Google
Mantenha-se actualizado.
Subscreva a nossa RSS
Twitter Tinta Fresca
O coronavírus COVID-19 vai tornar-se um problema grave em Portugal?
Sim
Não
Não sei/talvez
Edição Nº 230 Director: Mário Lopes Terça, 17 de Março de 2020
Opinião
Aprender a viver com o coronavírus
   
                      Mário Lopes
Desde que apareceu o primeiro caso do coronavírus na cidade de Wuhan, na China, o COVID-19 não tem parado de se espalhar pelo mundo. Primeiro, muita gente pensou que se trataria de um fenómeno regional mais localizado, como aconteceu com a gripe A, em 2009 e 2010, mas rapidamente, o coronavírus atingiu duramente países vizinhos como o Irão e, pouco depois, a Itália, a porta da Europa a partir do Médio Oriente, seguindo-se o resto da Europa e praticamente todos os países do mundo.

   Muito elogiada tem sido a conduta das autoridades chinesas, impondo quarentenas obrigatórias a toda a população, levando à inversão do surto epidémico. Contudo, a propagação do vírus não parou, apenas diminuiu. Isto coloca a questão de um milhão de dólares: pode o vírus ser eliminado com quarentenas forçadas?

   Com cerca de 200 mil casos já confirmados no mundo, a resposta é que muito dificilmente isso poderia acontecer. Primeiro, porque há muitos mais casos por diagnosticar. Em segundo lugar, porque é impossível controlar o cumprimento de todas as quarentenas em milhões de casas e muitas pessoas haverá que são naturalmente indisciplinadas e não as iriam cumprir. Por último, porque há serviços essenciais que têm de continuar a funcionar, nomeadamente, os hospitais que são locais naturais de infeção, por mais medidas de segurança sanitária que sejam tomadas.

   Além disso, mesmo que países autoritários como a China conseguissem erradicar completamente o COVID-19 num determinado momento, rapidamente seriam recontaminados com o coronavírus a partir do exterior, sobretudo, sendo um país fortemente exportador e importador. Não há comércio sem deslocações e contacto entre as pessoas ou superfícies infetadas.

   Portanto, Portugal e o mundo têm de aprender a viver com o COVID-19, que chegou e veio para ficar. O pânico e o medo generalizado são o pior remédio para a atual situação de pandemia. Não é com quarentenas obrigatórias inconsequentes que se resolve o problema, que só irá terminar com a criação de uma vacina específica. Portanto, até lá, temos de reduzir as cadeias de transmissão, o que pode ser conseguido com as restrições já anunciadas pelo Governo e que a população tem globalmente respeitado.

  O aumento de casos dos últimos dias – que tanto alarme social tem causado - deve-se ao facto de não se terem tomado medidas até ao dia 16 de março, data do encerramento de escolas e que colocou mais de dois milhões de membros das comunidades educativas em casa. Também quase todas empresas e instituições só começaram a tomar medidas significativas a partir desta data, sendo, por isso, natural que os casos continuem a aumentar até ao final de março, dado o período de incubação do COVID-19 ser de 14 dias.

  Os três meses – desde dezembro a março - em que não se tomaram quaisquer medidas em Portugal terão como consequência muitos casos de contaminação. Não há como ficar surpreendido, como não há razões para pânico, a pior reação possível perante um cenário grave, que só pode ser resolvido com calma, boa informação e sentido cívico.

   Acresce que a taxa de mortalidade do COVID-19 é de apenas 2% e se é maior que a gripe comum (0,1%), está muito longe de representar qualquer ameaça grave para a maioria das pessoas. A ex-ministra da Saúde Ana Jorge assegurou, no momento em que escrevo, que este coronavírus é uma doença benigna para 80% das pessoas, sendo eliminado naturalmente pelo sistema imunitário. Apenas 20% das pessoas precisam de tratamento, sendo os grupos de risco os idosos, as pessoas com doenças crónicas e as pessoas que apresentem um sistema imunitário debilitado.

   Até agora, o Governo tem reagido bem, embora pudesse ter tomado medidas mais cedo, pelo menos desde o final de fevereiro, quando a situação sanitária em Itália se deteriorou significativamente. Obviamente, a propagação do vírus a Portugal - com fronteiras abertas, voos a circular às centenas diariamente e cruzeiros a atracarem em Lisboa – era uma questão de dias.

   Já o Presidente da República esteve muito mal: primeiro, porque continuou a dar abraços e beijinhos a toda a gente e a manter a sua agenda de visitas como se não estivesse a acontecer nada no mundo, depois porque se refugiou em casa numa incompreensível quarentena autoimposta quando já sabe que não está infetado e deveria estar no seu posto de trabalho no Palácio de Belém e, por último, por vir agora defender o estado de emergência, uma medida radical e contraproducente como já justifiquei neste texto, depois de se ter recusado a dar o exemplo em tempo útil, quando o deveria ter feito.

   Além da sua ineficácia, as quarentenas obrigatórias apresentam ainda outra consequência muito negativa para as pessoas e que deveria ser bem ponderada. Portugal já é dos países da Europa onde mais se consomem antidepressivos e onde a prevalência de doenças mentais é maior. Obrigar milhões de pessoas a ficarem retidas em casa, sem poderem fazer exercício físico – o mais natural e melhor remédio para os estados depressivos -, em muitos casos sem poderem apanhar sol - outro remédio natural eficaz na redução dos níveis de ansiedade (e nem toda a gente tem quintal), não me parece ser uma medida aconselhável do ponto de vista da saúde pública.

   Para lá dos milhares de milhões de euros de prejuízo que a paragem da economia durante duas semanas acarretaria para o País, não há qualquer garantia de que o estado de emergência não tenha depois de ser prolongado: uma, duas, três vezes… No final, teríamos um País ainda a braços com a contaminação do vírus, a generalidade das empresas à beira do colapso e o País com o futuro comprometido por várias décadas.

   A refletir.

   Mário Lopes
17-03-2020
« Voltar

Comentários

Nome:*
Email:*
Comentário:*

* Obrigatório
Ao comentar aceita automaticamente a
política de utilização deste portal.
Para que o seu comentário seja válido deve preencher todos os campos acima indicados como obrigatórios. O email é usado apenas para efeitos de verificação e não será exibido com o comentário. Os comentários deste portal são moderados, pelo que são sujeitos a verificação antes de serem publicados. Não serão aceites comentários de carácter insultuoso, discriminatório, racista ou spam.
Pesquisar
Ed. Anteriores
Contactos
Newsletter
 
Cartas ao Director
Blogue Tinta Fresca
Blogues
Sítios Úteis
 
OPINIÃO
Aprender a viver com o coronavírus
Mário Lopes
As doenças raras em Portugal e o papel da Medicina Interna
Dr. Paulo Castro Chaves
Em Portugal, ser raro… não é raro
Dr. Joaquim Brites
 

Projecto Co-Financiado por  Promotor  Desenvolvimento
Acessibilidade [Alt + D seguido de ENTER] D  POS_Conhecimento
FEDER União Europeia
FEDER
Associa��o de Munic�pios do Oeste Makewise - Engenharia de Sistemas de Informa��o