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Edição Nº 16 Director: Mário Lopes Quinta, 30 de Março de 2006
Opinião
Ambições e ilusões do Património Mundial

Rosalina Melro 

O mundo gira em torno de muitas realidades e de alguns sonhos. Ser ou não ser Património Mundial foi o dilema com que Santarém, a Capital do Gótico, se debateu ao longo da última década do século XX.

A ideia de um projecto de candidatura aparece nos anos oitenta num breve artigo da imprensa local escalabitana em que se chama a atenção para a singularidade de estarem presentes nos monumentos escalabitanos exemplares notáveis da arquitectura e da arte de todas as fases do Gótico, desde a transição do românico, patente em S. João do Alporão, desde os traçados primitivos do gótico mendicante de S. Francisco, até ao flamejante trabalho artístico do maravilhoso templo dos frades gracianos calçados de Santo Agostinho, a conhecida Igreja da Graça, onde repousam os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, o achador do Brasil.

A ideia viria a ser a pedra de toque do político, eleito para presidir ao município, em 1997, cargo que exercia desde há algum tempo por substituição do anterior presidente, cargo que ocupou até às eleições de 16 de Dezembro de 2001. Assim, a Candidatura de Santarém a Património do Mundo foi, ora beneficiada, ora vitimada, por ter nascido e ir sendo utilizada, quer como motivo de investigação histórica, quer como projecto político-turístico, quer como propaganda eleitoral.

A motivação política para a Candidatura de Santarém a Património Mundial deu aso a acusações que se encontram na imprensa periódica da região, ao longo da evolução da carreira política do autarca José Miguel Noras, que marcou um período da vida local. Todavia, este não terá sido o principal motivo dos desaires e dos atrasos na aprovação da candidatura que viria a recolher apreciações polémicas de diversos especialistas da história da arte.

O dossier da candidatura, entregue ao Ministro da Cultura, em sessão solene que decorreu na Sé, a 24 de Junho de 1998, é material de grande complexidade e altos custos, nem todos inscritos nas contas camarárias. Também a temática abordada no texto da primeira candidatura, foi envolvido em misteriosos sigilos. O slogan identificador da candidatura, baseado num autor francês, fala do espírito do lugar. Mas o projecto da Candidatura mereceu o aplauso de todos os representantes de forças políticas com assento no executivo da Câmara Municipal de Santarém.

Sob o patrocínio da unanimidade política, a candidatura foi sendo concretizada sem ter merecido a adesão dos habitantes da cidade e do concelho. Estranhava-se a não participação de personalidades com obra notável e com créditos premiados em Portugal e no estrangeiro. A arrogância do director, o seu isolamento, não favorecia a conquista de novos aderentes. Chegavam ecos das fragilidades da argumentação e da recusa de elementos do ICOMOS no reconhecimento de Santarém. Entretanto, a cidade era descaracterizada por graves erros urbanísticos, para uma séria candidata ao título da UNESCO.

Os volumosos livros e a complexidade do texto da candidatura não lograram conquistar nem os favores dos comités nacional e internacional da UNESCO, nem a simpatia e o amor das populações urbanas e rurais do Concelho de Santarém para quem deveria ter sido, desde o início a sua Candidatura.

O desenvolvimento infeliz de um trabalho isolado que procurou ser exaustivo, mas ao qual faltava a credenciação científica de especialistas das épocas e dos vários assuntos abordados, a ambição intelectual dum homem que, será um trabalhador de reconhecidos méritos na área do património industrial, mas que cometeu o erro de se fechar a outras opiniões numa matéria tão alargada, nos tempos e nas especialidades, como foi o projecto da candidatura do Centro Histórico de Santarém a Património Mundial, iriam custar caro a Santarém.

Como foi logo divulgado pela comunicação social, esta Candidatura, viria a ser aconselhada a recuar, em Dezembro de 2000, quando os técnicos responsáveis pelo Gabinete de Candidatura e representantes da autarquia se dirigiram à UNESCO na sua sede de Paris. O tempo rodou e outras candidaturas foram sendo aprovadas em território português.

Santarém, perde a unanimidade dos seus políticos. Todavia, o gabinete e a Câmara aceitam mudar a focalização dos patrimónios a apresentar numa segunda candidatura, agora dirigida, também por uma arquitecta paisagista, que se junta à equipa do historiador e director do gabinete de candidatura, Jorge Custódio.

No decorrer da campanha eleitoral para as eleições autárquicas de Dezembro de 2001, a CDU retira o seu apoio ao projecto com os seguintes argumentos: - A Candidatura não tinha sido bem conduzida, porque a população não fora envolvida, nem ouvidos os poucos escalabitanos que sobre o assunto se tinham pronunciado. Os recursos financeiros, gastos no projecto, tinham afectado o avanço de outras iniciativas prioritárias para as populações: saneamento básico, estradas, habitação social, etc. Apesar do recente protocolo, envolvendo outras autarquias da lezíria, o projecto não é conhecido pelas populações ribeirinhas.

Santarém parece deixar adormecer ou está a esconjurar o espírito do lugar. Timidamente surgem cartazes anunciando a cidade como o Templo do Rio. Mas o casario continua arruinado. Também esta Candidatura não tem o aplauso nem das populações rurais nem dos moradores do centro histórico que, apresentaram já ao actual presidente da Câmara, o socialista Rui Barreiro, a sua recusa no traçado proposto para o Centro Histórico de Santarém. O novo presidente propõe: Recuperar para classificar! Entretanto, o Governo tem de decidir que património português se candidata em 2002 a Património Mundial. Será Santarém?

29/01/02

30-03-2006
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