Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
Leiria tem condições para ser Capital Europeia da Cultura?
Sim
Não
Não sei / talvez
Edição Nº 37 Director: Mário Lopes Domingo, 30 de Novembro de 2003
Opinião
Inês de Portugal, de João Aguiar

 Aldinida de Medeiros

São tantas, inúmeras as formas de amar. Amores impossíveis, amores invencíveis, amores risíveis. Abandonados, inacabados, maltratados, amores separados. Amores de tantas cores e sabores, amores de tantas dores... infelizes amores!

Dentre tantos, inúmeros e múltiplos amores há um amor que fascina, se destaca, extasia pela sua dimensão e profundidade: o amor de Pedro e Inês. Nascido para durar até ao fim do mundo, para viver na clandestinidade, sofrer o estigma da ilegitimidade e perdurar nas sobras de uma trágica separação, decretada pela força dos ditames políticos, esse amor sobreviveu no claustro do coração ferido do Infante e depois rei de Portugal, D. Pedro I. Foi este amor a companhia de sua solidão depois de morta Inês, até o fim dos seus dias.

Muito já se escreveu sobre a história desse amor, o qual agora se encontra sepultado no Mosteiro de Santa Maria, em Alcobaça, embora não se saiba precisar quantos já são os textos; alguns estudiosos afirmam serem mais de 400, entre peças, romances, poema, ensaios, óperas, etc. O romance Inês de Portugal, de João Aguiar, é um desses muitos e inebriantes textos, que nos fazem adentrar o reino português do período medieval, no ano de 1359. No enredo, vamos encontrar D. Pedro já aclamado rei e, diga-se bem, um rei adorado pelo seu povo, pois que a todos faz justiça e ao reino inteiro governa de bom grado.

O foco narrativo da história está em terceira pessoa, com um narrador que tudo vê e tudo sabe dos pensamentos e angústias das personagens. Entre estas estão em primeiro plano El-Rei, D. Pedro, seu chanceler-mor, Álvaro Pais e o mordomo-mor João Afonso, IV Conde de Barcelos, num enredo que é um constante ir e vir de lembranças destes, e de alguns outros, vistos num segundo plano. Inicia-se a obra com a espera da chegada dos prisioneiros Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, pelos quais Pedro sente sede de vingança, visto terem ajudado D. Afonso, seu pai, a decretar a sentença de morte a sua amada.

Este é o ponto de partida dessa narrativa de ritmo dinâmico, em que as imagens da memória das personagens se movem como perfeitas imagens de uma grande tela de cinema, mostrando fragmentos dos fatos históricos daquele período, o qual, segundo trovadores e menestréis deixou negra mancha na história de Portugal. Não somente pelo brutal assassinato de Inês Pires de Castro, como também pelos acontecimentos sucessivos a este.

No dizer do próprio João Aguiar, o romance Inês de Portugal baseia-se no guião escrito para o filme homônimo, pois os diálogos foram em grande parte escritos para a grande tela, adaptados, depois, para o texto literário. E, como tal, tem de interessante a mescla que o narrador faz entre o discurso direto e o discurso indireto livre, principalmente quando se trata das vozes dos conselheiros Álvaro Pais e João Afonso. Enquanto as lembranças advindas da mente de D. Pedro são carregadas de fortes emoções, pois que são ainda o seu amor por Inês apenas adormecido - e inconformado - as lembranças vividas pelos dois principais conselheiros de El-Rei fazem uma espécie de balanço moral das questões que envolveram o assassinato de Inês e as conseqüentes atitudes de Pedro.

Dá-nos a parecer que o narrador quer deixar transparecer um protagonista sensível, que encontra justificativa nas suas emoções confusas e profundamente abaladas para as atitudes que a História tomou como descabíveis, inaceitáveis para o soberano de uma nação. Porém, numa análise mais amiúde, não há por parte da narrativa nem o compromisso claro de acusar a figura de Pedro, tampouco o de inocentá-lo. Pode ser que uma dessas duas vertentes transpareça mais no filme. Entretanto, não se trata esse texto de uma comparação entre ambos; apenas de motivar os caros leitores à leitura de Inês de Portugal, pela temática que a obra aborda, pela mescla que traz de história e ficção - mais a segunda que a primeira - e pela leveza com que foi escrita.

Valeria a pena fazer uma análise mais profunda do texto, observar certos aspectos que são próprios da criação literária, fazendo a ponte entre história e ficção, trabalhando com as possibilidades que o texto nos oferece enquanto obra literária. Todavia, passaríamos do olhar leve e apreciador ao olhar crítico, teorizado, metrificadamente analítico...

Pessoalmente só discordo do título do livro, embora entenda a ênfase que este dá à figura de Inês. Não que o título não esteja a propósito, pois ficou muito adequado ao tema e ao enredo. Mas, pura e simplesmente por uma razão a qual já mencionei num artigo anterior (vide edição nº 30), a de que Inês já não é somente de Portugal. Inês ultrapassou já muitas fronteiras, inclusive as de além-mar. Inês, posso bem afirmar, há muito que tornou-se não só de Portugal, mas da Galiza, de Espanha, de França, de Itália, do Brasil... de todos, pois não há quem conheça sua história e por ela não se encante.
 

Aldinida de Medeiros Souza
          Mestre em Literatura Comparada
          Aldinidamedeiros@yahoo.com.br

30-11-2003
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
EDITORIAL
Portugal, Descartes e Mourinho
OPINIÃO
João Paulo II: Pai e Amigo
Contramão ao pontapé
J. Vieira Natividade - no 35º aniversário do seu falecimento
Mulheres, a Tinta Fresca da Política
Áreas Metropolitanas e Comunidades Urbanas ou Intermunicipais - Alcobaça, Leiria e o Oeste
Inês de Portugal, de João Aguiar
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o