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Edição Nº 117 Director: Mário Lopes Quinta, 29 de Julho de 2010
Carminho, Jorge Palma, Tim, Jim Dungo, Filipe Pinto, Ciganos d’Ouro e Diana Piedade actuam dias 4, 5 e 6
Manuel Moura dos Santos promove “Música na Praça” nas Caldas da Rainha
   


Manuel Moura dos Santos: autores portugueses são
uma espécie em vias de extinção

Conhecido pela sua frontalidade no programa “Ídolos” na SIC, Manuel Moura dos Santos apresentou, no dia 12 de Julho, nas Caldas da Rainha, ao lado do empresário caldense Paulo Pessoa de Carvalho, o programa que promete animar este Verão e agitar a vida cultural caldense. O produtor convidou para os dias 4, 5 e 6 de Agosto, Carminho, Jorge Palma, Tim, Ciganos d’Ouro, Jim Dungo, Filipe Pinto e Diana Piedade, artistas que compõem este programa a realizar na Praça de Touros, que ronda os 60 mil euros de investimento. 

   Manuel Moura dos Santos traz a iniciativa “Música na Praça” para as Caldas da Rainha, uma ideia que nasceu de uma conversa com o empresário caldense que, com a sua vontade de dinamizar a Praça de Touros e de lhe dar mais tempo de ocupação com outro tipo de iniciativas, aliada à vontade de Manuel Moura dos Santos em fazer alguma coisa, tenta “combater o ano de crise que vivemos e onde há alguma inactividade na indústria do entretenimento”. 

   O produtor assumiu que “as autarquias são o principal compradores de espectáculos e o momento em que o País vive não é o melhor para as autarquias continuarem a apostar no entretenimento e na cultura como têm feito. Cabe às entidade privadas promoverem, arriscarem e apresentarem soluções que possam ter contributos das Câmaras Municipais”.

   “Não podemos estar sentados ao colo do Estado à espera que nos dê tudo. Nós também pudemos propor coisas e esperar algum apoio. Obrigação de promover e organizar espectáculo não é exclusiva das autarquias. É de todas as pessoas envolvidas nesta indústria”, disse.

   Deste modo convidou para os dias 4, 5 e 6 de Agosto, Carminho, Jorge Palma, Tim, Ciganos d’Ouro, Jim Dungo, Filipe Pinto e Diana Piedade, artistas que compõem este programa que ronda os 60 mil euros de investimento. 

   "Se Frank Sinatra fosse português, não era artista"

   Para lá deste evento Manuel Moura dos Santos comentou o momento de crise cultural e criticou a actuação da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). “Há gente com talento e com dificuldade em aparecer. A indústria discográfica teve nos últimos anos uma quebra superior a 60% nas vendas e os investimentos de hoje decresceram imenso. Hoje as multinacionais a operar em Portugal lançam por ano talvez entre 15 a 20 novos artistas. Se forem ao My Space, You Tube, Facebook aparecem todos os dias mil novos músicos que põem coisas online para nós ouvirmos. Hoje quem investe na música são os empresários e já não são as editoras. Os empresários e os agentes estão a substituir-se às editoras”, sublinhou. 

   O empresário confessou que este tipo de iniciativa que vai ter lugar na Praça de Touros é a regra no estrangeiro e Portugal tem dificuldades em aparecer.
“O mercado mudou muito e este tipo de iniciativa no estrangeiro é a regra. No estrangeiro há um mercado de música entregue às entidades privadas. Quem promove festivais e concertos são os privados. Em Portugal isso está nas mãos do Estado e das autarquias há muitos anos”, explicou.

   Manuel Moura dos Santos comentou também o facto de haver uma eventual crise de autores que está a deixar o mundo do espectáculo e da música.
“Há uma crise de criatividade de autores. Há gente a abandonar o mercado da música. Os autores são as grandes vítimas da globalização e do acesso generalizado na internet. Os artistas, mesmo que haja discos piratas e download ilegais, ganham dinheiro ao vivo, com concertos. Como exemplo os espectáculos comprados têm uma taxa de direitos de autor que é dividido por uma série de autores, quando por exemplo os motoristas ganham mais do que esses autores que escrevem as canções. Aquele que é o número dois da lista é o último da cadeia alimentar. 

   O promotor musical exemplificou: “A maioria dos espectáculos não tem bilheteira, a SPA fixou uma taxa de 200 euros. Se tivermos como exemplo um espectáculo da Carminho que canta vinte autores de músicas e de letra, se dividirmos os 200 euros por todos, cada um, leva para casa dez euros. O motorista dela cobra uns cem euros para a trazer. Isto acontece com todos os autores. Esta gente está por isso a abandonar o mercado da música, porque estão fartos e são carne para canhão. Depois, quem estava com vontade de entrar já não entra e não há mercado. Os autores são aqueles que são mais roubados e prejudicados no mercado da música pelos download ilegais e pela pirataria”, vincou.

   Por este motivo, Manuel Moura dos Santos criticou ainda a educação dada nas escolas uma vez que as crianças de hoje não são interessantes na escrita.
“As criancinhas de hoje não são tão interessantes como os autores de agora, que estão a abandonar o mercado. A geração dos finais de 60 tem outra capacidade intelectual. Leram mais e assimilaram muito mais. Os miúdos de agora não lêem livros e estão agarrados aos monitores a jogar ou a ver filmes. Quando a gente assimila pouco, também tem pouco para deitar cá para fora. Não há milagres. De facto, a produção de música actual é mais básica e tem a ver com a realidade do ensino. É aquilo que os jovens transmitem, que é pouco. Isto não foge daquilo que é hoje o País”, disse.

   “Se a SPA não der a volta a este problema e não fizer como fizeram os espanhóis que cobram uma percentagem do caché dos espectáculos, se a SPA não tiver a coragem de inverter esta situação vamos piorar. Portugal tem poucos autores autónomos e lá fora é um negócio enormíssimo. Frank Sinatra se fosse português não tinha sido artista, porque não há autores em Portugal. Há gente que fez carreira assim e hoje dificilmente faria, como foram os casos de Toni de Matos, de Amália Rodrigues, de António Calvário. Eram gente que não escrevia, nem compunha porque tinham pessoas que faziam isso para eles. Hoje seria mais difícil. O problema dos miúdos novos é esse, se não escreverem e não compuserem, estão feitos”, disse. 

   Carlos Barroso
29-07-2010
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