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| Esquizofrenia ou Embuste? |
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Nuno Miguel Cruz
O PS é um PSD, o PSD é um PSD, mas que também é um PP, o PP é um CDS e também um PP, o PC é um PC mas que também é um CDU e o BE é um PS plural. A juntar a isto temos que o PSD também é um bocadinho monárquico, e os verdes são também vermelhos. Confuso?
O PS é um partido Social-Democrata, pelo menos formalmente. O PSD é um partido Social-Democrata, pelo menos formalmente (tentou inclusive entrar na internacional socialista). Eu digo formalmente, porque costumo ouvir na rua que “o que eles querem sei eu!”.
Se encararmos as próximas eleições do ponto de vista do voto útil, temos a seguinte escolha – ou um partido social-democrata, ou um partido social-democrata. Isto é, as eleições servirão para escolher o líder desse partido social-democrata. Ou seja, mais ou menos, como uma eleição interna de um partido, em que se escolhe entre o Excelentíssimo Engenheiro Sócrates ou a Excelentíssima Doutora Manuela, cada um com o seu programa, ou não.
Acontece que o PSD é um mistério. Ninguém sabe verdadeiramente qual a sua ideologia, umas vezes é social-democrata, outras vezes é conservador com umas tendências liberais e outras vezes com tendências vindas da democracia cristã, outras ainda, são liberais sociais. Depende do líder que estiver lá, ou conforme a direcção dos ventos políticos, ou ainda por estar no contra, isto é, na oposição.
Já o PS, que umas vezes é vermelho, e outras vezes é cor-de-rosa, é na verdade um PSD.
Mas a perspectiva do voto útil é uma perspectiva zarolha, porque todo o voto é útil. Todo. O. Voto. É. Útil. Até o branco.
O CDS-PP consegue fazer a quadratura do círculo. É um partido democrata-cristão, mas ao mesmo tempo é conservador e ainda liberal. É fantástico. Talvez por isso seja muito apelativo aos capitalistas católicos. São pessoas fantásticas, os capitalistas católicos. Fazem lembrar os super-heróis, que conseguem subir para baixo e descer para cima.
O PC é o PC, mesmo sendo CDU, aqui não há grandes dúvidas.
O BE é um PS, ou seja, partido socialista, plural e não dogmático. Vou ser sincero. Ainda não percebi muito bem o que isto é, e desconfio que nem eles próprios sabem muito bem o que são.
Estes são os partidos representados no Parlamento.
Vamos imaginar agora, que há um partido que corresponde à ideologia maioritária do povo português, e que apresenta, por inspiração divina, um programa governativo perfeito, divinal, para realizar os objectivos da sua ideologia. Esse programa seria inexequível. É que o povo português não é muito eficiente. É desorganizado e parece que tem orgulho nisso. Pensa que é uma sua característica. Uma coisa portuguesa. Que lhe dá originalidade. Chamemos-lhe de portuguesice. Mas se formos a um país do 3.º mundo, nesse país, terá ainda mais portuguesices. A “portuguesice” não é uma nossa característica, nem deve fazer-nos rir.
O estado em que está a educação em Portugal faz-me crer que daqui a 30 anos Portugal vai ter ainda mais portuguesices. Seremos por ventura um país com mais doutorados, mas não mais inteligentes, não mais organizados. A própria existência, ou independência estará ameaçada por essa razão. Não é por acaso que os seres vivos são organizados, a morte é justamente a sua desorganização.
Uma última palavra sobre as eleições europeias. A social-democracia foi a grande derrotada. Na impossibilidade de concretizar os seu objectivos foi lentamente concedendo, e aproximando-se de políticas liberais. Por sua vez, não foram os conservadores que ganharam. O PPE desceu dos 36,7% para os 35,9%. O PSE desceu dos 27,6% para os 21,9%. Os liberais desceram dos 12,7% para os 10,9%. Quem subiu? – os verdes dos 5,5% para os 7,2% e variabilíssimos partidos da extrema-direita, que juntos subiram – dos 3,8% para os 12,6%. Os partidos tradicionais não apresentam programas credíveis para os novos problemas. E um desses grandes problemas é o problema muçulmano, que no futuro poderá vir alguém com uma solução final…
Era bom os partidos começarem a pensar na sua ideologia, e em programas credíveis e eficientes para concretizarem as suas ideologias, quaisquer que sejam, porque se é no poder que pensam, virá alguém, mais cedo do que mais tarde, com uma ideologia. O que poderá ser bom, ou não… E não basta dizer-se que são de esquerda, ou de direita, ou do centro, porque mais vago que isto é impossível, se é que esses termos têm algum significado.
Nuno Miguel Cruz
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| 30-06-2009 |
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