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Edição Nº 24 Director: Mário Lopes Quinta, 4 de Maio de 2006
Opinião
O Triunfo dos Porcos

António Honório 

"Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros...". Peço perdão pelo facto de a frase que transcrevo poder não ser fiel à obra de Orwell, contudo, mesmo que não seja fiel, é suficiente para ilustrar o tipo de "animal político" em que o Homem se transformou, a despeito do que disse Aristóteles. Constituem-se sinédrios, grita-se na rua por liberdade, agitam-se as bandeiras com o sangue e a pólvora, elaboram-se constituições e juram-se bandeiras, mas a verdade é que (nem) todos os homens nascem iguais...

Só existe uma espécie de Homens, o que exclui a "legitimidade natural e biológica" de excluir o seu "semelhante" diferentes, aliás, peço perdão: existem várias, infelizmente, espécies de Homem, a começar pela dos ignorantes e pretensiosos, a pior espécie que alguma vez poderia ter surgido, que desculpem os visados!

Mas, voltando a uma análise um pouco mais científica dos factos, só existe na verdade uma espécie humana, além de que todas as capacidades cognitivas inerentes ao ser humano deveriam possibilitar-lhe olhar além das diferenças físicas e estabelecer alguma espécie de colaboração para o avanço da Humanidade, ou, se isto for pedir demais, no mínimo, uma existência pacífica e ordenada, ainda que estanque.

É surpreendente o facto de o espírito medíocre ainda analisar os dados extra-humanos de um ponto de vista humano, ou seja, à moda dos Antigos que desenhavam deuses com forma humana (assim como cavalos os representariam com forma equestre, caso pudessem representar). Sendo assim, sempre estará esse espírito medíocre com medo, julgando e inventando perseguições, quando na verdade os carrascos são as suas próprias sombras.

Numa terra tão iluminada(?) como Alcobaça, já chegou o espírito Orwelliano, e não no sentido da questão constante, mas inefelizmente, no sentido da igualdade e da diferença: é possível notar isso nas ruas! Num mundo de futilidade e sobrevalorização da imagem, onde contam as marcas e os rótulos, até nos altos níveis de intelectualidade (se é que isso ainda existe), amigos e colegas e notas, e valores, e confiança, já não se escolhem com base em conversas de botequim, marcas de cigarros, interesses similares, amigos em comum, interesses estratégicos, não!, hoje tudo se escolhe consoante a marca de roupa que se use, telemóveis, e outras coisas que tais: até os palavrões estão segmentados!

Mais do que os grandes problemas de uma pequena cidade de província dividida no tempo, quase "sem rei nem roque", mais do que uma escolha entre "beto" ou "dread", surgem plenas dúvidas de coexistência e convivência um pouco por toda a parte. Campeia a confusão, a falta de confiança e tranparência nas relações interpessoais (talvez resultado de mais alguns exemplos superiores) e o mesmo ambiente que motivou as antigas caças à bruxa pode, a qualquer momento, ser novamente despoletado.

A intolerância e a incompreensão são os piores inimigos da convivência salutar dos povos. Não perceber que os ciganos são nómadas e isso lhes está no sangue, e portanto acusá-los de actividades ilícitas é fruto de uma dessas sombras projectadas pelo espírito medíocre. Defender que os mendigos não querem é trabalhar, rotulá-los como inúteis e castigá-los se se recusam a algo que, na sua perspectiva, os faça descer na sua dignidade própria é algo tão odiosamente hediondo como hipócrita, quando dito por alguém que defenda o fim da fome e se recuse a ajudar o Banco Alimentar!

Por isso triunfam os Porcos! Triunfa o animal que mais chafurde, mais grite, mais mostre o que não tem para mostrar... Triunfam as galinhas que cacarejam sempre que vão pôr o ovo, não vá alguém esquecer-se de lhes dar valor por algo tão pouco, triunfam os porcos que lutam pelo domínio da pocilga como se se tratasse do Éden revisitado... triunfa o General Porco ocupado a ocupar a melhor parte da pocilga, ou seja, a mais suja, enquanto que os bácoros que ficam na parte pior, a mais limpa, se tem que se prostrar a ele. Esta falta de noção, esta grave falha na definição de conceitos, de bem e mal, pior e melhor, algo já latente há muito tempo, agora se revela...

A solução não está em revoluções e motins, pois a história mostra-nos que até os mais oprimidos conseguem vir a ser os maiores opressores. Também um banho de sangue não poderá lavar as nódoas da inconsciência nem a prisão ou a opressão máxima abafam sentimentos, assim como a plena liberdade não traz responsabilidade.

Acho que vai sendo um pouco repetitivo estar sempre a defender que a solução é a educação, apesar, de, de facto, ser. Portanto creio que será preferível procurar na História uma solução, e ela surge! Desde os Descobrimentos, desde 1415 que o rumo da humanidade mudou radicalmente, e, salvo raríssimas e honrosas excepções, foi muito mal conseguido.

Mesmo nos séculos XIX e XX, que se apostou no estudo pormenorizado dos povos colonizados ou descobertos (que antes estavam perdidos, à deriva no mar...), poucos terão sido os estudiosos cujo objectivo fosse, necessariamente, estudar para compreender e unir. Muitos terão trocado o cunho de benfeitor pelo cunho de interesseiro, mas também muitos terão morrido por se recusarem a fazer essa troca: a eles os meus louvores!...

A solução... é pensar!

04-05-2006
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