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Edição Nº 82 Director: Mário Lopes Terça, 21 de Agosto de 2007
Opinião
Calão, gírias e alcunhas
   


Henrique Tigo

Todos os dias na nossa vida, utilizamos as alcunhas, o calão e a gíria, quase sem darmos por isso. Utilizamos estes conceitos quando estamos entre amigos ou conhecidos e para identificarmos este ou aquele indivíduo das nossas relações ou até mesmo da vida pública. O calão é considerado o Português diário, comum ou quase secreto que misturamos com a gramática para que a língua se sinta viva e útil.

    As palavras e as expressões, formadas pela tradição e automatismo, que regem a linguagem popular, serviam desde sempre a determinados grupos sociais ou profissões para simplificar o seu falar ou o tornar imperceptível a estranhos. As teorias não são fixas nem definitivas, mas devemo-nos contentar com o vocábulo gíria, perdendo hoje actualidade para o calão, por sua vez derivado, ao que se julga, de caló.

    Um dos exemplos que podemos encontrar da morte, rápida e implacável, dum tipo de gíria será o calão militar. Um aglomerado de homens de diversos estratos sociais, profissionais e geográfico-étnicos, forçados a extrema intimidade e coesão, tanta vez em contacto com terras estranhas, gentes e costumes, favorece o linguarejar, por carência de compreensão ou por desastio de caserna. A gíria militar, tal como outras, sempre assumiu uma forma de vigência coerente com a própria vida social.

    É sintomático que mesmo ao nível do vocábulo que a define, a nossa linguagem popular reflecte uma continuada relação entro os povos. É com a continuada necessidade e gosto dos núcleos sociais que se continua a utilizar os códigos de palavras contribuindo para a evolução e fluidez do idioma. A gíria militar, tal como outras, sempre assumiu uma forma de vigência coerente própria da vida social.

    “Assim que a tradição oral aproveitasse, por exemplo, das tradições religiosas medievais, as mais divulgadas da época como forma de comunicação e mesmo de condução de massas, algumas das mais antigas e usuais formas de dizer populares. Registamos o “pão nosso de cada dia” (o que é quotidiano); “às ave-marias” (ao fim da tarde); “credo!” e “ em menos de um credo” (interjeição e sinónimo de rapidez porque se tende a debitar rapidez nas preces do culto); “cinco mandamentos” (a mão); etc., etc.”

    A evolução do calão, da gíria, assim como das alcunhas é reflexo da evolução do homem, dos seus usos e costumes, dos acontecimentos históricos e das suas conquistas. Com a descolonização surge a palavra “retornados” formando novas gírias. O mesmo se passa com a emigração.

    A linguagem especial dos fadistas, ladrões, varinas, etc. são, muitas vezes, usada para não ser compreendia por outros, em especial pela polícia. Alguns termos têm uma certa analogia com as palavras de uso corrente, outras nem se sabe muito bem como começaram, nem têm explicação.

    Em todas as aldeias do Alto Minho abundam as alcunhas, e de tal maneira imperam nalgumas delas, que é inútil perguntar por alguém pelo nome verdadeiro, ninguém conhecerá a pessoa que se procura, se não se invocar a alcunha. Ela cola-se a todos os indivíduos, sem distinção de sexo, de idade ou de função social.
A maior parte das vezes a alcunha visa ridicularizar o indivíduo, outras, porém, é imposta pela conveniência de fixar melhor a personalidade de alguém, pela substituição do nome legal por outro mais breve e inconfundível, ou pela necessidade de destrinçar pessoas homónimas.

    Repetem-se grandemente os nomes, devido á ocorrência de muitos casamentos na mesma família, inclusive tios com sobrinhas ou tias com sobrinhos. Torna-se, então, importante qualquer dado extra que possa ajudar a identificar a pessoa, e que acompanha o seu nome. Por esse motivo, na identidade de um indivíduo é importante levar em conta alguns elementos acessórios como o nome de sua mulher. Mas aqui também não se pode confiar integralmente, pois era frequente casarem-se as pessoas duas vezes, devido ao alto índice de viuvez. Tão importante ou talvez mais importante que a vinculação ao nome de uma mulher, é o nome do lugar onde o indivíduo vivia ou de onde ele era natural. Hoje, devido à facilidade de movimentação de indivíduos e famílias, esse dado parece irrelevante para identidade.

    As alcunhas em cada localidade para além de brejeiras, advêm por vezes da personalidade do baptizado. Todos sabemos muitas delas. Outras vezes até os lugares, vilas e cidades também são baptizadas. Ourém porque tinha a feira "dos três" era conhecida por ser a terra mais honrada do País. Porém, Ourém não perdeu esse tique brejeiro e ao mesmo tempo hilariante, e vai daí rebaptizou a praça Dr. Agostinho Albano de Almeida (vulgo centro histórico), por "Eira da Pedra".

