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Edição Nº 89 Director: Mário Lopes Quarta, 5 de Março de 2008
Opinião
De jesuíta a “imperador”: erudição e pluralidade em António Vieira

   


Aldinida Medeiros

Em 1608, a 6 de Fevereiro, nascia, na Rua do Cónego, perto da Sé de Lisboa, aquele que viria a ser não só um grande defensor dos dieritos humanos, em pleno século XVII, mas também o principal defensor da população indígena do Brasil enquanto colónia portuguesa. Estamos a falar do Padre António Vieira, a quem os índios chamavam paiaçu, que na língua tupi quer dizer “grande pai”. Antes, porém, de compreender s singularidade e a genialidade de António Vieira, é preciso compreender o quão importante foi sua dedicação à vida jesuítica, levando-a como grande missão até ao fim dos seus dias, quando falece em Salvador (Brasil), em 1697.

 

    Ao longo dos séculos XVI e XVII várias missões católicas foram criadas pelos jesuítas na América do Sul. Surgidas no século XIII, essa evangelização e catequese desenvolveu-se principalmente nos séculos XV e XVI, no contexto da expansão marítima européia. O papel e o trabalho dos jesuítas, nesse contexto, vai ser de extrema importância. O filme A missão mostra, no século XVIII, na América do Sul, um mercador de escravos indígenas (Roberte De Niro), arrependido pelo assassinato de seu irmão; e que por isso, em auto-penitência, converte-se a missionário jesuíta em Sete Povos das Missões, região da América do Sul reivindicada por portugueses e espanhóis, palco das "Guerras Guaraníticas”. No filme, Jeremy Irons interpreta o jesuíta Pe. Gabriel, pesonagem que sintetiza bem os valores e o ideário da Compahia de Jesus.

    Pe. Gabrel lembra, em muitos aspectos, a luta de Vieira, que se  destacou não só como protetor dos índios, mas defendeu também outras causas humanas. Nào é por acaso, portanto, que neste ano de 2008 tanto o Brasil como Portugal celebram homenagens a este jesuíta que, além de grande humanista foi também grande orador.

    António Vieira é desses que maravilhou em sua época a todos que o conheceram. E vai continuar a encantar toda a gente que ler seus textos. Apesar de sua origem humilde, conseguiu um lugar de destaque, tanto para lidar com a nobreza, quanto com o clero. Sua biografia diz que: “[...] Seu pai se mudou em 1609 para o Brasil, onde assumiu um cargo de escrivão em Salvador; em 1614 trouxe a família para o Brasil quando Antônio tinha 6 anos de idade. Antônio estudou na única escola de Salvador da época: a dos jesuítas. Consta que não era um bom aluno no começo, mas depois se tornou brilhante. Juntou-se a Companhia de Jesus como noviço em maio de 1623. Existem muitas lendas sobre Vieira, incluindo que na juventude sua genialidade lhe fora concedida por Nossa Senhora e que uma vez um anjo lhe indicou o caminho de volta à escola quando estava perdido. [...]” (http://www.e-biografias.net/biografias/antonio_vieira.php)

    Personagem do recente livro A eternidade e o desejo, de Inês Pedrosa, Vieira é também protagonistas de três produções cinematográficas: dois filmes brasileiros e um documentário português. O livro de Inês Pedrosa fala sobre dois temas, os quais o jesuíta discute num dos seus muitos sermões: a eternidade e o desejo, que dá título ao livro. Sobre isto, a escritora portuguesa diz: “Essa citação e o sermão do qual faz parte surpreenderam-me particularmente. A frase que foca a eternidade e o desejo pareceu-me sintetizar muito bem o tema central do meu romance, que dividi em duas partes, de acordo também com a citação. Uma das facetas para mim mais misteriosas do padre é o facto de ele nunca ter tido, que se saiba, uma paixão terrena. Sempre me questionei como era possível, uma vez que era um homem tão intenso, tão visceral e flamejante. mas de facto canalizou a sua paixão para o império celeste, para o Quinto Império, também para o seu rei e para a diplomacia em que esteve sempre envolvido. Neste sermão diz que a eternidade e o desejo são a mesma coisa.” (http://www.agencia.ecclesia.pt/ecclesiaout/snpcultura/vol_ines_pedrosa_padre_antonio_vieira.html).

