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Edição Nº 141 Director: Mário Lopes Quinta, 19 de Julho de 2012
Opinião
Os Princípios, Os Fins e as Ervas Rasteiras
   


Valdemar J. Rodrigues
Professor da
Universidade Lusófona

   Os princípios são o que a palavra diz: os lugares gerais e amplos plenos de significado de onde se parte à procura de algo; os prelúdios harmoniosos de uma narrativa qualquer que permitem acompanhá-la e compreendê-la. Os princípios são os nascentes germinais de onde se parte para uma viagem. Se fosse possível regressar depois dela ao ponto exacto de onde se partiu; se esse ponto e nós pudéssemos permanecer exactamente iguais depois do percurso e do abandono, então não seria possível distinguir fim e princípio. Daí que para a vida os princípios não bastem: apenas com eles ela equivaleria a uma não-vida candente e imutável. Equivaleria a ficar imobilizado diante da circularidade do tempo. O caminho – dizem-nos – faz-se caminhando, e somente pelo caminho se percebe aonde os princípios nos podem ou querem levar. É claro que existem princípios mais gerais e abertos do que outros; é óbvio que há princípios que nos são mais ou menos estranhos ou impostos; mas a ideia resulta sempre idêntica: quando o princípio é demasiado perfeito, ou definido ou particular, ele acaba por colocar no horizonte dos homens, como guia, uma luz falsa que não é mais do que o reflexo de si próprio, aqui e agora. Luz anterior e exterior ao homem que caminha, e que lhe segreda à consciência sempre que esta se ilumina: «No fundo ao partir já chegámos; ao nascer já estamos todos mortos.» E podendo bem ser assim, ousemos para já recusar essa circunstância cruel da absoluta inutilidade de vivermos. Admitamos pois que vivemos ou seja, que estamos vivos, e que isso vale a pena de irmos caminhando. É então que surgem, contra os princípios demasiado perfeitos, os princípios-irmãos-inimigos sem qualquer linha de rumo e que tudo permitem, que exaltam a vida enquanto a vida se vai esfacelando aos poucos de encontro à escuridão mansa dos rochedos. Ao contrário dos primeiros, estes princípios não negam a vida mas mostram-se incapazes de resistir ao espectáculo da sua destruição. Nem uns nem outros bastam, como se vê, para assegurar a utilidade ou a dignidade da vida humana. É portanto necessário haver no céu mais do que uma estrela. É pois necessário caminhar; necessário que ao caminhar pensemos, e que ao pensar nos lembremos quem somos, de onde vimos e para onde vamos. Generalidades, portanto. 

   É certo que as leis se inspiram, ou procuram inspirar-se, sempre em “bons” princípios; que mais ou menos “positivadas”, elas visam essencial e principalmente o bem da sociedade humana e de cada homem e mulher como seu membro. Mas há desde logo que prestar atenção à suposta “bondade” dos princípios que as enformam, tendo em conta o que anteriormente se disse. Muitos princípios, na sua ânsia de perfeição ou de liberdade, tornam-se inimigos da vida humana. E a todos o povo tende a aceitar como “bons”, especialmente quando é débil a sua aptidão para a Filosofia, e precário o seu entendimento da História. Para se ver ao ponto a que chegámos a propósito desta debilidade, veja-se a importância que actualmente a sociedade atribui à “legalidade” das acções humanas e, no limite, à circunstância da natureza humana (veja-se a espantosa indiferença com que tantas vezes ouvimos a expressão “emigrante ilegal”: homem tornado ilegal apenas porque deseja movimentar-se num planeta que é – ou devia ser – o lugar de todos, o tal “mundo comum” que nunca passou de pura retórica). Julgando que uma acção é necessariamente boa ou justa bastando para tal que seja considerada legal. Esquecendo que a sociedade é essencialmente imperfeita e não se rege, nem deve reger-se, com a precisão de princípios de um relógio suíço. Esquecendo e fazendo esquecer imprudentemente a História, essa memória fundamental do caminho que o homem trilhou e do ponto germinal de onde um dia partiu. Já ninguém parece lembrar-se de que um dia em Portugal a PIDE-DGS foi perfeitamente legal, tal como foram ilegais os partidos políticos. É algo arrepiante que já ninguém queira ou consiga lembrar-se como um dia na Europa os campos de extermínio russos e nazis foram considerados, pelas respectivas sociedades políticas, como instalações absolutamente legais. Querer confundir legalidade com bondade, ou com justiça, é um erro demasiado óbvio e grosseiro; um erro que só cometem as sociedades em estado avançado de decomposição, e respectivas “elites” políticas e intelectuais demasiado rasteiras e corrompidas. Nada neste razoado é portanto técnico, como convém a uma explicação forte e duradoura do fenómeno social. A verticalidade humana impõe que caminhemos acima da erva rasteira, até para que saibamos sempre distinguir a daninha. Boa noite, e que Deus tenha piedade de nós.
19-07-2012
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Comentário de Paulo Rodrigues
27-07-2012 às 16:35
Imperfeitos...a caminho de mais perfeição...valores éticos e morais precisam-se e precisamos de colocá-los em prática. Numa sociedade cada vez mais egoísta, gananciosa e corrupta. Vamos caminhar sobre as ervas rasteiras de cabeça erguida, de olhar frontal e convicções fortes, decididos a distinguir o bem do mal...e a fazer o que esta correcto. Valores e principios só fazem sentido quando se vive de forma coerente...não basta afirmar-los, defini-los é preciso vivê-los.
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