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Edição Nº 24 Director: Mário Lopes Quinta, 4 de Maio de 2006
Opinião
Inquisição: a calamidade que empobreceu a Nação Portuguesa (II)

Domingos José Soares Rebelo 

III

É ESPANTOSO o número de pessoas que, de 1536 a 1821, passaram pela apertada malha dos esbirros do Tribunal da Fé. De facto, são milhares as pessoas dos dois sexos e de todas as idades: analfabetos e letrados; apóstatas, cismáticos e hereges; homens livres e escravos; judeus (moisaicos, cristãos-velhos e cristãos-novos), mouros e ciganos; plebeus e fidalgos; ricos e pobres; seculares e religiosos que foram empurrados aos pés da Mesa Censória dos Tribunais do Santo-Ofício.

Calcula-se que, de 1557 a 1750, só dos três tribunais inquisitoriais (Coimbra, Évora e Lisboa) foram relaxados ao braço secular e queimados nos autos-de-fé cerca de 1500 indivíduos dos dois sexos e mais de 25.000 foram condenados a outras penas: chicotadas, potro, polé, arranque de unhas, aplicação de ferros quentes, privação de água e de alimentos, prisão (temporária ou perpétua) nos cárceres tenebrosos e infectos, nas frias masmorras sem luz, nem ar, segundo o testemunho de historiadores fidedignos (Cf. o referido Oliveira Mascarenhas, op. cit., p. 50).

Na GEPB, loc. cit., se aponta que o número de penitenciados até 1732 nas três inquisições da Metrópole fora oficialmente apurado como 23.068 dos quais 1454 condenados à morte ou, na linguagem técnica usada, relaxados em carne, por enforcamento ou por incineração ao vivo, com todos os requintes de maldade para o grande gáudio do povoléu, do clero, da nobreza e da Realeza. Mais se reza na citada obra GEPB (q.v) que na Torre do Tombo se encontram arquivados para cima de 36.000 processos, quase exclusivamente originados nos referidos três Tribunais do Santo-Ofício.

Segundo o douto, incansável e laborioso historiador (Cf. "História da Igreja em Portugal" de Fortunato de Almeida, Vol. IV, Apêndice XI, p.p. 286/318, Lisboa, 1971) nos 4 Tribunais do Santo-Ofício (Lisboa, Coimbra, Évora e Goa) foram julgadas e sentenciadas (de 1536 a 1794) 26.949 pessoas das quais 1.175 relaxadas em carne, por garrote e por queima ao vivo. Nos 760 Autos-de-Fé realizados no espaço português: Lisboa (248, de Setembro de 1540 a Agosto de 1794), Coimbra (277, de Outubro de 1541 a Agosto de 1781), Évora (164, de Outubro de 1536 a Setembro de 1781) e Goa (71, de 1600 a 1773) foi registada a seguinte estatística negra da vítimas da Inquisição:

Autos-de-Fé da Inquisição Portuguesa (1536/1794)

Total de Pessoas Vitimadas

Dos Tribunais    Penitenciados      Relaxados
         
Inquisitoriais    Total     Homens    Total   Homens
            Lisboa           7.024   3.787         642       403
            Coimbra         8.800   4.225         547       259
            Évora            6.369   3.092         507       291
            Goa              4.056    3.034        121         97
Total Geral             26.249  14.138     1.817*   1.050

Nota: O Dr. Fortunato de Almeida compilou essa estatística após o exame das Listas dos Sentenciados, existentes na Torre do Tombo, como ainda a consulta da estatística divulgada por António Joaquim Moreira in "História de Portugal", tom. IX, pp. 256/348, Lisboa, 1845.
* - Inclui 642 relaxados em estátua (397 h e 245 m)

À distância dalguns séculos corridos sobre os trágicos e sinistros Autos-de-Fé arrepia-se-me o corpo ao ler a descrição dos mesmos pelo General Augusto C. Teixeira de Aragão (1823/1903) académico laureado, notável numismata e distinto médico-cirurgião reproduzida por Oliveira Mascarenhas (op. cit., pp. 54/56).

É estranhíssimo que a festa bacanal desses espectáculos selvagens, com tochas humanas a alumiar a noite escura, fosse autenticada pela presença de altas personagens tais como "os desembargadores, o clero, os fidalgos, e muitas vezes o soberano" sendo D. João V (o grande adúltero!) "dos mais assíduos".

