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Edição Nº 84 Director: Mário Lopes Quarta, 3 de Outubro de 2007
Opinião
O Arquitecto Eugénio dos Santos

   


Luís Rosa

Eugénio dos Santos foi o arquitecto da Baixa Lisboeta, geralmente designada por pombalina.

     A sua obra, candidata a património mundial avulta pela caracterização de uma época, pela racionalidade do traçado, pela funcionalidade dos edifícios e das ruas, pelas novas ideias introduzidas, na segurança, técnicas anti-sísmicas, corta-fogos, higiene pública, pela introdução de esgotos, traçado homogénio dos edifícios que fazem dele um representante notável da época do Iluminismo. Em destaque a concepção da praça do Comércio, expoente máximo da sua obra de arquitecto civilista. Daí que o arquitecto Pardal Monteiro, em obra publicada, considere Eugénio dos Santos como um precursor do moderno urbanismo.

    O arquitecto Eugénio dos Santos e Carvalho de seu nome completo, nasceu em Aljubarrota num dia de Março do ano de 1711. Na rua Direita desta vila ainda se conserva a Casa dos Carvalhos, de janelas aventaladas, reconstrução de 1779 segundo data gravada na ombreira de uma das portas.

    Sua mãe era de Aljubarrota e seu pai da região de Cantanhede, talvez da família de Sebastião José de Carvalho, futuro Marquês de Pombal. O pai era “mestre do risco”, ou seja, arquitecto civil, numa época em que arquitectos e engenheiros eram sobretudo militares. Talvez por isso e pelo prestígio da farda Eugénio dos Santos seguiu a carreira militar.

    Era “arquitecto com ofício de engenheiro” e o posto de capitão quando aconteceu o terramoto de Lisboa.

    Antes do Terramoto distinguiu-se nas obras de remodelação da fortificação de Estremoz, como inspector das fortificações da marinha e arquitecto do Senado da Câmara de Lisboa. Colaborou ainda na construção do Hospital Termal das Caldas da Rainha, juntamente com o arquitecto Manuel da Maia. O Hospital sofreu uma completa renovação desde que o rei D. João V aí viera fazer tratamentos nos últimos anos da sua vida.

    O terramoto de Lisboa foi uma catástrofe de repercussão universal, pela sua dimensão e pelas questões filosófico--teológicas que suscitou. Voltaire escreveu o famoso e extenso “Poema à catástrofe de Lisboa” e faz referência a este assunto na sua obra “Candide”. Eugénio dos Santos cedo se distinguiu nos trabalhos de levantamento dos prédios em ruínas e na enumeração das providências a tomar, sobressaindo sobre outros arquitectos intervenientes.

    Quando o Marquês de Pombal pôs a questão de que fazer de uma Lisboa destruída várias hipóteses foram colocadas.

    A primeira seria de deixar que cada proprietário reconstruísse os seus prédios tal como eram antes do terramoto e dentro da mesma matriz de arruamentos.

    A segunda hipótese defendida por Manuel Maia era a de abandonar Lisboa à sua sorte e construir uma cidade nova para os lados da Ajuda.

    Eugénio dos Santos defendia que tudo fosse arrasado e terraplanado e se concebesse um plano de uma nova cidade de matriz reticular moderna.

    Foi esta a hipótese que vingou.

    O Marquês de Pombal não atribui a um homem ou equipa a tarefa de planificação senão que colocou em aberto o concurso de ideias sobre a nova Lisboa.

    Foram apresentadas seis propostas, das quais a terceira, em colaboração, e a quinta eram da autoria de Eugénio dos Santos.

    Foi a proposta número cinco, com as suas ruas largas e perpendiculares, com a concepção da Praça do Comércio, a definição de funcionalidades e processo arquitectónicos aquela que foi escolhida e que serviu de base à Lisboa pombalina tal como hoje a conhecemos.

    Eugénio dos Santos introduz na reconstrução de Lisboa processo arrojados e conceitos inéditos como o saneamento, a racionalidade, a técnica anti-sísmica designada por “gaiola”, os sistemas contra fogo, a normalização dos materiais, a volumetria e o equilíbrio entre a largura dos arruamentos e a funcionalidade do seu destino.

    Por isso o arquitecto Pardal Monteiro, em obra publicada, considera Eugénio dos Santos como o precursor do moderno urbanismo em arquitectura.

