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Edição Nº 211 Director: Mário Lopes Terça, 10 de Julho de 2018
Centenas de figurantes encarnam personagens de Leiria de outrora de 19 a 22 de julho
Leiria Medieval vai recriar casamento real
com entrada para a boda gratuita
  
                            Cartaz
Que maior festa poderia Leiria receber do que uma boda real? As ruas e praças começam a engalanar-se, sacode-se o pó ao melhor linho e varre-se o soalho, que aproxima-se uma grande festa. E é real. Durante quatro dias, a cidade volta aos tempos medievais. De 19 a 22 de julho, centenas de figurantes encarnam personagens de Leiria de outrora. Mercadores, nobres, plebeus, mercadores, artesãos, místicos e artífices dão vida a uma época em que Leiria assumiu papel decisivo na edificação da pátria lusa.

   “1401: Aqui nasceu a Casa de Bragança” é o tema da edição deste ano, que vai beber à história a memória de um dos casamentos mais simbólicos de sempre e que deu origem à “fundação” da Casa de Bragança, ocorrido precisamente em Leiria.

   A cidade vai testemunhar a união do filho natural de D. João I, D. Afonso de Portugal, que mais tarde assumirá a função de Condestável do Reino, com a filha de D. Nuno Álvares Pereira, D. Beatriz Pereira de Alvim. Os noivos assumem naturalmente protagonismo nesta história, mas participam na boda muitos notáveis, como os Infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, a sua aia D. Mécia Vaz de Coutinho e a sua mãe a aia-mor da Rainha, D. Beatriz Gonçalves de Moura.

   Presença obrigatória será também a do Alcaide-Mor de Leiria, D. Lourenço Martins de Leiria, do Escrivão da Puridade, D. Gonçalo Lourenço de Gomide, e como é óbvio o pai da noiva, D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do Reino.

   O todo-poderoso clero não podia deixar de marcar presença, fazendo-se representar pelo confessor do Rei, Frei Fernando de Astorga, o Abade de Alcobaça, D. João Eanes de Ornelas, pelo Bispo de Coimbra, D. João Esteves de Azambuja, e pelo representante Papal, o Arcebispo de Lisboa, D. João Anes, que irá casar os nubentes.

   A programação da edição deste ano reserva grandes momentos para os visitantes, que terão oportunidade de assistir a diversas representações no Terreiro Real (Largo do Papa Paulo VI). Entre esses momentos, destaca-se, na quinta-feira, dia 19, pelas 22:30, a chegada da Família Real, no dia seguinte, pelas 23:00, a chegada da noiva, D. Beatriz Pereira de Alvim, acompanhada pelo senhor seu pai, o Condestável do Reino, Nuno Álvares Pereira. No sábado, dia 21, pelas 23:00, acontece o grande momento da festa: O casamento de D. Afonso de Portugal com D. Beatriz Pereira de Alvim. A despedida à Corte Real está agendada para domingo, dia 22, pelas 22:00.

   Durante os quatro dias do Leiria Medieval a animação está garantida para quem quiser viver esta aventura por dentro, vestido a rigor (é possível alugar trajes), e percorrer diversos espaços e atividades de animação: Acampamento Militar, Acampamentos Civis, Animação Deambulante e Infantil, Artesãos, Comes e Bebes, Danças Medievais, Mercadores, Místicos, Música Medieval, Recriações Históricas, Vivências de Época e muito mais.

   As atividades desenrolam-se em praças e ruas do velho burgo que recuperam a toponímia de outrora: A Praça de S. Martinho (Praça Rodrigues Lobo), Várzea de S. Martinho (Largo 5 de Outubro de 1910), Cavalariças Reais (Garagem do Edifício do Banco de Portugal), Terreiro D'Armas (Largo das Forças Armadas), Terreiro Real (Largo do Papa Paulo VI), Fazenda (Jardim Luís de Camões), Canavial (Jardim Luís de Camões), Campo da Palha (Largo Goa, Damão e Diu), Rua dos Oleiros (Fonte Luminosa), Várzea da Ponte Nova (Marachão, com mercado medieval). Embarcadouro do Reguengo (Marachão - zona sobre o palco), Lugar das Trevas (Marachão), Terras de S. Francisco (Marachão), Horta de S. Francisco (Marachão) e Largo de S. Francisco (Carpalho).

   Este ano, o Leiria Medieval assenta praça apenas na cidade, por se aproximar o início das obras no Castelo.