Disse bem o Dr. Teixeira Aragão que os Inquisidores não perdoavam os mortos e, quando acusados de heresia eram julgados a posteriori, sendo exumados os seus cadáveres pútridos ou os seus esqueletos e levados aos autos-de-fé e aí reduzidos a cinzas; embora essa incineração lhes não molestasse, os seus familiares ficavam infamados e desprovidos dos bens deixados pelos mortos, sendo os mesmos objecto de confisco. Que nojenta e santa ladroeira, meu Deus!, praticada pelos ministros da Igreja de Cristo que aproveitavam dessas festanças e bacanais para comer e beber do melhor à custa dos Tribunais do Santo-Ofício, perdão!, direi melhor, à custa de oiro roubado aos infelizes penitenciados e relaxados pela Santíssima Instituição (!!!) que decerto, pretendia preservar no País a Fé Cristã com o proclamado zelo evangélico dos seus Ministros, Inquisidor-Mor, Deputados do Conselho-Geral, Inquisidores, Delegados, Promotores, Notários, Solicitadores e Alcaides (todos com seus estipêndios garantidos) além da arraia miúda de meirinhos, escrivães, revedores de livros e qualificadores do Santo-Ofício.

Quanto aos fugidos do País, encontrando-se fora do alcance do Santo-Ofício eram eles queimados em efígie nos autos-de-fé sendo depois ordenado o sequestro dos seus bens, como frisado pelo Dr. Teixeira Aragão.*

* Ibidem Ano XXXIV, 3ª Série, N.º 225, página 4, colunas 3/5. Março, 1996

§

Como Surgiram os Autos-de-Fé no Espaço Português?

Criada a Inquisição de Évora (1535) realizou-se aí nesse mesmo ano o 1º auto-de-fé português, mas numa encenação inofensiva. Anos depois, Évora teve um verdadeiro auto-de-fé (1543) nele queimando seis relaxados. Ainda em 1543 a Inquisição do Porto mandou à fogueira 4 relaxados e 2 outros relaxados em estátua. Anteriormente, aos 26.09.1540 e 23.10.1541 se realizaram na Ribeira (Lisboa) dois autos-de-fé com quatro relaxados em carne e um relaxado em efígie.

O Tribunal da Inquisição do Porto, viria a relaxar em carne seis desgraçados num auto-de-fé de 1567. A Inquisição de Tomar (1541) teve dois autos-de-fé: aos 06.05.1543 com 7 dos 8 penitentes saindo adjurados e apenas a cristã-nova Brites Gonçalves foi relaxada, dada como herege e pertinaz; aos 20.06.1544 com 7 reconciliados, 3 adjurados e 3 relaxados em carne (Cf. GEPB, vol. XIII, pp. 846/847 Fortunato de Almeida, op. cit. 406). Já se apontou que os Tribunais do Santo-Ofício de Lamego, Porto e Tomar tiveram curta existência.

O Tribunal do Porto (de 1541 a 1547) registou um único auto-de-fé aos 11.02.1543, 43 penitenciados em cárceres de prisão temporária (de 1 a 10 anos), 15 penitenciados em prisão perpétua com sambenitos, 4 relaxados em carne e 21 queimados em estátua (Cf. Fortunato de Almeida, op. cit. Vol II, pp. 405/406, Lisboa, 1968). O Tribunal Inquisitorial de Goa (1560) mandou à fogueira em 1562 dois relaxados em carne num auto-de-fé junto à Sé Catedral com a presença do Vice-Rei e do Arcebispo de Goa àquele degradante espectáculo!

Segundo o Dr. Fortunato de Almeida (Cf. Ibidem. Vol- IV, pp. 319/329), a Inquisição de Goa fora criada em 1560 mas extinta por ordem do Marquês de Pombal numa carta de 10.02.1774 endereçada ao Governador e capitão general da Índia D. Pedro da Câmara. Esta Inquisição fora restabelecida no reinado de D. Maria I numa Provisão à junta da Fazenda de Goa, de 09.04.1778. Por sua vez, o Príncipe Regente mais tarde D. João VI numa Carta Régia de 03.06.1809 ordenou que um Presidente secular encabeçasse o Tribunal da Inquisição de Goa.

