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Edição Nº 44 Director: Mário Lopes Quarta, 2 de Junho de 2004
Tomar
Fatias de Cá repõe “T de Lempicka” aos sábados

Cartaz 

Encontra-se neste momento em representação pelo grupo Fatias de Cá, todos os sábados e até ao final do ano, a peça "T de Lempicka" do canadiano Jonh Krizanc. A peça "T de Lempicka" revela excertos de uma época tenebrosa e fascinante na Itália de Mussolini, plena de intrigas amorosas e políticas e tem como cenário o Claustro dos Corvos no Convento de Cristo em Tomar.
Adriano Milho Cordeiro, do Fatias de Cá, relata aqui a trama que está por detrás desta peça.

Depois de uma iniciática fila de espera muito conectada com o local onde nos encontramos, somos conduzidos por um mordomo, Dante Fenzo, ex-gondoleiro para o Il Vittoriale degli Italiani a casa de campo de Gabriele d"Annunzio. No final da fila aguarda-nos um camisa-negra mussoliniano que nos carimba um passaporte válido para dois dias: 10 e 11 de Outubro de 1927. Está para chegar precisamente nesse dia 10, a senhora Tamara de Lempicka (1898-1980) naquela época uma encantadora e jovem pintora polaca que pensa ir para Il Vittoriale pintar o retrato de um grande homem Gabriele d"Annunzio.

Contudo logo que toma contacto com o grande poeta, fica surpreendida por o ver mais interessado em seduzi-la do que em pagar-lhe o trabalho que lhe encomendou e que a fez sair de Paris. Assim sendo, apercebemo-nos ao longo da acção da dicotomia feminilidade-masculinidade que Tamara de Lempicka estabelece e que se tornará uma postura muito própria da sua personalidade, acreditando que todos os seres humanos, homens e mulheres, são uma mistura destas duas componentes: na peça o retrato de Gabriele d"Annunzio não chega sequer a ser esboçado pela famosa pintora.

Uma das características da peça assenta no facto de ser exibida simultaneamente em várias salas, devendo cada espectador de per si seguir apenas um dos actores ou a trama que quiser. Não existe à partida qualquer caminho definido. Só é proibido deixar uma cena a meio. Os grupos de pessoas são convidados a separar-se para multiplicar as fontes de informação. As opções que cada um fizer determinam o que poderão contemplar. Porém, não é proibido "trair" a personagem.

Podemos ouvir as urdiduras conspirativas dos criados na cozinha ou indagar o que se passa no quarto de Il Comandante quando este se encontra com Lempicka. Os sempre curiosos e estimulados espectadores sobem e descem escadas, percorrem de modo silencioso e apressado os corredores do "Il Vittoriale degli Italiani", em Gardone, no Norte da Itália, uma espécie de virtual prisão domiciliária ordenada por Mussolini ao Comandante, militar, poeta, romancista e autor dramático Gabriele d"Annunzio. É que os seus homens idolatravam-no pelo seu heroísmo apaixonado e ciatividade excêntrica. A pujança da sua oratória havia conduzido a Itália à I Guerra Mundial.

Pouco depois do final da guerra, profundamente triste e de certo modo frustrado pelo fracasso diplomático por não ter conseguido a integração da cidade de Fiume na Itália, d"Annunzio numa tentativa de obrigar as potências vencedoras a tomar uma decisão diferente em relação àquele problema, operou por sua conta e risco ocupando, com soldados entretanto desmobilizados mas que lhe eram fiéis, a cidade durante 18 meses - Maio de 1919 a Dezembro de 1920 - até que o embaraçado governo italiano o conseguiu expulsar.

A popularidade do Il Comandante bem como a sua influência eram poderosos meios de fazer avançar fosse o que fosse, quando apoiava os líderes com as suas palavras. A sua imprevisível natureza da filosofia política faziam dele uma ameaça potencial. Por isso Aldo Finzi, ex-subsecretário de estado de Mussolini, oriundo de uma pobre família judia e de certo modo estrangeiro do ponto de vista da política oficial do regime fascista, deve espiar toda a casa e enviar para Roma a totalidade do que sabe. Carregando a origem judia no mais profundo do seu âmago tudo faz para readquirir junto dos altos dirigentes do partido fascista, a reputação algures perdida por ter assassinado o socialista Meteoti, o que veio a ter repercursões internacionais. É que no Il Vitorialle, os criados e os convidados surgem-nos também plenos de surpresas.

