também aqui este Governo fez a aposta errada. 

   De ilusão em ilusão até à factura final
 
É verdade que o Governo não é o único responsável pela crise que afecta o País e a maior parte dos países da Europa: as regras actuais da Globalização e as alterações demográficas - com o decréscimo acentuado do número de nascimentos e o aumento constante da longevidade - contribuem fortemente para o colapso do Estado Social, tal como nos habituámos a conhecer nas últimas décadas. O mundo mudou e de forma irreversível, nada voltará ser como dantes. Todavia, apesar das variáveis externas e internas desfavoráveis, muito se poderia fazer, pelo menos, para as minimizar. As medidas que este Governo tomou ao longo deste cinco anos, pelo contrário, passaram ao lado dos grandes problemas e necessidades do País. A factura aí está para os portugueses pagarem. Sem truques de ilusionismo político que nos valham.

   Mário Lopes
25-10-2010
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Comentário de penteacrinus penichensis
04-11-2010 às 14:18
Parabens !O melhor artigo sobre o estado das artes em Portugal e no Mundo. Aposto que quem o escreveu não obteve diploma nas novas oportunidades nem foi colega de carteira dum tal enghenheiro na tal universidade.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
EDITORIAL
Os quatro pilares da crise
Mário Lopes
OPINIÃO
Desesperada Esperança
Valdemar Rodrigues
A Ota está no mesmo sítio mas onde andam as medidas de compensação?
Ricardo Miguel
Um ano depois com Paulo Inácio e sem Gonçalves Sapinho… tudo na mesma em Alcobaça
Jorge Esteves de Carvalho
A Câmara do Bombarral retirou aos trabalhadores o direito de mudarem de posição remuneratória atribuído pelo anterior executivo
Helena Santos
Não percebem!
Aurélio Lopes (1º subscritor)
Complexos Sociais Locais (CSL). O caminho do futuro?
José Marques
Um ano depois ou quatro mais um depois
José Acácio Barbosa
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o