Pouco depois, nos termos do art.º XXIII do Tratado de Comércio e Navegação de 19.02.1810 entre Portugal e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, Goa foi declarado porto franco permitindo-se naquele Estado e suas dependências a livre tolerância de todas as seitas religiosas. Finalmente, na Carta Régia do Príncipe-Regente datada do Rio de Janeiro aos 16.06.1812 e endereçada ao Conde de Sarzedas Vice-Rei e Capitão-General de Mar e Terra, ordenou-se a total extinção da Inquisição de Goa, virada contra os judeus, cristãos-novos e cristãos-velhos, outros cristãos de vida moral depravada, hereges e ímpios, mas ainda contra os sequazes de religiões orientais (indús, moiros, budistas, jaines, zoroastras, etc.) vivendo nas possessões portugueses do Oriente e que nada tinham que ver com a doutrina de Cristo! Fica esclarecido que a Inquisição de Goa mantinha os seus Comissários em Salsete, Bardez, Moçambique, Damão, Dio e Macau.

Na consulta de enciclopédias da língua inglesa verifica-se que a Inquisição quer medieval quer sua sucedânea é aí tratada com certo desenvolvimento. A Encyclopedia Britânica (Vol. 12) consagra largas páginas mas nada diz sobre a Inquisição em Portugal com seus perniciosos efeitos, embora casualmente se refere à Inquisição de Goa e dedica largo espaço ao surto inquisitorial nos seguintes países: Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Estados Balcânicos e Espanha. A Encyclopedia Amer. (Vol.15) na discussão da Inquisição na Espanha (5 páginas) menciona que nos anos 1651 a 1673 foram em Portugal queimados vivos 184 infelizes, 59 queimados em estátua com o confisco dos seus bens e 4.793 simplesmente penitenciados, acrescentando que na procissão dum dos seus autos-de-fé se fizera a parada de 1.500 penitentes.*

* Ibidem, Ano XXXIV, 3ª Série, N.º 226, página 4, colunas 3/5, Abril 1996

§

Não logrei conhecer o estandarte da Inquisição em Portugal e dos seus Tribunais de Évora, Lisboa e Coimbra. O estandarte da Inquisição de Goa tem ao centro uma efígie de São Domingos com um ramo de oliveira na mão direita e uma espada na esquerda, enquanto a seus pés um cordeirinho segura entre dentes um facho ardendo um orbe encimado pela Cruz, por cima de um aglomerado de nuvens (Cf. J.J. Stockdale "The History of the Inquisitions", London, 1810, pp. XXXI + 492). Toda esta representação é encimada por uma fita em arco com os dizeres MISERICÓRDIA (sic) ET JUSTITIA, precisamente dois elevados e nobres propósitos que nunca encontraram guarida no peito dos Inquisidores.

O estandarte da Inquisição em Goa vem reproduzido em toda a extensão da capa do Catálogo 20 da Biblioteca Nacional de Lisboa com o título "A Inquisição em Portugal". Custa-me crer que se não tivesse corrigido aquele gritante termo inexistente "miseracordia" pelo termo apropriado de "misericórdia".

Sem pretensão à balhofa, é curioso e estranho que "misericordia" (misera + cordia) até parece evocar "misera + chorda" sugerindo a miserável ou mesquinha corda de que os Inquisidores se serviam para torturar suas milhares de vítimas nos tratamentos de polé ou até mesmo no arrocho de garrote aplicado aos relaxados em carne mesmo que se tratasse dum Doutor Infeliz (António Homem, 1564/1624) lente de prima de Cânones, Cónego Doutoral da Sé de Coimbra cujo cadáver fora lançado à fogueira do auto-de-fé da Ribeira-Velha (Lisboa) aos 5 de Maio de 1624. Aquele desgraçado professor catedrático e canonista fora primeiramente denunciado à Inquisição de Coimbra pelo Cónego Álvaro Soares Pereira e, posteriormente, pelos testemunhos do jurisconsulto Tomé Vaz, do matemático André Avelar e do médico Francisco de Almeida. Acusado pela Inquisição da prática de judaismo e de sodomia, o douto professor fora ignominiosamente liquidado na capital portuguesa. O tempora! O mores!

