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Edição Nº 77 Director: Mário Lopes Terça, 20 de Março de 2007
Caldas assinalou golpe falhado contra a ditadura
Fernando Rosas: golpe militar de 16 de Março revelou a fraqueza do regime

     


O 16 de Março foi contado pelo historiador
e pelos próprios protagonistas

Ferreira da Silva, um militar exaltado de Lamego, foi o principal instigador do golpe falhado contra a ditadura, lançado a partir do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha na noite de 16 de Março de 1974. A confissão partiu do próprio e foi corroborado por muitos militares revoltosos presentes na conferência do historiador Fernando Rosas.  A iniciativa inseriu-se num conjunto de iniciativas  promovidas pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha com o apoio da Associação PH-Património Histórico e Escola de Sargentos do Exército.
 
      As comemorações iniciaram-se com uma visita ao antigo RI 5 – actual Escola de Sargentos do Exército – onde os militares reviveram e falaram da noite de 15 para 16 de Março de 1974. Seguiu-se um almoço de confraternização e pelas 15 oras foi inaugurado no Museu do Hospital um mostra fotográfica subordinada àquela data.
 
      Pelas 16h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho,  realizou-se uma Conferência/debate com o historiador Fernando Rosas que desenhou o cenário que se viveu tempos antes da Revolução e o conjunto de factores que a ditaram. Estiveram presentes na mesa os presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal das Caldas da Rainha, Fernando Costa e Luís Ribeiro, respectivamente, Franco Pinto, chefe de gabinete do Governador Civil de Leiria e o major general Alfredo Nunes Periquito, em representação do Exército.  

     


Fernando Rosas

Fernando Costa manifestou o apreço e orgulho da autarquia pelos militares que participaram no golpe militar perpetrado pelo Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, revelando que a ideia de comemorar anualmente esta data surgiu há 2 anos a partir de um encontro meramente ocasional.

       Por sua vez, Franco Pinto recordou que só damos valor às coisas quando não as temos, como a saúde ou a liberdade. O representante do Governo revelou que participou pela primeira vez numa reunião política em 1973, quando tinha 18 anos, numa sessão, vigiada pela polícia política, promovida pelo Movimento Democrático Português (MDP) em Peniche. Retomando à actualidade política, o chefe de gabinete do Governador Civil defendeu que os números são importantes, mas não chegam para fazer um povo feliz nem dar sentido à vida.”

      De seguida, Fernando Rosas agradeceu o convite que lhe foi dirigido por Nicolau Borges, presidente da Associação PH-Património Histórico, começando por referir que “as coisas que falham são o prelúdio das coisas que vencem”, acrescentando embora que “foi o prenúncio do 25 de Abril, mas podia ter sido o seu fim”, se o Governo de Marcelo Caetano entregasse o caso à PIDE.

     


Ferreira da Silva, de Lamego, instigou
os camaradas das Caldas a saírem à rua

Para o historiador, licenciado em Direito, mas doutorado em História dos séculos XIX e XX, em 1990, o 16 de Março revela a fraqueza do regime, que não tinha legitimidade política nem força social. Fernando Rosas referiu que o primeiro factor a abalar o regime foi a crise petrolífera de 1971, fazendo subir a inflação para os dois dígitos e mostrando que o regime ficara sem dinheiro para sustentar o esforço de guerra em África que, na altura, representava quase 40% do Orçamento de Estado.

       Por outro lado, a partir de 1973 começou um surto de agitação social no País, com cerca de 100 mil grevistas em vários sectores de actividade e agitação estudantil nas universidades, traduzindo a oposição à guerra colonial. O terceiro factor que conduziu à queda do regime passou pelo cansaço de guerra, abalando as Forças Armadas nos escalões de comando intermédio, precisamente os que ocupavam os teatros de guerra.

      O quarto factor foi o aparecimento do livro “Portugal e o Futuro”, do general António de Spínola. Segundo Fernando Rosas, as soluções federalistas do então vice-chefe de Estado Maior General das Forças Armadas eram já muito conservadoras para a época, mas tiveram o mérito de admitir que a guerra não valia a pena. 