Os factos sucedem-se como na vida real, chegando a acontecer ao mesmo tempo oito cenas. A casa Il Vitorialle é um antro de intrigas políticas e eróticas, onde nada nem ninguém é o que parece. A decoração é requintada, o vestuário das personagens sumptuoso e o ambiente permite que o público interiorize uma Itália fascista dos anos 20 onde impera a violência e a intriga. Os espiões da polícia proliferavam e o reino do arbítrio havia sido instaurado, sobretudo desde 1925 com a subida em definitivo de Mussolini ao poder.

À medida que a peça decorre amamos, odiamos com os actores; aproximamo-nos mais deste ponto de vista emanado por este personagem e afastamo-nos daquele e estando no Convento de Cristo de tal modo iniciados nos sentimos, que partilhamos o pulsar irónico, trágico às vezes, quase esquizofrénico de uma ou outra personagem daquela Itália, berço de ditaduras.

Naquele imenso Convento que na mente do espectador é sem dúvida o Il Vitorialle, não é só a liberdade das personagens que deambula coartada de sala para sala, num crescendo ambiente claustrofóbico, porque o ditador Il Duce assim o desejava. Aliás Mussolini sabia perfeitamente que Gabriele d"Annunzio, esse exótico italiano da viragem do século, poeta e patriota, poderia a dado momento ter travado a sua ascensão ao poder.

Desde o princípio que o espectador não é um ser passivo naquele enorme palácio, mas um agente que comunga com os actores e vive de modo particular e pessoal as suas dores. No "T de Lempicka" perscrutamos uma época plena de contaditórios, às vezes quase inexplicáveis, de correntes e opiniões políticas, artísticas de fragmentações quase heteronímicas e pessoanas do eu.
"T de Lempicka" é um espectáculo com um recorte fio de ironia a raiar por vezes o humor, onde sem pressentem substratos artíticos de modernismo e surrealismo. É simultaneamente um jogo de recepção e de suspense, uma revisitação ao universo da elegante Itália pré-fascista.

Sentimos que os personagens carregam consigo as suas origens, que os seus comportamentos são disso fruto, sendo obrigados a tomar algures e de certo modo, posições paradoxais que se podem explicar pelo facto de terem nascido no seio de uma família judia, de terem vivido na extrema miséria, tentando subir a todo o custo, escondendo as verdadeiras origens e passando brutalmente por cima de tudo e todos; suportam lembranças de fuga aos rigores da revolução bolchevique e por isso não podem compreender a essência do comunismo; arcam com traições e desamores; ou apesar da sua nobreza tornam-se comunistas a tal ponto que a defesa desses ideais os leva a morrer pela causa.
Mas o que se poderia esperar no Claustro dos Corvos - perdão no Il Vitorialle? - não são essas emblemáticas aves por excelência símbolos de morte?!

E depois interrogamo-nos sobre o relativismo da vida e as peripécias que ela nos reserva. Sentimos que latentes conflitos que se agudizaram antes e durante a II Guerra Mundial pulsam por ali mesmo à nossa frente e cá bem no nosso interior questionamo-nos se tudo não poderia ter sido doutro modo e se não teria sido possível evitar essa loucura de catastrófica mortandade, dispersão e sofrimento que esse funesto acontecimento acarretou.

Observar diferentes prismas, diversas concepções do mundo e desejos no "T de Lempicka" é mergulharmos na História recente da Humanidade, é compreendermos melhor o nosso hodierno mundo, a nossa trágica e irónica contemporaneidade plena de contraditórias e inexplicáveis atitudes.

A duração da peça é de 2 horas e 10 minutos, metade para cada parte, com jantar durante o intervalo. O público observa a acção seguindo os actores que entram e saem das diversas salas, chegando a haver 8 cenas simultâneas. A complexidade do enredo pode provocar o desejo do espectador em regressar para voltar a ver a peça. Nesse sentido, o preço da entrada (que inclui o jantar), é de 25 euros na primeira visita, 20 na segunda e 15 euros nas seguintes. O controlo é feito através de um passaporte fornecido à entrada a cada espectador.

Texto de Adriano Milho Cordeiro (Fatias de Cá)

02-06-2004
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