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Edição Nº 24 Director: Mário Lopes Quarta, 3 de Maio de 2006
Nazaré
Igreja de S. Gião: restauro e valorização

Interior da Igreja de S. Gião  

A Igreja de S. Gião é Monumento Nacional, classificado pelo Decreto nº1/86 de 3 de Janeiro. Trata-se de um dos mais importantes testemunhos arquitectónicos portugueses, aten-dendo à sua extrema antiguidade, constituindo um inestimável núcleo arquitectónico e arqueológico, coerente e integrado, preservado quase miraculosamente por séculos de isolamento, apesar dos maus tratos de que foi alvo, por via de ocupações abusivas, designadamente como palheiro e armazém de alfaias agrícolas.

Resenha histórica

A Igreja de S. Gião da Nazaré constitui um dos mais antigos edifícios de rito cristão antigo existentes em território nacional. É por isso, de enorme valor cultural, tendo em conta a escassez deste tipo de estruturas erguidas "em altura", independentemente do seu estado crítico de conservação

Descoberto cerca de 1965 (Eduíno Borges Garcia), explorado por diversos arqueólogos (D. Fernando de Almeida), reconhecido como um imóvel de valor excepcional desde a década de 70 - altura em que se consolidaram e sistematizaram os respectivos estudos arqueológicos (Helmut Schlunk)-, e alvo de trabalhos aprofundados de história da arquitectura (H. Schlunk, C.A. Ferreira de Almeida, Manuel Real, entre outros), consta hoje de todos os compêndios explicativos da arquitectura ibérica pré-românica, o que é evidência máxima da sua relevância.

Atendendo à sua localização no seio dos antigos coutos cistercienses, a sua existência explica em grande medida a "cristianização" - ou a necessidade da "modernização" cristão-romana - operada pelos frades de Cister naquelas terras. Sem este fundamental elemento na paisagem monumental portuguesa, fica por explicar, também, a ocupação e construção do território nacional, bem como a lógica e a justificação de um dos maiores monumentos nacionais - o Mosteiro de Alcobaça -, associado mítica, virtual e materialmente à origem do Estado português.

Este Estado, construído através da providencial tensão entre os conquistadores do Norte e os cultivados e sedentários habitantes mistos do Sul, de tradição mediterrânica, oriental ou mesmo levantina e fenícia, encontra em S. Gião um dos seus "nós" topográficos e simbólicos.

A própria evocação do templo - S. Gião / Julião / João - remete para a permanência de cultos solsticiais (ou, melhor solares), e para a permanência trans-secular da identificação de uma divindade única com o "astro-rei", passível de ser interpretada, na mesma zona e num regime de assombrosa continuidade, através de outros vestígios como o célebre mosaico tardo-romano ou paleocristão de Cós (com a figura do Deus mitraico no seu centro...).

Por isso, S. Gião da Nazaré é um elemento essencial para o conhecimento objectivo, material, mas também imaterial e imaginário de um território do qual fazem igualmente parte o insólito lugar da Carvoeira ou o enigmático "sítio" da Nazaré - com a sua veneradíssima "virgem negra".

Estrutura e descrição

A data da construção da Igreja de S. Gião permanece obscura. Tendo-lhe sido atribuída uma origem visigótica (sec. VII), é hoje mais consensual a datação que a dá como um edifício do século X, ou seja, coetâneo dos ritos moçárabes (isto é, dos must´arab), - e contemporâneo, portanto, da ocupação pacificamente partilhada de terras entre cristãos e muçulmanos.

A sua estrutura é disso reveladora. Tratando-se de uma "igreja" - hoje em dia completamente profanada -, a sua tipologia e funcionalidade apenas se adequaria aos rituais antigos do cristianismo hispânico orientalizante e de contornos bizantinos.

A sua preservação afigura-se assim como um acto de eminente urgência, pelo que a figura de "utilidade pública de expropriação" foram aqui utilizados de modo a expressão limite ás necessidades de salvaguarda do património histórico nacional. A expropriação propriamente dita constituiu, de facto, um acto de defesa intransigente e justa dos valores do património cultural arquitectónico português.