    De tal modo foram avançadas as soluções de arquitectura idealizadas por Eugénio dos Santos na reconstrução da Lisboa nova e tal era o contraste com a velha Lisboa, emaranhado medieval de ruelas e desequilíbrios, que quando o arquitecto levou os planos da cidade ao Marquês de Pombal, procurava justificar a proposta de “ruas tão largas”, 60 palmos, com passeios e esgotos, uma modernidade nunca vista. Conta-se que o Marquês, que o tratava familiarmente por Carvalho, e era padrinho de sua filha mais nova, lhe disse: “ Parece-te, Carvalho, que as ruas são muitas largas? Tempo virá em que alguém as achará estreitas”.

    O Marquês de Pombal criou para orientar as obras de reconstrução um organismo designado por Casa do Risco das Obras Públicas. Eugénio dos Santos foi o seu director até à sua morte em 1760.

    Neste organismo congregou e dirigiu os melhores arquitectos do seu tempo. Só depois da sua morte lhe sucedeu Carlos Mardel que, aliás, apenas lhe sobreviveu mais dois anos.

    As plantas de Lisboa conservam-se no Museu da Cidade com todo o seu pormenor e traça orientativa e duas assinaturas no canto superior direito: Conde de Oeiras e Eugénio dos Santos.

    Eugénio dos Santos projectou também o ex-libris da cidade de Lisboa, considerado o seu expoente máximo a nível mundial, a praça do Comércio. Pelos padrões de então uma praça deveria ser fechada, seguindo os padrões das praças francesas e de La Plaza Mayor das cidades espanholas. O arquitecto lutou para que a praça fosse aberta para o rio, o Tejo, por onde saíram as naus que abriram o caminho do mar e uniriam os povos todos do mundo.

    Esboçou a estátua equestre do rei, que machado de Castro concretizaria.

    Fez o projecto do arco da rua Augusta que levaria cerca de um século a erigir. Quando o arquitecto morreu discutiu-se a sua “ideia louca” de colocar um arco de tal envergadura em terreno de tão pouca consistência. Processo atávico dos portugueses de discutir indefinidamente o que de facto deve ser feito. Nem a praça nem a Baixa ficavam iguais sem o arco. E ele lá está a atestar o génio de Eugénio dos Santos.

    Não se limitou a Lisboa a obra de Eugénio dos Santos. Quando o Porto pensou reconstruir o velho Palácio da Relação, edifício filipino que ruíra com o tempo e o desleixo, recorreu a Eugénio dos Santos que concebeu o risco, o pormenor e a especificação do novo palácio, sede da justiça no Porto. Ficaria célebre, mais tarde, por lá terem estado presos Camilo Castelo Branco e José do Telhado. O Palácio da Relação é a maior obra civil do Porto. Mais notável e demonstrativo do mérito do arquitecto é o facto de as cidades do Norte do País, particularmente o Porto, Braga e Viana, serem dominadas por arquitectos Italianos, tanto mais que junto à Relação erguera Nazoni a emblemática Torre dos Clérigos.

    Depois da morte de Eugénio dos Santos o Marquês de Pombal determinou que a construção do palácio seguisse rigorosamente as instruções do Arquitecto. Igual procedimento e instruções se seguiram na reconstrução da Baixa. Eugénio dos Santos morreu em 1760. Diz-se que por duas razões. Por excesso de trabalho, dadas as circunstâncias trágicas e catastróficas que lhe calhou viver e as responsabilidades que tinha na reconstrução de Lisboa. E uma segunda razão. Lisboa antes do Terramoto tinha cerca de 40 igrejas e capelas ligadas ao modelo de religiosidade medieval, feito de inúmeras confrarias e devoções específicas.

    Eugénio dos Santos projecta no seu plano apenas oito, igrejas chamadas igrejas salão. Sem torres, amplas, localizadas na baixa-chiado, de esplendorosa decoração interior, significam para a época um modelo futurista de igreja como local comunitário. Assim não o entendeu o clero tradicional que condenou veementemente a concepção do arquitecto.

    Morreu novo, com 49 anos. Mas a obra que legou à posteridade, no caso da Baixa-Terreiro do Paço em vias de serem declarados património da Humanidade, atestam a genialidade e a visão futurista do arquitecto, sem dúvida um dos grandes nomes de cultura portuguesa e um arquitecto que deve ser considerado de dimensão universal. Por bom motivo no monumento do Marquês de Pombal, nos medalhões que ficam imediatamente abaixo da sua estátua, perpetuando os grandes homens do seu tempo, lá está em relevo o arquitecto Eugénio dos Santos.

     Luís Manuel da Silva Rosa

03-10-2007
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