Consta que a denúncia do Dr. António Homem fora motivada por ciúmes e inveja dos seus colega e/ou amigos. Mantido na prisão durante 8 anos expiara a morte enfamante em Lisboa, sem que, posteriormente, o próprio matemático André Avelar escapasse às garras aduncas da Inquisição. O Dr. António José Teixeira (1830/1900), lente, conselheiro, deputado, Par do Reino, jornalista e escritor dedicou a António Homem 26 artigos seriais (Cf. Rev. "O Instituto", Coimbra, Nos. 42/1895 a 47/1900 num total dumas 200 páginas). No auto-de-fé de 1625 realizado na cidade do Mondego fora humilhado um jovem de 16 anos chamado Estevão Couceiro Homem, filho de Matias Homem (1/2 cristão-novo) e de Violante Sequeira (cristã-velha), sobrinho do Doutor Infeliz António Homem, como será apontado mais adiante. A vingança da Inquisição sempre pairou em cima das cabeças dos familiares dos penitenciados e dos relaxados como se fora a espada de Damocles....*

* Ibidem, Ano XXXIV, 3ª Série, N.º 227, página 4, colunas 3/5, Maio 1996

IV

GASTARAM-SE RIOS DE TINTA sobre a Inquisição historiando sua nefasta actividade em Portugal e nos domínios ultramarinos da época: Brasil, Ceuta, Damão, Dio, Goa, Macau. Mazagão, Moçambique e Tanger. Pelos seus depoimentos evidenciaram-se numerosos escritores nacionais e estrangeiros, do século XVI aos nossos dias.

No século XVII, Charles Dellon assinalou-se pela denúncia da Inquisição de Goa através da obra "Relation de L"Inquisition de Goa", Leyde (1687) e suas edições de Paris (1688), Colónia (1709) e Amsterdão (1719 e1739), com sua versão portuguesa do historiador goês Miguel Vicente de Abreu (1827/1884), saída da Imprensa Nacional de Nova Goa e aumentada com várias memórias, notas e documentos e ainda um apêndice com notícia da mesma Inquisição pelo inglês G. Buchanan.

No século XVIII, Michael Geddes editou em Inglês (Londres, 1730) uma obra versando a Inquisição em Portugal com a lista de presos apresentados no auto-de-fé de Lisboa (1862).

No século XIX a Inquisição Portuguesa foi corajosa e vigorosamente denunciada ao Mundo civilizado por Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, um natural da Colónia do Sacramento, no Rio-da-Plata, Bacharel em Leis e em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Arbitrariamente preso (Julho de 1802) e mantido mais de três anos numa prisão celular da Inquisição, em estado de incomunicabilidade, sujeito aos maus tratos, às privações e outras sevícias dos atrozes e despóticos molestadores, como de falsos julgadores. O seu libelo acusatório "Narrativa da Perseguição", 2 Vs. (Londres, 1811) foi uma autêntica machadada no então periclitante e satânico Tribunal do Santo-Ofício de Lisboa. Na citada obra "Narrativa da Perseguição" vão reproduzidos os textos dos iníquos Regimentos da Inquisição de 1640 (Vol. II, pp. 1/299) e de 1774 (Vol. I, pp. 153/312) com toda a hediondez de sua perversa legislação!

A denúncia da Inquisição de Portugal foi reforçada pela Imprensa Nacional de Lisboa com a edição de "Notícias Recônditas", escrito a pedido do Papa Clemente X (1667/1669) pelo Pe. António Vieira, S.J grande escritor e notável orador sacro, que fora um acérrimo defensor dos cristãos-novos, como ainda alguém maltratado e humilhado pela Inquisição.

À edição de "Notícias Recônditas" (1821) seguiu, anos depois, a volumosa obra de Alexandre Herculano intitulada "História da Origem e Estabelecimento da Inquisição", Tom. I-III, Lisboa (1854/1859, com sua 14ª edição (1975) e uma versão inglesa (1926). No encalço de Herculano surgiram a criticar as actividades da nefanda Inquisição os escritores António Pedro Lopes de Mendonça (1859), João Correia Aires de Campos (1861/1865), Fernando Garrido (1881), António José Teixeira (1895/1900), Anselmo Braamcamp Freire (1899), Joaquim Augusto de Oliveira Mascarenhas (1899), António de Portugal Faria (1899) e Francisco Gomes da Silva (1900). *

* Ibidem, Ano XXXIV, 3ª Série, N.º 228, Página 4, colunas 1/2, Junho 1996

Finalmente, no decurso do século XX, fez-se sentir na sociedade portuguesa a necessidade de apreciar e criticar a nefanda actuação da Inquisição Portuguesa através do estudo dos inúmeros processos inquisitoriais na Torre do Tombo, destacando-se sobremaneira os seguintes estudiosos e investigadores, uns felizmente ainda vivos e outros a descansar na paz do Senhor:

António Baião (1875/1961) professor liceal, historiador, conservador e director da Torre do Tombo que, com sua garra de incansável investigador, foi um erudito historiógrafo da Inquisição em Portugal, no Brasil e em Goa com livros editados e larga colaboração em revistas culturais e científicas numa espantosa actividade crítico-histórica de 1906 a 1973 (Cf. A Inquis. Em Portugal., Catálogo 20, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1987, pp. 54/57 e 166/173);

António José Saraiva (n. 1917) consagrado ensaísta, historiador e crítico literário com apreciados estudos sobre a nefanda Instituição: "A Inquisição Portuguesa" (1956), 3ª edição (1964) e sua crítica por José Alencar (Régua 1956); "Inquisição e Cristãos-Novos" (1969) com sua 4ª edição e uma longa polémica (A.J. Saraiva/ Prof. Israel Salvador Revah) in Diário de Lisboa, de Maio a Setembro de 1971 (Nos. do seu Suplemento Literário: 17374/381/395/402/415/443/450/457/464/471/478/485/492) como consta do cit. Catálogo 20, pp. 139/140, 197 e 205;

Fortunato de Almeida (1869/1933) notável historiador e professor e autor duma monumental obra ("História da Igreja em Portugal", Coimbra, 1910/1924 em 8 vols.) e de "Histórias das Instituições em Portugal", Coimbra (1900), Porto (1903) e Coimbra (3ªa edição, s.d.). Na sua edição posterior (Lisboa, 1968 em 4 volumes) são dignos de apreço e de análise: o Capítulo X "A Inquisição" (Vol. II, pp. 367/426), o Apêndice XI "Estatísticas dos Autos-de-Fé Celebrados pelos Tribunais do Santo-Ofício" (Vol. IV, pp. 286/3189 e o Apêndice XII dedicado à "Inquisição de Goa" (Vol. IV, pp. 319/329);

Isaías da Rosa Pereira (n. Açores-1919) insigne investigador, Cónego da Sé de Lisboa, director de Lusitânia Sacra (desde 1973) e autor de 12 estudos sobre a Inquisição em Portugal e nos Açores, como sobre algumas das suas notáveis vítimas (Damião de Goes, Guilherme Bro, Lucas Giraldi, António Fernandes piloto da Guiné, Diogo Rodrigues/ Abraão Cohen e Guilherme Mascot) bem como os bruxos, feiticeiros e cristãos-novos, como ainda o auto-de-fé de 1761 (Cf. Cat. 20 pp. 115/116 e 194/197);

Israel Salvador Revah (1917/1973) ilustre lusófilo francês que, de 1960 a 1971, se debruçou sobre a Inquisição portuguesa com curiosos estudos, alguns deles divulgados postumamente em 1975 pela Fundação Calouste Gulbenkian, Paris na série de Études Portugaises. Sustentou uma polémica com António José Saraiva acerca do livro deste autor (Inquisição e Cristãos-Novos), como já foi acima apontado (Cat. N.º 20, etc., pp. 126/128 e 202);

João Paulo Freire (1885/1953) - poeta, dramaturgo, infatigável polígrafo e notável jornalista, literariamente conhecido com "Mário", editou em 1938/1939 a monumental obra "Os Judeus e os Protocolos dos Sábios de Sião", Lisboa (em 4 volumes) descrevendo a diáspora do povo hebreu e cujo Volume III (pp. 465) discute a fixação e a perseguição dos Judeus na Península Ibérica (Partes I e III); na Parte II (pp. 127/285) intitulada "Os Judeus em Portugal desde D. Afonso Henriques até à Revolução de 1820" se descreve a situação dos judeus em Portugal, então e depois da implantação da nefanda Inquisição;

João Lúcio de Azevedo (1855/1933) notável historiador que, em livros e em artigos da sua autoria, de 1912/1914 e 1921, debateu a situação dos cristãos-novos e dalgumas altas figuras face à Inquisição (v.g. Pe. António Vieira, S.J. e o advogado comediógrafo António José da Silva, vulgo o "Judeu" (Cat. N.º 20, etc., pp. 52/53 e 160/162);