Na origem, tratava-se um templo cristão de três naves (com uma nave central, ainda identificável, e de duas cripto-naves). As escavações entretanto efectuadas vieram a revelar duas realidades de grande interesse: a planta original do corpo principal (com colaterais e uma espécie de transepto, devidamente compartimentados, como era prática nas igrejas de rito moçárabe) e uma capela-mor de planta ainda incerta (semi-circular, quadrangular, ou sucessivamente das duas formas, conforme a leitura diacrónica que se possa adoptar).

O edifício anexo, muito transformado pelo tempo, guarda ainda nas suas paredes parte das estruturas verticais do primitivo templo. A nave actual mostra as proporções iniciais do edifício e, nela, mantém-se intacto o iconostasis (o único do país...) formado por uma parede membrana constituída por uma porta central ladeada de dois amplos vãos.

Por detrás desta estrutura desenrolavam-se os rituais mais profundos e iniciáticos do cristianismo hispânico, reservado dos crentes, aos quais se destinava o corpo principal do edifício (enquanto os corpos laterais serviam de acolhimento, acesso e circuito processional dos oficiantes). Curiosamente - situação rara - o corpo do templo, pelo que se crê, era dotado de uma tribuna, revelada por pequenos modilhões e orifícios parietais, bem como através de uma porta de acesso ainda visível pelo lado exterior do lado direito da parte superior da nave.

A decoração do seu interior, composta pelos lavores dos capitéis (folhas de acanto, vestígios da linguagem classizante da ordem coríntia...) e pela ornamentação em relevo rude das impostas, bem como a riqueza científica dos seus muros (um aparelho desnudado e aparente, em opus vitatum) são como que um registo integral de um entendimento do espaço e dos recursos que o determinavam.

A pequena escala da Igreja de S. Gião explica-se pelo facto do século X se tratar de um período de profunda crise económica e política. Mas a sua (raríssima) implantação junto à costa, isolada do mar apenas por uma linha elevada de dunas, demonstra, igualmente, a sua relação com o fascinante complexo histórico-geográfico mediterrânico.

Curta terra de prosperidade, a área tutelada pela Igreja de S. Gião e as épocas de construção deste templo são um testemunho e um registo de memória que urge preservar, resíduo de um tempo pretérito (ainda) cheio de interrogações que importa responder tendo em conta a sua complexidade, preenchendo-se as lacunas que o tornam num período quase intransponível do entendimento da história da Alta-Idade Média e inícios da Baixa Idade Média (mas que encontra em S. Gião uma das suas possíveis chaves de decifração).

Antecedentes recentes

Trabalhos de protecção emergentes (1990-1994)

Após as descobertas, e atendendo às agressões de que foi sendo objecto, foi iniciado em 1990 um plano de protecção do edifício que, embora prejudicando a sua leitura monumental, o preservou da intempérie e assinalou a sua importância, tendo então o IPPAR promovido a instalação de uma cobertura provisória.

Obras efectuadas (1996-1997)

No inclemente inverno de 1995, esta estrutura cedeu com a violência do vento. Empreenderam-se de imediato os trabalhos de reconversão da cobertura provisória, dotando-a de melhor capacidade e firmeza, através da instalação de andaimes e de um escoramento efectivo das partes que revelavam maior risco estrutural.

Entretanto, este conjunto de andaimes e de esticadores foram concebidos de modo a estruturar um primeiro - embora ainda incipiente, mas efectivo- sistema de suporte de muros, tendo em conta o acelerado grau de ruína detectado. Em 1997-1998 foi re-instalada uma cobertura provisória que corresponde à primeira versão da mesma, já revista.

Trabalhos preventivos: expropriação

Em 1998 concluiu-se o processo de expropriação da Igreja de S. Gião da Nazaré. Em 1999 foi necessário, em articulação com a GNR e com a CM da Nazaré, proceder à remoção do ocupante que persistia.

