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Edição Nº 46 Director: Mário Lopes Domingo, 8 de Agosto de 2004
Santarém
Necrópole islâmica medieval no centro histórico contém mais de 50 sepulturas

 O arqueólogo António Matias junto à necrópole islâmica

Mais de 50 sepulturas do período islâmico medieval foram descobertas em Santarém, na sequência da construção de uma rotunda no largo Cândido dos Reis, durante o mês de Julho. Esta poderá ser a maior necrópole islâmica da Europa em bom estado de conservação. António Matias, arqueólogo da Câmara Municipal de Santarém, admite que poderão existir necrópoles mais extensas, mas sem ossadas humanas, uma vez que estas são geralmente corroídas pela acidez dos terrenos ao longo dos séculos. A importância deste achado poderá levar à elaboração de uma monografia e até à criação de um núcleo museológico.

Na sequência da construção da rotunda, a Câmara Municipal de Santarém programou a abertura de valas para a colocação de saneamento pluvial e doméstico, com o devido acompanhamento arqueológico, uma vez que as obras se encontravam na área de protecção do Centro Histórico.

Uma das ossadas encontradas em Santarém

António Matias referiu ao Tinta Fresca que começaram por descobrir uns pés num corte da vala, sendo que o pé esquerdo estava por cima do pé direito, o que levantou a suspeita de que seria um enterramento isolado, embora já suspeitassem que pudesse existir uma necrópole islâmica nesta zona. A obra continuou e conseguiram encontrar mais um núcleo 7 sepulturas que já haviam sido cortadas por outras valas de telecomunicações e saneamentos, depois um segundo núcleo maior e, finalmente, um terceiro núcleo de 20 sepulturas escavadas na rocha.

No total, foram identificados 10 a 20 indivíduos, estando cerca de 10 já levantados, tendo sido também identificadas 54 sepulturas, umas cortadas pelo desenvolvimento da obra, outras com possibilidade de se fazer o registo integral de toda a estrutura.

A classificação das sepulturas como pertencendo à época medieval islâmica deve-se ao tipo de morfologias escavadas na rocha e à posição dos indivíduos. O arqueólogo esclarece que "em Santarém temos casos de sepulturas escavadas na rocha, como é o caso do interior do convento de S. Francisco, uma nave tipicamente cristã, mas o mundo islâmico tem um tipo de rituais muito particular: abria-se uma fossa na rocha e colocava-seo indivíduo sobre o seu lado direito, com a cabeça a sudoeste e os pés situados a noroeste com a cara virada para sudeste, a direcção de Meca".

A datação dos ossos por Carbono 14, poderá contribuir para uma datação mais precisa, com um erro máximo de 50 anos, mas António Matias defende que, numa primeira fase, existem métodos mais baratos, como os morfológicos ao nível do indivíduo e da sepultura que já permitem tirar conclusões. De qualquer forma, lembra que um cemitério é geralmente usado ao longo do tempo, pelo que poderão existir sepulturas com centenas de anos de diferença, podendo serem tanto do século X como do século XIII.

 Um dos crânios descobertos numa das valas

Relativamente à hipótese desta ser a maior necrópole islâmica da Europa, António Matias revela alguma cautela: "Quando digo que se trata talvez da maior necrópole da Europa islâmica quero dizer que, neste caso, cada sepultura corresponde a um enterramento e que os ossos desse enterramento estão em bom estado de conservação, o que não acontece em algumas necrópoles que se encontram, por exemplo, em Mértola, no Alentejo ou no Algarve. Esses terrenos são bastante ácidos e acabam por corroer o osso, pelo que quando se procede à escavação daquela sepultura já não se encontra nada, a não ser, por exemplo, um dente ou o próprio negativo do indivíduo que esteve lá dentro".

Nesta perspectiva, poderá haver necrópoles na Europa com várias centenas de sepulturas, mas com enterramentos e ossos, em média, em mau estado. No caso de Santarém, pelo contrário, estão em bom estado, pois a cidade tem um terreno calcário que acaba por preservar muito bem esses ossos. Considerando que se trata de uma necrópole islâmica do Al-Andaluz - que compreende a Península Ibérica - António Matias não hesita em afirmar que "temos aqui uma boa série de enterramentos".

O espaçamento das sepulturas varia, havendo espaçamentos muito curtos de 30 a 50 com e outros de 1 m ou de 4 a 5 metros. O arqueólogo lembra que os mouros tinham um profundo conhecimento da ocupação do espaço e, por isso, não foram detectadas, até ao momento, sobreposição de sepulturas ou mesmo uma sepultura que cortasse outra, uma vez que os enterramentos tinham sempre uma orientação a respeitar.

No respeitante à profundidade, António Matias refere que esta área está situada numa encosta, mas que a zona seria na época muito mais alta, tendo sido posteriormente nivelada depois de ter sido desmatada e feitas queimadas. Por essa razão, foram encontrados enterramentos a 2,5 m de profundidade e, mais acima, apenas a 40 cm. Considerando que, por norma, existem 10 cm de alcatrão, mais 15 cm de assentamento do alcatrão e ainda um espaço para a brita, o arqueólogo conclui que a estrada foi construída mesmo por cima de alguns enterramentos.

As prospecções arqueológicas irão limitar-se, para já, às valas necessárias para a construção da rotunda para não perturbar a vida dos munícipes. Mais tarde, poderão ser colocadas áreas de escavação maiores para tentar procurar mais explicações sobre esta necrópole islâmica. A autarquia deu conhecimento dos achados ao Instituto Português de Arqueologia, o qual enviou técnicos ao local. António Matias defende que a eventual elaboração de uma monografia e a musealização de um núcleo poderão ser concretizados a médio prazo, pois para já importa fazer o registo e a salvaguarda do património arqueológico e antropológico.

Além do arqueólogo que supervisiona actualmente os trabalhos, a Câmara Municipal de Santarém conta com mais duas arqueólogas nos seus quadros, embora uma esteja destacada e a outra de baixa por gravidez. No entanto, António Matias desvaloriza estas ausências, lembrando que a equipa de arqueologia da autarquia não é só formada por arqueólogos, contando também com operários de arqueologia e uma desenhadora, o que "permite cumprir a missão a bom ritmo".

Outra circunstância que envolveu estas obras, foi a existência de verdadeiras excursões diárias de populares ao local, o que acabou por condicionar o trânsito junto aos Correios e levou mesmo a que a equipa colocasse no local uma faixa separadora vertical, de forma a ocultar a visibilidade dos automobilistas e evitar que parassem para observar os achados. António Matias explica que o mundo da morte ainda é um assunto tabu e, como tal, o ser humano tem uma atracção mórbidas pelas sepulturas: "Funcionam quase como um espelho, as pessoas revêem-se em quem está ali", revela.


          Mário Lopes

08-08-2004
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