Pedro A. de S. Bartolomeu de Azevedo (1869/1928) arquivista e historiador que, com larga documentação, discorreu sobre os cristãos-novos (de Lisboa e Londres), os familiares do Santo-Ofício em Vila Real, as irregularidades da limpeza de sangue desses familiares, o calvinista português Ferreira de Almeida e a actuação da Inquisição em Ceuta, Goa, Mazagão e Tanger (Cf. Cat. N.º 20, etc., pp. 162/166);

Outros Escritores e/ou Investigadores: Vão apontados outros escritores que, desapaixonadamente, apreciaram a actuação da Inquisição Portuguesa. Ei-los:

Adriano Vasco Rodrigues, A. Farinha de Carvalho, Álvaro Arranja, Amilcar Paulo, António G. da R. Madahil, António Joaquim Mocaira, António Leite, António R. Ribeiro Sanches, Aquilino Ribeiro, Armando Jesus Marques, Artur Moreira de Sá, Augusto da Silva Carvalho, Elvina Cunha Azevedo, Francisco Matos (com Elizabete Gama e Paulo Teixeira), Hêrnani Cidade, João Pedro Ferro, Joaquim Mendes Remédios, Jordão de Freitas, José Alencar, José A. Ismael Gracias, José Gonçalves Salvador, José S. da Silva Dias, Luís de Bivar Guerra, Luís de Matos, Luís Reis Torgal, Maria de Deus Mansa, Maria Luísa Braga, Mário Brandão, Maximiano Lopes, Sónia Aparecida Siqueira, Teófilo Braga e Túlio Espanca.

§

Constituem uma valiosíssima ajuda a quantos se debruçam sobre a negra calamidade desabada em Portugal, de 1536 a 1821. Duas grandes publicações, em seguida descritas, fazem muita luz sobre a actuação da Inquisição Portuguesa:

1. "A Inquisição em Portugal"/ Catálogo 20, uma edição da Biblioteca Nacional de Lisboa (1987) que, em 296 páginas, apresenta as fichas de 400 monografias, de 200 publicações periódicas, de 70 peças de legislação e duns 90 itens de iconografia, cartografia e documentação diversa intimamente ligadas aos infames Tribunais do Santo-Ofício;

2. "Inventário dos Processos da Inquisição de Coimbra" (1541/1820), Paris 1972 (em 2 volumes e 6161 páginas) com a descrição em ordem cronológica e numérica dos processos dos réus acusados e/ou ouvidos no Tribunal do Santo-Ofício, de Coimbra (1541/1820), instruído e compilado pelo investigador Dr. Luís de Bivar Guerra. Este Inventário é, segundo o Dr. Bivar Guerra na Introdução prefatória à preciosa obra "um dos mais interessantes códices do núcleo dos avulsos do Erário Régio, guardando no fundo histórico do arquivo do Tribunal de Contas".

............

Faltaria ao meu dever informativo se não mencionasse aqui que o meu filho e magistrado judicial (J.F.N. Soares Rebelo) deu uma valiosa achega chamando à atenção de que o insigne escritor Camilo Castelo Branco também se debruçou, embora indirectamente, sobre a Inquisição no nosso País no seu livro "Perfil do Marquês de Pombal" (7ª edição, Porto, s.d). Ora no seu capítulo intitulado "O Marquês de Pombal e a Inquisição" /pp. 155/182), se verifica que o prepotente ministro de D. José serviu-se, ingloriamente, da Inquisição e dos seus infames processos para liquidar seus adversários, pessoais e políticos. Para mim, o Marquês teve a ultrajante prosápia de endeusar a negredada Instituição atribuindo-lhe o ridículo epíteto de "Majestática", embora colocando-a sob o controlo régio, isto é, sob a pata do despótico ministro! *

* Ibidem, N.º 229, página 4, colunas 3/5 de Julho de 1996

V

INEGÁVEIS SÃO OS males causados no País pela nefanda e arbitrária actuação dos Inquisidores de Coimbra, Évora e Lisboa durante uns 300 anos da História de Portugal.

Ordenando a prisão (temporária e perpétua), a selvática tortura, o injusto desterro e a abominável eliminação física das infelizes vítimas, milhares de famílias portuguesas, privadas dos seus chefes, foram brutalmente destroçadas e seus filhos menores abandonados à miséria, à fome e à vida de vagabundagem dos sem-abrigo, uma vez expulsos dos lares pátrios já confiscados. As terras agrícolas ficaram incultas e desertas, enquanto as oficinas e as instalações fabris entraram em paralisia. Por sua vez, o circuito comercial, externo e interno, foi interrompido com grave prejuízo à economia nacional. Finalmente, a cobrança regular das taxas e dos impostos ficou seriamente impedida por falta de elementos válidos e experientes, em substituição dos tradicionais cobradores quer judeus, quer cristãos-velhos quer cristãos-novos.