Horários

quinta-feira, 19 de julho, 20h00 - 24h00
sexta-feira, 20 de julho, 20h00 -02h00
sábado, 21 de julho - 14h00 - 02h00
domingo, 22 de julho - 14h00 - 23h00

   Cortes de trânsito

Com o objetivo de minimizar os impactos desta iniciativa, os cortes de trânsito só acontecerão entre a Rotunda do Sinaleiro e o Largo do Papa Paulo VI - entroncamento com a Av. Heróis de Angola, que deverão ocorrer 1 hora antes da abertura, até uma hora após o encerramento:
quinta-feira, 19 de julho, 19h00 - 01h00
sexta-feira, 20 de julho, 19h00 - 03h00
sábado, 21 de julho - 13h00 - 03h00
domingo, 22 de julho - 13h00 - 24h00


   Circulação no Marachão
Por questões de segurança, nos dias da iniciativa, 19 a 22 de julho, não será permitida a circulação de ciclistas, praticantes de atletismo e passeio de animais (excetuando cães guia) na zonado Mercado Medieval (Marachão – margem esquerda do Rio Lis). No entanto, as práticas mencionadas podem ocorrer normalmente no Parque da cidade (Parque Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca, onde se situa o avião).

   Enquadramento histórico


Em 1401 celebrou-se em Leiria (*) o casamento de D. Afonso, filho natural do Rei D. João I, com D. Beatriz Pereira de Alvim, filha do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e D. Leonor de Alvim, entretanto falecida.

D. Afonso era filho ilegítimo de D. João I, enquanto Mestre de Avis e professo da Ordem de Cister, e de Inês Peres (ou Pires), entretanto, após o casamento de D. João com D. Filipa de Lencastre, recolhida a Convento (“morta para o mundo”). Terá sido educado em Leiria, confiado aos cuidados e ensino de um grande amigo do Mestre, Gomes Martins de Lemos, onde teria recebido dos frades franciscanos do Convento de Leiria a necessária educação literária e humanística (**).

Em 1401 é dotado de um conjunto importante de bens e legitimado como filho do Rei. O título de Conde de Barcelos, o mais antigo e prestigiado condado português, assim como um vastíssimo património situado a norte do país, é-lhe doado por D. Nuno Álvares Pereira aquando do seu casamento com a sua filha Beatriz.

É a este gigantesco património, sempre crescente nas hábeis mãos o Conde, que em 1442, após a morte de D. Duarte, senhor de Bragança, D. Pedro, Regente do Reino, acrescenta o ducado de Bragança.

D. Beatriz nunca foi duquesa, uma vez que faleceu de parto em data incerta nos primeiros anos da década de 1410, após ter gerado três filhos (D. Isabel, que casou com o infante D. João de Portugal; D. Afonso, conde de Ourém e D. Fernando, conde de Arraiolos, que herdaram por doação os títulos do seu avô materno).

Pouco sabemos, com certeza, dos rituais de casamento ao tempo, mesmo quando estamos a falar de bodas reais ou dos grandes senhores. As informações, esparsas, tendem a dedicar-se mais às festas e aos aparatos do que às cerimónias em si. O facto de sabermos, por exemplo, que, nas palavras de Fernão Lopes, este casamento foi celebrado com “justas e torneios e muito prazer de matinadas e outros jogos, assim da parte d’el-Rei como do Condestabre”, não é realmente uma grande ajuda. No entanto alguma coisa se sabe (***).

O casamento realizava-se à porta da igreja, “publicamente”, e só depois os noivos e convidados entravam para a celebração da missa. Após os festejos, ou de parte deles, os noivos eram acompanhados ao leito nupcial numa cerimónia “semi-pública” que marcava o verdadeiro final do processo de “tomada de posse” que as bodas tinham simbolicamente representado.

(*) Gomes, Saul António, Introdução à história do Castelo de Leiria, Leiria: Câmara Municipal, 2004, p. 130, conforme se escreve na Crónica do Condestabre. João Gouveia Monteiro indica Lisboa como o local da cerimónia in Nuno Álvares Pereira: Guerreiro, Senhor Feudal, Santo; Os três rostos do Condestável, Barcarena: Manuscrito, 2017, p. 143 recorrendo-se do que lê na Crónica del Rei Dom João I de boa memória.
A Crónica do Condestabre é porém clara quando diz: “Depoys que se o casamento de dom Affonso, filho del rey, tractou e afirmou com dona Beatriz, filha do condestabre, em Leirea, a cabo de dias foram feitas suas vodas muy honradas, em que forom juntos todollos grandes do reyno.”

(**) Montalvão Machado José Timóteo, Dom Afonso, primeiro duque de Bragança: sua vida e sua obra, sl: Livraria Portugal, 1964, pp. 60 e 74

(***) A reinvenção deste casamento foi baseada em informações dispersas provenientes de um largo conjunto de referências e, muito, de D. L. D’Avray, Medieval Marriage: Symbolism and Society, Oxford: University Press, 2005, passim

   Fonte: GRPG|CML
10-07-2018
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