     


Otelo Saraiva de Carvalho retirou lições
do 16 de Março para o 25 de Abril

O historiador, professor catedrático desde 2001, contou que o golpe das Caldas se seguiu à publicação do livro de Spínola, o qual deixou o então primeiro-ministro à beira da demissão. Marcelo Caetano chamou mesmo os chefes militares Costa Gomes e Spínola para lhes entregar o Poder, o que estes recusaram. Também o então Presidente da República, Américo Tomaz, não aceitou a demissão, com o argumento de não ser altura de Caetano abandonar o barco numa situação difícil.

       A recuperação da credibilidade perdida de Marcelo Caetano passou por um voto de confiança na então Assembleia Nacional e pela manifestação de confiança das chefias militares no que passou à história como o “beija-mão” da “brigada do reumático”, em alusão à provecta idade dos militares presentes.

      Para Fernando Rosas, a revolta das Caldas traduziu um sentimento partilhado na generalidade das unidades militares contra o “beija-mão” e a provável demissão do general Spínola, o que veio a verificar-se após a ausência deste e de Costa Gomes na sessão de reconhecimento da autoridade do primeiro ministro Marcelo Caetano. Segundo o historiador, muitos dos militares revoltosos eram próximos do general Spínola e quiseram demonstrar o desagrado pela afronta ao seu chefe militar, apesar deste desconhecer e se demarcar mesmo deste tipo de iniciativas, tendo proposto antes uma passeata de militares em uniforme nº1 na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

      No período de intervenção do público, intervieram vários oficiais, entre os quais o coronel Ferreira da Silva, na altura do golpe o principal instigador da saída dos militares do então Regimento de Infantaria 5, actualmente, Escola de Sargentos das Caldas da Rainha. O militar, que se auto-intitulou “o incendiário de Lamego”, admitiu que telefonou para o RI5 informando que a sua unidade iria avançar sobre Lisboa, com ou sem o apoio dos seus colegas de armas, contribuindo assim para  a saída precipitada da unidade das Caldas em direcção a Lisboa.

      Os militares contudo, foram mandados para trás, já em Lisboa, pelo coronel Monge, um dos oficiais do Movimento das Forças Armadas, que percebeu a inviabilidade da tentativa de golpe diante do elevado número de forças do regime que esperava a coluna revoltosa em Lisboa. O golpe culminou com a prisão de cerca de 200 militares do RI 5.

      António Mendes, um antigo militar do RI5 que enveredou pela vida civil como farmacêutico na Batalha, propôs à autarquia a criação de um monumento aos militares revoltosos das Caldas da Rainha, considerando insuficiente a Medalha de Ouro da Cidade atribuída já à unidade.

      A última intervenção esteve a cargo de Otelo Saraiva de Carvalho. O principal estratego militar do 25 de Abril foi informado em Lisboa da saída da coluna militar já depois desta ter saído, em plena madrugada de 16 de Março de 1974, tendo-se dirigido então ao seu encontro. Contudo, deparou com uma elevada concentração de unidades militares e GNR à entrada de Lisboa. O golpe abortara, mas este conhecimento da forma de defesa do inimigo ser-lhe-ia útil depois no golpe de 25 de Abril.

      Num jeito teatral que cativou a assistência, Otelo contou que pediu ao capitão Salgueiro Maia para ocupar o Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia 25 de Abril de 1974, de forma a atrair todas as forças do regime e, assim, permitir que as tropas do MFA controlassem, sem oposição, outros alvos militares na cidade.

      Otelo revelou ainda que o major Casanova Ferreira procurou por todos os meios aliciar unidades militares para derrubarem o Governo, sobretudo, os páraquedistas e a Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Contudo, estas recusaram participar face à fragilidade dos planos apresentados, mas Casanova Ferreira não desarmou, acreditando que, mesmo sem planos, “basta sair uma unidade para saírem todas as outras atrás.”

      O adiamento da revolta proposto por Otelo e aceite por Casanova, seria, contudo, contrariado pelo capitão Virgílio Varela que não aceitou a ordem de desmobilização. Os militares do RI 5, apesar das dúvidas que os assaltavam,  como foi testemunhado nesta conferência, neutralizaram o seu comandante e saíram em direcção a Lisboa. O 16 de Março estava na rua.

      Mário Lopes

 


 

20-03-2007
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Comentário de adérito dos santos pinheiro
28-03-2011 às 17:36
pois , eu , fiz o 16 de março , era intruento, estive com uma mg42 , no ninho de metralhadoras , junto ás nitreiras , grande susto , pois do lada de lá havia mais de1oo , militares , de leiria lneu munero é oo1oo94/74
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