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Edição Nº 213 Director: Mário Lopes Quinta, 6 de Setembro de 2018
Opinião
A Guida fugiu com um rapazola ou o pé da Luizinha Carneiro
  
              Fleming de Oliveira
Uma noite destas, em Coimbra, depois do jantar com uns casais em casa de uns amigos, enquanto se bebia mais um copo ia passando um telejornal, dando conta (como é habitual) dos horrores e desastres do mundo, entrecortados com apartes de aborrecimento e ar pesaroso dos circunstantes, um atentado suicida matara não sei quantos em Cabul, um terramoto matara duas mil pessoas na China, Puigdemont continua com mandato de captura, um grande incêndio está a lavrar em Monchique, etc., etc.
   A Leonor, muito expansiva, sobre quem normalmente mais convergem as atenções, de súbito levou as mãos à cabeça: Quem diria!!! Surpresos, olhamos atentos. E ela, na sua emoção explicava:
   A Guida, deixou o marido e fugiu com um rapazola que podia ser seu filho. Pelo menos em termos de idade. Mais ou menos…
   A sala inteira alvoroçou-se. Todos nós conhecíamos a Guida, linda menina de minissaia, colega de curso dos anos 60, mas ninguém se interessava, de todo, por essas calamidades no mundo.
   No dia seguinte, já em Alcobaça na esplanada do Bibi, ao voltar a página do jornal rápida e indiferentemente, sem ler propriamente o texto da notícia que referia em título os mais de 40 mortos no atentado suicida no Afeganistão, lembrei-me de Eça de Queirós (in Cartas Familiares e Bilhetes de Paris) e pensei para mim:
   Será que estou conquistado pela síndroma do “Pé da Luisinha Carneiro”?
   Mas quem é a “Luisinha Carneiro”? Para explicar a associação de ideias, mal cheguei a casa fui reler o meu predileto Eça de Queirós.

   "Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa, outras senhoras costuravam. Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com o sussurro das fontes, o aroma das roseiras.
   No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da Natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.
   Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas...» As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa – e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio trasbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados...». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!» A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas... Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um «oh!» de dolorida surpresa. No Sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortes, onze ferimentos...» Uma curta emoção, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses... Todos lamentaríamos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
   A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno... E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça:
   – Santo Deus!...
   Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:
   – Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista... Esta manhã! Desmanchou (torceu) um pé!
   Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara (torcera) um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.
   Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume”.

   Bom caros leitores, é um tal primor a descrição queirosiana, que fico quase sem ânimo de acrescentar um comentário.
Mas o que Eça sustenta, com graça e alguma malícia, tem uma grande parcela de verdade. Quer dizer, se a afetividade começa pelos mais próximos, é natural que sintamos mais o que acontece em relação aos circunstantes.
   Depois, sendo certo que a sensibilidade é algo que se impressiona com o que passa pelos sentidos, também o são as coisas que atingem a sensibilidade e causam uma impressão maior. Mas devemos distinguir a impressão, de um juízo. Por exemplo, se eu vir um automóvel passar por cima de um cão e o matar, o sangue jorrar até mim e os miolos aos meus sapatos, evidentemente isso causa-me uma sensação de destruição maior do que saber que a essa hora está a sair para o cemitério o enterro de um homem que conheço vagamente.
   Quero enfim dizer, que isto é razoável, está na minha estrutura. Mas é razoável também que o ser humano qualquer, dotado de razão e que conhece as limitações e contingências de sua estrutura, saiba restabelecer, na medida do necessário, a escala dos valores.
   Mas verdade, verdadinha seja dita, os meus “chineses” foram os afegãos mortos em Cabul, entretanto sepultados pela minha indiferença. E “Luisinha Carneiro” está, com o seu pé dorido, ansiosamente a aguardar tal como nós, a novidade picaresca que alguém traga da Guida.
   Este é o mundo que temos e que nunca muda muito.
 
   Fleming de Oliveira 
06-09-2018
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