    A crença de que alcunhas se tenham tornado nomes de família não parece corresponder à verdade. As alcunhas eram indicadas muito distintamente e serviam como identificador quando havia muitos nomes iguais no mesmo lugar. Pelo menos nos documentos das Igrejas da Vila de Almada, as alcunhas eram sempre indicadas com muita clareza e não acompanhavam os nomes de filhos e netos.

    O abandono de um nome da linha paterna por um nome da linha materna pode ocorrer, e isto foi comum em Portugal, na época do domínio espanhol, quando o último sobrenome era o da mãe, e o sobrenome do meio é que era do pai. Erros e má interpretação de funcionários e escrivães também levam à alteração de sobrenomes, como é o caso de uma família italiana que veio de Génova para o Brasil e cujo sobrenome era Covre. Por descuido do funcionário que lhes emitiu documentos brasileiros, teve o sobrenome alterado para Cobra (Os Cobra de Piracicaba).

    Quando os judeus foram obrigados a adoptar a religião católica, desapareceram os Isaac, Jacob, Judas, Salomão, Levi, Abeacar, Benefaçam, etc., e ficaram somente nomes e sobrenomes cristãos. Tomaram nomes vulgares, sem nada que os diferenciasse da maioria dos cristãos velhos, a não ser por vezes a manutenção de algum sobrenome antigo judaico pelo qual o indivíduo era vulgarmente conhecido.

É, portanto, falsa a ideia de que os cristãos novos usavam nomes de árvores como Nogueira, Pereira, Pinheiro Carvalho, etc., para se distinguirem. Estes já eram sobrenomes existentes e pertencentes à própria nobreza de épocas anteriores.

    Existem regras que facilitam muito a leitura dos documentos antigos e mais difíceis. É imprescindível também conhecer de antemão as formas de abreviatura comuns em cada época. São abreviados não somente palavras nos textos do documento como também os nomes das pessoas. Alguns nomes e sobrenomes passaram a existir a partir de abreviaturas como por exemplo "Roiz" abreviatura de Rodrigues, Brites abreviatura de Beatriz, Alves provável abreviatura de Alvarez, etc.

    Em Portugal, é frequente as pessoas terem quatro, cinco, ou mesmo mais palavras no seu nome. E ainda há as partículas "de", "dos", etc. Normalmente os pais, ao baptizarem os seus filhos não se preocupam com isso, mas é claro que pode acontecer que as letras iniciais das palavras do nome formem uma palavra portuguesa, caso em que essa palavras se pode tornar numa alcunha. Imagine a Rita Inês Costa Almeida. Ela será a Rica, mesmo que provenha de uma família menos abastada.

    Têm ainda em comum o facto de pertencerem ao grupo das alcunhas comportamentais – o maior de todos – que criticam atitudes e modos de estar, excêntricos ou mesmo normais, e englobam, segundo os cálculos de Francisco Ramos. Em muitos casos estão carregadas de uma grande dose de ironia, como sucedeu com quem começou a chamar "Sabonete" a um homem habitualmente mal cheiroso ou "Espertinho" a um indivíduo considerado idiota.

    O segundo maior grupo é o das alcunhas físicas, que sancionam características fisionómicas. É o caso do "Careca", "Coxo", "Bate Estradas" (atribuída a homem com pés grandes), "Apaga Velas" (indivíduo muito alto, característica comum às pessoas que apagavam as candeias de iluminação pública antes de existir electricidade) ou "Retrato de Meio Corpo" (homem de baixa estatura).

    Com base numa recolha, feita em 37 dos 47 concelhos do Alentejo, conclui-se que a maioria dos alcunhados são homens, visto que no Alentejo o meio de sociabilidade ser mais masculino do que feminino. Outra conclusão é que pouco mais de um terço das alcunhas são aceites pelos nomeados, o que significa que são utilizadas principalmente nas costas dos visados.

    Henrique Tigo
    Geógrafo

Bibliografia

PAIS, José Machado;
      Sociologia da Vida Quotidiana – Teorias, Métodos e Estudos de Caso; Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa; Lisboa; 2003

PAIS, José Machado;
      Culturas Juvenis; Imprensa Nacional da Moeda; Lisboa; 1993

BOURDEUX, Pierre;
      O Poder Simbólico; Difel; Lisboa; 1998

NOBRE, Eduardo;
      Dicionário de Calão; 1985; Circulo de Leitores; Lisboa

Internet

http://jn.sapo.pt/2005/04/21/em_foco/alcunhas_desilusao_e_orgulho.html

http://online.expresso.clix.pt/leitor_opi/artigo.asp?id=24740748


 

21-08-2007
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