    O que Inês Pedrosa diz sobre o jesuíta não é novidade para alguns dos pesquisadores que se debruçam, sobre a obra de Vieria. São muitos os sermões escritos pelo Padre, e sobre os mais variados temas. Todos sempre com um carácter singular de erudição. Deles sobressaem-se o Sermão da Sexagésima, Sermão de Santo António e o Sermão do Bom Ladrão, apesar dos muitos outros que deixou publicado. Além dos sermões, deixou também um livro de profecias, o Clavis Prophetarum, o qual não concluiu.

    O Sermão do Bom Ladrão, do qual trazemos aqui um trecho fala, entre outras coisas, da justiça e de como os reis e os homens comuns estão todos sujeitos à justiça divina: “[...] Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: [...]. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os  levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. [...]” (http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT2803039.html).

    Foi exactamente a erudição de Pe. Vieira que lhe salvou do Tribunal do Santo Ofíci, bem como lhe deu também grande prestígio em Portugal, apesar de nem sempre ter sido bem visto na corte portuguesa e de ter estado em situações de risco e descrédito em vários períodos.  Um facto curioso é que em Roma, em 1674, Vieira é convidado pela ex-rainha da Suécia, Cristina, que ouvira falar da sua fama de orador, para um desafio de oratória com o Pe. Jerónimo Catâneo. Este fora conidado para defender o riso, e António Vieira defenderia o choro.

    Nessa ocasião, em sua oratória diz: “[...] Demócrito ria, porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava, porque todas lhe pareciam misérias: logo maior razão tinha Heraclito de chorar, que Demócrito de rir; porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias, e não há ignorância que não seja miséria [...]” (http://www.vidaslusofonas.pt/padre_antonio_vieira.htm). Para mais explicar essa facilidade para a oratória e a erudição com que a construía- claro está que com base nos conhecimentos de filosofia e teologia – basta dizer que somente no Sermão da Sexagésima ele cita com maestria de conhecimentos: Aristóteles, Cícero, Quintiliano, ao lado dos oradores da Igreja, S. João Crisóstomo, S. Basílio Magno, S. Bernardo e S. Cipriano, dentre outros.

    Mas sua versatilidade não se restringe à escrita. Esteve, durante muito tempo, envolvido na política e na diplomacia portuguesa, depois de ter lecionado e catequizado durante um bom período no Brasil. Quer fosse em Espanha, Roma, Haia, ou aonde quer que lhe enviassem em missão pela coroa portuguesa, convertia sempre as questões em favor da causa que advogava . Teve grande prestígio e influência na corte de D. João IV: “[...] tinha entrada franca no paço, assistia às conferências do rei com os ministros, vivia nas secretarias de Estado, e os tribunais e juntas eram obrigados a ir conferenciar com ele, cujo parecer era apresentado por escrito ao rei. [...]” (http://www.arqnet.pt/dicionario/vieira_antoniop.html).

    Pe. Vieira é visto como um homem que atuou em várias frentes; destas muitas sobressaem-se as atuações de orador sacro,  profeta do rei e a do missionário no Novo Mundo. Suas postura profética rendeu-lhe o status de criador do “Quinto Império”.  A teoria do Quinto Império e a visão messiânica – ou profética - de Pe. Vieira influenciam até hoje à literatura Portuguesa. Mais do que uma utopia, a concepção de Vieira sobre o Quinto Império foi uma forma de forma de legitimar o movimento autonomista português. E se Camões engrandeceu Portugal com Os Lusíadas, também o fez Vieira com o seu desejo de ver Portugal livre dos domínios de Espanha, projectando o reino português como um quinto império – tão grande como os outro quatro: assírios, medos, persas e romanos. 

    Portanto, dos predicativos quer permeiam a vida e a obra do famoso orador jesuíta, que viveu boa parte de sua vida no Brasil, o que mais se nos convém é destacar sua erudição e pluralidade. Seu interesse perpassa vários ramos do saber, os quais vão desde a ética, a filosofia política, a antropologia e a filosofia da história. Por tudo isto, não é por acaso que Fernando Pessoa o denominou “Imperador da língua portuguesa”. E quem ousaria discordar de Pessoa?

    Aldinida Medeirosa
aldinidamedeiros@yahoo.com.br 

05-03-2008
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Comentário de Edilson Melo
30-04-2009 às 23:22
Essa professora é show de bola.
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