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Edição Nº 55 Director: Mário Lopes Domingo, 1 de Maio de 2005
Opinião
De Karol a Joseph

 Padre Fernando de Cima

"Quem?..." Assim perguntámos uns aos outros quando, naquela tarde do dia 16 de Outubro de 1978, o Cardeal veio até à janela da Basílica de S. Pedro, e anunciou o nono Papa. O nome dele era Karol Wojtyla, Cardeal de Cracóvia, na Polónia. Nenhum de nós, ali especados diante da televisão, alguma vez ouvíramos falar dele; mas um arrepio nos correr a todos: vindo do leste, de um país comunista, o que poderia acontecer? E porquê ele?...

Não demorou muito tempo a termos uma ideia concreta; no dia 22 de Outubro, quando inicia solenemente o seu Pontificado, ele grita para Roma e para o mundo: "Não tenhais medo!". Conquistou-nos imediatamente pela sua franqueza, e pela sua vontade de nos arrastar com ele à conquista da Igreja e do mundo para Cristo. E foi todo o mundo que ele teve a seus pés, literalmente, quando das exéquias em Roma. Porquê? Que fez ele para que a cidade eterna ficasse entupida com mais de três milhões a prestar-lhe homenagem?

Não serei capaz de resumir o principal da sua actividade em poucas linhas; de modo informal direi que, para dentro da Igreja, como que nos obrigou a regressar ao essencial escrevendo Encíclicas doutrinais, enviando Mensagens, redigindo Cartas Apostólicas, quase não nos dando tempo para amadurecer tanto ensinamento, e já estava a chamar-nos para novas responsabilidades, para renovar linguagens e atitudes.

Lembro que, em 1983, na América Latina onde estava de visita, lançou a Nova Evangelização com, disse "novo vigor, nova linguagem e novos métodos". E, mais de vinte anos depois deste desafio, onde estamos nós? Praticamente a começar!... Por isso se pode dizer dele que foi um Papa mais do futuro do que do passado: ainda estamos a digerir o impulso que impôs à Igreja, a influência social que motiva muitas acções no mundo pelos mais pobres, pela paz, pelo desenvolvimento equilibrado.

Muitas vezes foi interpelado por manter imutáveis as normas morais da Igreja no que ao sexo diz respeito; talvez nos lembremos do Cartoon que representava o Papa João Paulo com um preservativo no nariz, e o acusavam, como agora novamente o fizeram, de ser um dos causadores do desenvolvimento de SIDA no mundo, sobretudo em África. E porque não acusam os responsáveis dos povos, quando sabemos que a SIDA, mais do que uma doença contagiosa é fruto de um desregramento de relações? No combate a essa doença o Papa apelou a uma mudança de comportamento; riram-se dele, porque isso seria ir contra a liberdade individual e contra o prazer imediato.

Mas, para além destes episódios superficiais, se o Papa vindo de Leste contribuiu para o desmoronamento do comunismo - nunca foi perdoado por isso, até o tentaram matar para que tal não acontecesse -, ele mandou renovar o Código de Direito Canónico, em 1983, e apresentou aos fiéis, em 1992, o Catecismo da Igreja Católica. Nisto também se adiantou ao futuro. Nos últimos anos, ajudou-nos a viver a passagem do século, com a proclamação do Ano Jubilar de 200, e presenteou-nos com os anos do Rosário e, que vivemos ainda, o da Eucaristia. Era muito humano, como o são todos os que praticam desporto, por exemplo o futebol, a canoagem, os longos passeios pelas montanhas, e a natação.

Aqui vos deixo a parte final do seu testamento: "À medida que se aproxima o limite da minha vida terrena, volto com a memória ao princípio, aos meus Pais, ao meu irmão e à minha irmã (que não conheci porque morreu antes do meu nascimento), e à paróquia de Wadovice, onde fui baptizado - àquela cidade do meu amor, aos da minha idade, companheiras e companheiros da escola primária, do liceu e da universidade, até aos tempos da ocupação, quando trabalhei como operário e, depois, na paróquia de Niegowic, na cracoviana de São Floriano, na pastoral das universitários, naquele ambiente... a todos os ambientes... a Cracóvia e a Roma... às pessoas que de modo especial o Senhor me confiou. Quero dizer a todos somente uma coisa: "Que Deus vos recompense"." Deus o chamou no dia 2 de Abril; quantos de nós não o Choramos? Fazia parte já da nossa família.

