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 José Alberto Vasco
Corresponder satisfatoriamente a um (simpático e irrecusável) convite para reflectir e escrever sobre as férias dos portugueses neste ano da graça de dois mil e oito acaba por não ser muito simples ou edificante. Podendo mesmo transformar-se numa autêntica catarse... Todos sentimos, dia a dia, que a situação (micro e macro) económica deste país continua muito longe de ser a melhor (antes pelo contrário!).
A crise financeira está instalada, iniludivelmente, na maior parte dos orçamentos das famílias portuguesas, e a triste verdade é que deprimentes e intrincadas situações de pobreza, desemprego, doença, velhice, salários em atraso ou sobre-endividamento vão privar muitas dessas famílias do gozo de umas férias merecedoras desse nome e dessa qualidade.
Mesmo nas famílias onde ainda não se verificam esses géneros de enquadramento negativo, existe um largo espectro em que o temor face ao mais que provável agravamento da actual situação do país as afasta da intenção de sair de casa e ir passear por esse país ou por esse mundo fora durante as suas férias deste ano. Há mesmo muito boa gente que acaba por também ir trabalhar durante esse período, a fim de conseguir amealhar mais uns tostões...
Alguns leitores estranharão o carácter acentuadamente pessimista e desencantado desta minha introdução, mas a verdade é que eu mesmo, devido a vicissitudes de vária ordem, terei tido este ano as minhas férias mais parvas e estúpidas de sempre... Sendo assim, o conteúdo deste meu texto acabará por infelizmente se reportar à minoria de portugueses que este ano ainda se darão ao (sempre merecido!) luxo de ter umas férias como deve ser...
É claro que esse lote inclui os que passam as suas férias em casa, na própria localidade onde habitualmente vivem e trabalham (quem consegue passar algumas horas sentado numa sala, sem fazer absolutamente nada, até sabe que não é má ideia de todo). Incluindo também os que vivendo nas cidades acabam por ir passar as suas férias junto de familiares, em vilas e aldeias situadas por esse país fora (fruindo ares menos poluídos, comendo alimentos menos contaminados e reatando amizades quase esquecidas no tempo)...
Os portugueses que continuam a conseguir passar as suas férias viajando por esse país e por esse mundo fora, continuam a ter inúmeras possibilidades de o fazer. De entre esses, há os que o fazem por conta própria, viajando no seu próprio veículo automóvel. A vida desses também não está nada facilitada, principalmente devido ao agonizante e cadenciado aumento do preço da gasolina e do gasóleo nos chamados países ocidentais (Portugal continua, nesse campo, a ser diariamente confrontado com o desolador exemplo de ter um governo cego, surdo e mudo, insensível a essa questão, preferindo, à boa maneira capitalista, manter impostos elevados sobre os combustíveis, em nome sabe-se lá de quê...).
De entre esses, os que possuem as chamadas roulotes acabam por ser muito beneficiados face aos que não possuindo veículos desse género têm de se alojar em hotéis ou parques de campismo, aumentando também potencialmente os seus gastos durante durante esse período. Para esse género de férias, a França continua a ser uma notável opção, devido à enorme, eficiente e económica quantidade de hotéis low cost que existem em todo esse país (Première Classe, Campanile, Etap, etc).
Restam assim os mais abonados, ou seja, os que gozam as suas férias em excursões e viagens organizadas, deslocando-se de camioneta, barco, combóio ou avião, pelo país e pelo estrangeiro. Esses não serão já muitos, embora continuem a ser diariamente namorados e assediados pelas agências de viagens que vão pululando por tudo quanto é sítio habitado pela classe média e pela classe alta (não deixa de ser curioso que até nesse campo uma substancial parte do pensamento económico marxista continue tão actual...).
Esse restrito grupo de portugueses que ainda passam umas férias como deve ser continua a dividir-se entre Portugal, o resto da Europa e destinos situados nos restantes continentes, alguns deles muito na moda, apesar do preço elevado ou talvez por isso mesmo... A praia, as grandes civilizações, os destinos exóticos, as férias de aventura ou as grandes cidades continuam a ser destinos de sonho e eleição para quem ainda goza devidamente as suas férias (existe também o chamado turismo sexual, cujo lugar, para mim, nunca caberá num texto como este, mas sim numa daquelas prisões a sério, cumprindo integralmente penas a sério!).
O Algarve (com Cacela Velha e Tavira sempre na frente!), o Alentejo (eterno reino do sossego num país de desassossego!), o sul de Espanha, a Itália (das sempre belíssimas Veneza, Florença e Roma...), a China (aqui com o meu voto radicalmente contra um país que oprime violentamente a civilização tibetana e onde cuspir no chão é socialmente tão aceitável como palitar os dentes em público ou jantar o seu cãozinho de estimação), o Brasil, a Índia, a África do Sul, Paris (estimulante paraíso romântico e cultural!) ou New York mantêm-se entre os destinos mais concorridos e apetecíveis, embora muitas vezes o regresso desse tipo de locais de férias acabe por provocar onerosos e irremediáveis danos em termos de stress ou desilusão, pelo facto de não terem sido devidamente aproveitados, deixando algo de muito importante por fruir...
Um outro problema a ter em conta quando reflectimos sobre o modo como os portugueses ainda vão gozando as suas férias é o facto, quase institucional, de a maior parte deles o fazer durante o Verão. Esse facto acaba por provocar problemas de aglomeração e desmotivação nos destinos de férias mais concorridos, mas, por exemplo, premeia os que preferem passar as suas férias nas próprias cidades onde vivem.
E aqui fica o belíssimo exemplo de uma Lisboa que durante o mês de Agosto acaba por se tornar um local calmíssimo e relaxante, proporcionando mesmo uma oferta cultural digna do melhor registo e apreço (com o Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian em primeiríssimo lugar!)... É claro que este exemplo não é inocente e que com ele apenas pretendo chamar a atenção dos meus prováveis leitores para o facto de nesta questão de escolher a melhor maneira de passar férias a imaginação poder ser muito melhor auxiliar que uma conta bancária bem recheada.
E já que estamos em mês de praia, recordo algumas por onde já passei, como Albufeira, Maspalomas, Cap d'Agde ou Capri, em que nesta altura as pessoas quase se acotovelam para conseguir um lugar ao sol, circular areia fora e poder chegar à beira-mar, a fim de poder molhar o seu pézinho... Muito mais calmo e retemperador que toda essa agitação poderá ser um fim de tarde aqui bem perto, na sempre bonita, sedutora e apetecível praia da Nazaré, namorando e curtindo devidamente um lindíssimo pôr-do-sol, de mão dada, olhos nos olhos... Podem crer que pode não ser nada caro e que se poderá mesmo tornar absolutamente inesquecível.
Já agora, aproveitem para jantar por lá, num dos seus óptimos e peculiares restaurantes, comendo um divino e eternamente apetitoso peixinho grelhado e bebendo um daqueles celestiais e aromáticos vinhos brancos com que a subtil natureza mediterrânea e a melhor Enologia brindaram o nosso país... Boas férias! Onde quer que seja!
José Alberto Vasco
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