Foram imediatamente iniciados os seguintes trabalhos:
       
instalação de vedação dos terrenos expropriados;
       
limpeza dos terrenos do IPPAR;
       
limpeza do caminho de acesso;
        
instalação de quadro e rede eléctrica de apoio aos      trabalhos;
        instalação de sistema de bombagens no poço integrado na propriedade do IPPAR de modo a controlar os níveis freáticos.

Projecto integral de trabalhos         arqueológicos (2000-2004)

Se a estrutura da igreja e obras anexas ficou assim protegida temporariamente, é agora imperioso dar sequência aos trabalhos de protecção integral, desmobilizando de forma extremamente cuidadosa o material instalado.

Este trabalho de desmobilização dos andaimes irá ser conduzido por meio de um cálculo de engenharia de estruturas meticuloso, de forma a que o solo do edifício fique apto a ser estudado segundo métodos arqueológicos. Na sequência desta intenção encontra-se executado o projecto de contraventamento das estruturas e de entivação da ruína.

Encontra-se em estudo um levantamento estereofotogramétrico completo dos panos murários, visando um registo digital dos alçados, dotados de grande complexidade testemunhal.

Do mesmo modo, prevê-se iniciar dentro em breve o estudo laboratorial dos rebocos existentes de forma a estabelecer os seus tipos, textura, cor, diferenças, diacronias e idade.

O plano de trabalhos arqueológicos, postos em prática, considerar prioritários os seguintes passos:
      
sondagens (e, eventualmente, posterior escavação) dos terrenos circundantes e dos solos subjacentes a construções espúreas;
       
detecção dos sistemas antigos de adução de águas na envolvente;
       
escavação do interior do templo;
       
escavação da dependência contígua;
       
aprofundamento e reactualização da escavação das    estruturas contíguas da zona Este (parcialmente à vista);
       
escavação da ábside (ou das ábsides);
      recuperação dos elementos construtivos soltos revelados pela escavação;
        
consolidação das estruturas arqueológicas reveladas;
        
sinalização da sua estrutura para entendimento do conjunto.

Arquitectura e restauro (2000-2004)

Do ponto de vista da arquitectura "de restauro" encontra-se em preparação um conjunto de operações significativas, a lançar imediatamente após o levantamento dos alçados.

Organização dos trabalhos

Estes trabalhos combinam as necessidades de estudo e preservação das estruturas, nas suas vertentes de ofício laboratorial e de prática de campo, designadamente no que respeita ao comportamento dos materiais e sua protecção:
estudo exaustivo, através de métodos de arqueologia e estratigrafia vertical -ou face reading- das estruturas existentes;
desmontagem de parte dos muros cujo tensão se assevera insuportável para a manutenção dos muros que se crêem originais;
limpeza dos panos murários e tratamento dos mesmos através de produtos hidrófogos;
restauro de panos murários com materiais originais de desmonte;
reconstituição da estrutura murária nas zonas em que tal se revelar possível, atendendo aos vestígios "in loco";
relacionamento, em termos de percurso proximal, entre a igreja e as potenciais ruínas reveladas pelas escavações;
consolidação dos muros arruinados postos a descoberto pela escavação;
pavimentação do templo e corpos anexos (terras comprimidas);
estudo (embrionário) de implantação de um pequeno centro de acolhimento/ centro explicativo;
projecto de melhoramento de acessos e de arranjo da envolvente imediata;
projecto de restauro integral


Constituição de estaleiro-exemplo
de metodologias de restauro. Laboratório

Durante todo o decurso dos trabalhos de recuperação de S. Gião da Nazaré, será dado um enquadramento de excepção aos estudos de materiais, de comportamento de estruturas, desde a engenharia de paleo-estruturas à preservação e "projectação" de espaços arqueológicos, passando pelas tarefas de reintegração e de reconstrução.

Fonte: IPPAR
         Artur Ledesma

03-05-2006
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