Mas a Igreja está sempre em renovação; agradece a Deus o passado, mas prepara e organiza o futuro. E a 19 de Abril, das varandas da Basílica de S. Pedro, em Roma, ouvimos outra vez que tínhamos Papa. E o Cardeal anunciante começou por dizer o nome próprio - José; como se arrepiou o nosso coração: é que os dois Cardeais portugueses chamam-se José! Mas logo a seguir confirmou com o apelido: Ratzinger, o Decano dos Cardeais, até então Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. E foi aplaudido, e foi assobiado...

Este Cardeal é mais conhecido como travão do que como acelerador, porque tinha a responsabilidade de travar os ímpetos daqueles que, dentro da Igreja, por vezes ultrapassavam os limites da dogmaticidade da doutrina. Mas ele era um dos teólogos do Vaticano II que mais contribuiu para os notáveis documentos sobre a Igreja - Gaudium et Spes e Lumen Gentium - e, nos últimos anos, nos tinha dado livros de uma abertura brilhante; basta ler, em Português "Introdução ao espírito da liturgia", de 2001, e "Europa, os seus fundamentos hoje e amanhã", de 2004, publicados pela Paulus.

E a escolha do nome, Bento, introduz-nos, não na formação da Europa pelos monges beneditinos, mas em todo o empenhamento hodierno na construção deste continente que deve continuar a ser a luz avançada, em todos os domínios, do mundo moderno. Os Papas não têm programa de governo: "O meu verdadeiro programa não é o de fazer o que tenho na vontade, não é perseguir as minhas próprias ideias, mas ouvir, juntamente com toda a Igreja, a palavra e a vontade do Senhor, ser guiado por Ele, para que Ele próprio lidere a Igreja nesta hora da nossa história". (Homilia do início do seu Pontificado, 24 de Abril).

Mas podemos encontrar alguns desafios que põe a si mesmo, quando fala aos Cardeais no dia 20; aí afirma a comunhão eclesial com os outros bispos para melhor servirem a Igreja e manterem a unidade da fé; declara-se continuador do Concílio Vaticano II, e quer prosseguir o caminho do ecumismo a fim de construir a plena e visível unidade de todos os discípulos de Cristo; assegura que a Igreja está aberta a um diálogo sincero com a sociedade humana, cooperando para o desenvolvimento social, no respeito pela dignidade do ser humano.

E, para dentro da Igreja, mantém a Jornada Mundial da Juventude, em Agosto e na Alemanha, tal como o Sínodo dos Bispos em Outubro. De tudo o que se leu e ouviu, após a sua eleição, podemos esperar do Papa bento XVI, não um longo pontificado como o de João Paulo II, mas muito fecundo. Alguns dirão que a Igreja continuará fechada, em especial à moral sexual; e que poderá a Igreja opinar sobre o sexto mandamento, que diz "guardar castidade"?... O próprio Deus, quando apresentou os mandamentos, disse ao seu povo hebreu que era uma proposta para serem felizes; mas que eles poderiam escolher outros caminhos!...

Mas eu creio que Bento XVI nos vai surpreender, aos crentes e não crentes; não tenhamos ideias feitas sobre ele, que é um homem muito inteligente, muito sensível - só o pode ser quem gosta de tocar piano e de Mozart. Mas é também um homem de Deus, como o foi João Paulo II; e o que o mundo precisa é de homens abertos a Deus e aos problemas, angústias e esperanças dos homens, e este Papa, Joseph Ratzinger ou melhor Bento XVI, é um desses homens!


         Padre Fernando Antunes de Cima
       (Pároco de Alcobaça)

01-05-2005
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Comentário de Jeronimo Silva Pereira
22-04-2014 às 17:06
Singeverga 1956. Fomos colegas de "carteira" grupo dos grandes
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