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Edição Nº 124 Director: Mário Lopes Segunda, 7 de Fevereiro de 2011
Opinião
O papel dos Museus Locais no desenvolvimento das sociedades
    


Ana Mercedes Stoffel

Resumo

   Após a recente abertura ao público do Museu da Comunidade Concelhia da Batalha e a pedido do jornal on-line TINTA FRESCA, parece-me oportuno divulgar as principais linhas orientadoras de um artigo que escrevi em 2003, quando elaborava o programa museológico e iniciava os trabalhos de concretização desse mesmo museu. A minha reflexão apontava então para o papel dos museus na tarefa local de inventariação do património e de preservação da memória oral e, sobretudo, para a importância da partilha dessa tarefa com as comunidades. Esse pensamento e esse modo de actuação têm estado presentes durante todo o período de criação do museu e continua em vigor no seu programa de acção presente e futuro, como uma missão fundamental. Os primeiros resultados desse trabalho de partilha entre técnicos, especialistas e população começam a dar frutos. O caminho a percorrer é enorme. Mas o caminho - como dizia o poeta - faz-se andando.
A versão completa deste artigo poderá ser encontrada no nº 1 – 2004 da revista EBURÓBRIGA.

   A investigação e o conhecimento sobre o Património e a História Local representam um precioso contributo para a afirmação e o envolvimento das populações e os museus devem utilizar esta parte da História Social como um objecto de trabalho, não só em iniciativas ligadas a organização de Colóquios, Conferencias ou Debates, mas também utilizando a pesquisa como uma ferramenta de trabalho fundamental para a educação e sensibilização de jovens e adultos. 

   Desde que bem orientada, uma importante actividade de pesquisa histórica, artística ou arqueológica, de organização informática de dados, ou de inventariação de património, pode ser conduzida desde os museus, utilizando a colaboração professores e alunos de escolas ou formando investigadores e relatores, nos grupos etários adultos activos e aposentados. 

   A potencialidade cultural desta iniciativa é enorme e constitui um factor fundamental no desenvolvimento e afirmação das pequenas comunidades, para alem de representar a possibilidade de recolher, conservar e promover cultura em risco, sempre carente de meios financeiros e intelectuais para sua salvaguarda. 

   Se nos referirmos sobretudo aos pequenos museus de região ou de comunidade, seja rural nas aldeias ou de bairros nas grandes urbes, é fácil encontrar nas reservas documentais locais e nos testemunhos artísticos, matéria de estudo e análise, tratado ou inexplorado, que nos permite gerar fortes contributos para a história geral e local dos povos. Uma vantagem que não deve ser esquecida nesta actividade é que, pelo facto dos resultados mais tarde obtidos terem sido intervencionados pelos próprios habitantes, geram, como nenhum outro, um forte sentido de pertença cultural.

   Para quem já trabalhou junto das populações de fracos hábitos culturais, não lhe será estranha a sensação de dificuldade que provoca sentir o seu afastamento medroso daquilo que é considerado trabalho para “doutores”. Este problema de envolvimento, exige da parte dos responsáveis culturais, uma atitude de humildade e sentido social da cultura, que nem sempre temos estado dispostos a empreender, no nosso papel de difusores ou agentes culturais. 

   De todos os campos possíveis de intervenção nas áreas que abordamos, duas parecem-nos verdadeiramente oportunas, pelo seu valor cultural e sentido social de envolvimento: A utilização da Memória Oral e a Inventariação do Património.

   A inventariação do património e a pesquisa e preservação da memória oral são hoje, com a evolução dos sistemas informáticos, mecanismos de fáceis rotinas, tanto no levantamento de dados como no tratamento e complementarização da informação. O património em todas as suas vertentes culturais e naturais, tanto material como imaterial, a memória histórica não escrita, a recolha de testemunhos como a música e dança folclórica, as rezas e mezinhas, ou as receitas gastronómicas locais ou regionais, são um campo de pesquisa inesgotável, que precisa do trabalho e dedicação permanente de todos. 

   As metodologias de execução de projectos de recolha e tratamento encontram-se hoje bem definidas, e sujeitas a parâmetros que explicitam claramente os tempos, as técnicas e modelos de abordagem. As diversas fases de definição de objectivos e execução estão bem estruturadas e definidas e facilitam um trabalho em que com frequência torna-se necessário, testar os resultados em função de diversos enquadramentos. 

   Em ambas tarefas é importante o envolvimento dos técnicos dos museus com professores e jovens nas escolas e com adultos aposentados, que poderão ser excelentes colaboradores no preenchimento de fichas de Inventário de património artístico ou na recolha orientada de memórias, artes e métodos tradicionais. O sucesso e o sentido de responsabilidade que geram os resultados obtidos, indicam este trabalho como um dos mais aliciantes, na tarefa de difusão e pesquisa cultural. De destacar especialmente a importância desse recurso humano privilegiado de apoio e informação, que é a terceira idade. Utilizar a sua maior disponibilidade de tempo e seus conhecimentos acumulados, pode ser, quando bem enquadrado e no campo do voluntariado, um elemento de importante ajuda, aos normalmente fracos orçamentos de pessoal dos museus, enriquecendo a nossa compreensão da sociedade, através daqueles que a viveram e a vivem com maior experiência.

   A tarefa de integrar, com formação e preparação cívica e cultural adequada, a sociedade no seu conjunto, deve ser um dos valores mais importantes a defender pela política geral de um museu, para que a sua missão junto dessa mesma sociedade seja verdadeiramente completa.

   A evolução natural da democracia torna inevitável a passagem de responsabilidades na gestão local às autarquias, às associações e à sociedade civil, como uma exigência prévia para o desenvolvimento regional. Esta situação, ainda em resolução, dá oportunidade aos museus e centros de cultura associativos, de integrar em seus projectos de desenvolvimento e trabalho, acções de sensibilização para um melhor conhecimento da História e uma maior consciencialização cultural das populações e sobretudo, para uma melhor utilização dos seus recursos patrimoniais e humanos, num desenvolvimento local integrado e autêntico. 

   O direito a pensar e agir em liberdade é um dos prazeres e uma das responsabilidades sociais que deve ser promovida junto da população portuguesa. Principalmente, o direito a pensar com elevação em grupo, o direito a divertir-se com elevação em grupo e o direito a escolher o “tempo social” em liberdade.

“...Se o tempo biológico é quase o mesmo para todo o mundo, se o tempo imposto pelo trabalho tem uma forte conotação de classe, o tempo social, este, é realmente escolhido. Cada indivíduo é, ao menos teoricamente, livre para determinar a parte do emprego de tempo que será a ele consagrado.
“...Durante o tempo social e, porque este é efectivamente escolhido por motivos que não são exclusivamente pessoais e egocentristas, o indivíduo, que é ordinariamente objecto, torna-se sujeito a título colectivo, na estrutura de um grupo capaz de iniciativa....”
HUGUES DE VARINE, O TEMPO SOCIAL(1987:67,69)

Os museus podem gerar esses “grupos capazes de iniciativa” e devem ajudar a desempenhar essa missão de preenchimento do “tempo social” em Portugal. Para cumprir esta missão, importantes tarefas e desafios se colocam à nossa profissão de museólogos. No entanto, é uma nobre e estimulante missão ajudar a “pensar autenticamente” e a “trabalhar contra a ignorância” no vasto território da Sociomuseologia portuguesa.

   Ana Mercedes Stoffel
Museologia e Gestão Cultural
Lisboa 7 de Fevereiro de 2011 - Leiria, 18 de Outubro de 2003
07-02-2011
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