A acrescentar a esses males sócio-económicos, a nefanda Inquisição vibrou um golpe baixo e profundo contra a apreciada classe de intelectuais portugueses de nomeada: escritores, humanistas, poetas, professores universitários e profissionais livres, seculares e religiosos, novos e velhos dos dois sexos, brutalmente assassinados por enforcamento e por queima ao vivo numa crueldade feroz dos sanguinolentos Imperadores Romanos, tristemente celebrizados pelas perseguições movidas aos primeiros cristãos, com a agravante das dispendiosíssimas e satânicas festas burlescas e carnavalescas logrando o cínico eufemismo de autos-de-fé!

É grande o número de distintas individualidades que na alma e no corpo sofreram todo o peso do terror sádico dos Inquisidores de Coimbra, Évora e Lisboa desde o século XVI até à extinção da nefanda Instituição, em 1821, por acto redentor e generoso do Governo Liberal da Nação. Na impossibilidade de historiar os distintos elementos das 3 classes da sociedade portuguesa atingidas pelos esbirros inquisitoriais, vão em seguida detalhados alguns deles. Ei-los:

Avelar, André (1546/1625?) Lente de Matemática (Lisboa, 1592/1612) que, enviuvado, tomara as ordens sacras e fora tercenário da Sé de Coimbra. Testemunhara contra o Doutor Infeliz António Homem (q.v.- em baixo) mas aos 76 anos de idade fora condenado pela Inquisição à prisão perpétua. Seus filhos foram também processados: Luís de Avelar, Mestre de artes; Ana de Faria, religiosa e Violante de Faria (Cf. Os Maços da Inquisição de Coimbra- Nos. 189/Proc.9 de 1621; ; Nº 192/Proc. 16 e Nº 203/Proc.11 de 1623). O Processo de Culpas de André Avelar figurou no Maço 192, Proc. Nº15 de 1621.

Bandarra, Gonçalo Anes (1500/1556?) Perdida a fortuna, fizera-se sapateiro de correia em Trancoso. Popular vidente e profeta, suas Trovas foram primeiramente editadas em Nantes (1664). Acusado de ser cristão-novo e suspeito da prática de judaismo fora processado pela Inquisição e por ela proibido de interpretar os textos bíblicos. *

Ibibem, N.º 234, 3ª Série, Página 4, colunas 4/5 de Setembro de 1996

Fonte: Voz da Nazaré (mensário), Nazaré, Ano XXXIV, 3ª Série

04-05-2006
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Comentário de Maria Manuela Teixeira de Aragao Gamito Gomes
29-08-2014 às 14:41
Li com muito interesse. Sou trineta do Dr. Augusto Carlos Teixeira de Aragao, descendente do seu filho mais velho. Tenho em meu poder a copia que me foi fornecida pela Torre do Tombo dos Processos da Inquisicao de Evora de D. Joao Ximenes de Aragao e de sua mulher(que faleceu no carcere)D. Teresa de Aragao, que sao nossos ascendentes . Foi detido em 1703 e depois de provar que era cristao velho conseguiu a sua libertacao em 1706.Enquanto li minuciosamente os processos fiquei extraordinariamente impressionada. Maria M. Aragao G.Gomes
Comentário de luis magalhães basto
31-03-2014 às 12:46
os judeus em portugal de joão Paulo freire - 1937- 1939
Comentário de Dr.Ivo da C.e Sousa
16-05-2010 às 22:38
Eu realmente gostei imenso do seu escrito sobre a Inquisição, tema sobre o qual muitos estão a escrever sem ir às fontes. Você tem investigado as fontes. Estou mais interessado na Inquisição em Goa, em que Você deu alguns detalhes. Eu gostaria de ter mais informações sobre este assunto. Foi também contra os hindus? ou somente contra os cristãos novos e judeus? Você tem ido para as raízes historicas na Torre do Tombo. Espero aprender mais sobre a Inquisição em Goa. Parabéns e obrigado. Dr.Ivo da C. e Sousa (Goa, Índia)
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